O silêncio é uma criança a brincar.
O silêncio é gritar o amor sem dizer nada.
O silêncio é amar-te, assim, sem medida.
«As palavras pesam. Um texto nunca diz a dor das pequenas coisas» Graça Pires in Poemas escolhidos
O silêncio é uma criança a brincar.
O silêncio é gritar o amor sem dizer nada.
O silêncio é amar-te, assim, sem medida.
Ao acordar não vislumbro a poesia
e observo as flores da minha varanda.
Flores modestas que, naquele recanto,
são o meu pequeno jardim.
Nelas me revejo
na alegria com que me devolvem o olhar.
Será poesia?
Ou pura fantasia?
Afago-as com ternura
e sorrio.
Talvez a vida seja mais simples
quando aprendemos a encontrar perto
o que nos faz felizes.
Há tanto à nossa volta
que alegra e deslumbra,
porque na simplicidade
o belo encontra morada.
A poesia pode habitar
numa simples flor,
por vezes esquecida num canto,
mas que, no instante certo,
desabrocha,
corre nas veias,
acende o sangue,
reluz em nós
e abre caminhos.
O tempo é implacável!
Não se deixa dominar.
Esgueira-se
por entre os dedos das mãos
como grãos de areia na praia.
Quase sufoca
pela rapidez com que
nos ultrapassa.
Nada o detém.
Oprime o pensamento
e as névoas retiram
brilho ao olhar.
Os caminhos têm mais escolhos
e reaprende-se a caminhar.
Há que dar tempo ao tempo
e fingir alguma indiferença
perante a sua voracidade.
Deixar que a criança que nos habita,
se sobreponha ao tempo
e nos ensine a olhá-lo
com alguma complacência,
com alguma dignidade.
No teu olhar resgato um brilho,
como se fosse ontem,
o instante que hoje me recorda
as margens verdes do teu rio,
onde, com os pés imersos
nos reflexos do entardecer,
tentava alcançar-te
quando deslizavas no barco,
envolto nas brisas suaves
da tarde.
Quão breve é o tempo,
quão frias as margens,
como a tarde se desvanece
ao ritmo da vida...
Em silêncio,
escuto nos sons da natureza,
a tua voz maviosa,
como um canto de ave
a esvoaçar
em torno do meu ninho,
quase ao meu alcance,
quase distante.
Procuro-te
em cada aroma de flores,
como se me oferecesses
um delicado manjar,
tentação que me chama e se esconde.
E acordo...
Do sonho,
fica apenas o eco de ti
na luz suave do amanhecer,
presença que persiste
entre brilho fugaz e memória.
As minhas mãos estão geladas.
Escalei até ao topo da montanha
e o frio atormentou-me
como lâminas afiadas,
que me rasgaram a pele,
os pensamentos, o olhar, as mãos.
O teclado está-me interdito.
O poema que criei
fica em suspenso, guardado
no fundo da minha alma.
Talvez, amanhã, o sol resplandeça
e com o calor me conforte
e liberte desta inércia.
É que numa longa noite escura,
também há luz.
Na minha quietude
procuro refúgio entre sombras e flores,
sob o sol que arde fortemente
incendiando-me o olhar e o pensamento.
O meu corpo, lento, arrasta-se
como asa ferida, de ave em sobressalto.
A travessia é difícil; a sede seca-me os lábios.
As palavras emudecidas
não localizam o caminho até à fonte.
O suor molha-me o rosto, todo o corpo.
O silêncio incita-me a resistir
e a abraçar o verão.
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Permite que a luz penetre a minha sombra
e liberte os destroços que me levam à queda
nos abismos, que cruzam os meus percursos.
Permite que o meu olhar se estenda até ao horizonte
para apreciar o voo das aves
na melodia do entardecer, que acolho no meu peito.
Permite que o meu sonho se expanda ao longo daquela estrada
por onde caminho descalça e sozinha,
onde apenas procuro o pulsar de uma emoção.
Permite que seja apenas eu e o calor do teu abraço.
Misturam-se num terno olhar que
os eleva num doce e húmido sentir.
Quando os olhos se encontram
tudo paira para além dos sentidos,
mergulhando-os ternamente,
como nenúfares, num lago azul,
onde o céu reflete a claridade das nuvens.
O sol brilha e entoa
numa suave e refrescante aragem,
uma breve e anunciada sonata de outono.
Sentada na escarpa
vagueio o olhar pelo horizonte
que perscruta o entardecer,
de uma tarde de outono.
Recordo-me da varanda
de onde ao acordar
vislumbrava o amanhecer.
Os dias tão longos,
hoje tão curtos.
A alma imperturbável
recolhe nos recônditos da memória
as cores, que hoje tão distantes,
estão aprisionadas
no pensamento.
Quando a noite murmurar
o frio e a geada do inverno,
a primavera florescerá
nas pontas dos meus dedos.
Pé ante pé percorro a seara por maturar;
procuro as papoilas vermelhas
qual pôr do sol a raiar o chão.
Mil e uma cores abraçam-me o peito
e, por momentos, agarro outra flor e outra
e deixo para trás o vento
que teima em rodopiar-me nas mãos
o fogo intenso das primaveras,
que o tempo percorre no meu olhar.
Aqui e ali ouço o canto dos pássaros
e um presságio de esperança
acalenta-me a alma.
Vislumbro o meu rio que, plácido,
percorre no seu leito junto às margens
as memórias que guardo
como se fossem joias raras
refletidas nos seixos, que brilham ao sol.
Tudo tão longínquo e tão próximo,
como se a lezíria verdejante
me devolvesse o teu olhar refletido
como se fora ontem primavera
e os pássaros me oferecessem
o teu sorriso num broto florido.
O rio imperturbável não olha para trás
e apenas o silêncio me fala.