sábado, junho 27, 2026

Será que a poesia se apartou de mim

(Desconheço o autor)


Será que a poesia se apartou de mim

ou se encontra envolta em densa neblina

e os meus olhos não a enxergam,

pressentindo que o tempo troteia sobre

as palavras e não as deixa voar...

A primavera vai longe...

O tempo, inabalável,

mais veloz que o sopro do vento,

escapa por entre os dedos.

Por mais que tente agarrá-lo,

ele foge-me do corpo e da alma

e deixa-me numa solidão inesperada.

Talvez no outono eu ensaie um bailado

com as folhas em revoada a envolverem-me

e descubra que, afinal, a poesia pode estar

em qualquer momento, em qualquer circunstância

sempre que o olhar perscrute o horizonte

e se deixe envolver pela luz do entardecer,

a brilhar nas margens do rio que me corre na pele.


Texto
Emília Simões
27.06.2026


sábado, junho 20, 2026

Passo à tua porta


Passo à tua porta.

Subo, pedra a pedra, os anos

e já não vislumbro

o teu rosto,

que sorria para mim

assomando ao postigo

quando, aos saltos,

corria para o teu colo.

Tu, sempre, de braços estendidos.

A rua já não tem pedras.

Vestiu-se de negro.

À noite os pirilampos

já não a bordejam

como outrora, quando

me alumiavam o caminho.

O progresso passou por ali

e tu, já não estás!


Texto e foto
Emília Simões
20.06.2026
Imagem Google

sábado, junho 13, 2026

Na aridez dos dias

Pixabay


Na aridez dos dias

em que as manhãs acordam

sem horizontes definidos,

penumbras toldam os olhares

que sobre os barcos estendem as mãos vazias,

na procura do tudo e do nada

do tanto e tão pouco

num rio em chamas 

entre margens geladas

num silêncio profundo 

coberto de limos.

Ao longe, um estrondo, um gemido.

O mundo a desmoronar-se

sobre os barcos desfeitos

submersos nas cinzas

espalhadas no dorso do rio.


Texto,
Emília Simões
13.6.2026



sábado, junho 06, 2026

A poesia

 



Ao acordar não vislumbro a poesia

e observo as flores da minha varanda.
Flores modestas que, naquele recanto,
são o meu pequeno jardim.

Nelas me revejo
na alegria com que me devolvem o olhar.

Será poesia?
Ou pura fantasia?

Afago-as com ternura
e sorrio.

Talvez a vida seja mais simples
quando aprendemos a encontrar perto
o que nos faz felizes.

Há tanto à nossa volta
que alegra e deslumbra,
porque na simplicidade
o belo encontra morada.

A poesia pode habitar
numa simples flor,
por vezes esquecida num canto,
mas que, no instante certo,
desabrocha,

corre nas veias,
acende o sangue,

reluz em nós
e abre caminhos.

Texto e foto
Emília Simões
06.06.2026