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sábado, março 29, 2025

Nas montanhas aprendi o rumo


Nas montanhas aprendi o rumo
por caminhos oblíquos.
Rasguei a fome com mel
e flores silvestres.
Caminhei só, ao sol, à chuva,
suspensa em ramos de árvores
que me serviam de abrigo.
Subi a pulso um monte e outro.
O meu corpo transpirava sangue,
a noite entranhava-se-me na pele.
O silêncio fazia-me companhia.
Dormi com as aves e acordei
suspensa nos ninhos.
Chove sobre os meus olhos.
As nuvens parecem fontes
que se transformam em rios.
...
Agora o sol beijou-me o rosto.
Nas sombras encontrei a luz
e nas palavras renasci.

Texto e foto
Emília Simões
29.03.2025 

sábado, maio 11, 2024

No silêncio do quarto


No silêncio do quarto, ouço a manhã a cantar

nos pássaros a esvoaçar em redor dos ninhos,

nas flores a desabrochar e nas crianças a brincar

no pátio da antiga escola, onde joguei à cabra-cega.

O tempo adejou com o vento, deixando apenas rastos,

que hoje fazem a minha história parecer tão remota.

Nada está como dantes, muitas metamorfoses...

Até o rio corre aos soluços por entre os seixos

esculpindo nas margens ecos passados, de tão copioso.

Os campos devastados pelos incêndios não são os mesmos.

As casas são mais brancas, mas permanecem vazias.

Olho para trás e falta alma à minha aldeia.

A vida de outrora apagou-se e o sol já não tem brilho.


Texto e foto
Emília Simões
11.05.2024

sábado, março 30, 2024

O pasmo diante da candura das pétalas


O pasmo, diante da candura das pétalas.

O inseto suga-te o néctar.
Debaixo das asas, o chão
que os meus pés pisam
vagarosamente.

Naquela folha o desdém 
de quem não entende
o respirar dos pássaros
na construção dos ninhos.

Subo a escarpa e observo o horizonte.

Uma nuvem esconde o sol
e o dilúvio, de novo,
tomba sobre as folhas.

A luz reacende o entardecer
com a rapidez dum relâmpago.


Texto e foto
Emília Simões
30.03.2024

Desejo a todos os meus amigos e famílias uma santa e Feliz Pascoa!

domingo, outubro 08, 2023

Descobres nos ninhos



Descobres nos ninhos

a vocação dos pássaros

quando vazios

as asas se estendem

no voo em liberdade

até se confundirem

com a natureza.

Depois outro ninho

outras vidas

novos cantos de folha em folha.

A natureza

renova-se no relento da noite;

o dia renasce,

num pássaro a voar.


Texto e foto
Ailime
08.10.2023




sábado, maio 13, 2023

Por caminhos sinuosos



Por caminhos sinuosos

tão distantes e tão próximos

das árvores, com ninhos de pássaros,

ouço o chilrear dos melros.

Nos galhos, as folhas estremecem.

O vento voraz espalha-as no chão 

antes e depois da passagem

os meus pés apressam-se.

O dia entardece.

Apenas o brilho do crepúsculo

me faz lembrar o silêncio 

escondido numa flor 

que trepa pelas escarpas

que serpenteiam a costa,

duma praia invisível.

O mundo aquieta-se.

Só o murmúrio do mar

me responde.


Texto
Ailime
13.05.2023
Imagem Google

sábado, agosto 06, 2022

Com seu vestido bordado de cerejas

Imagem Net


Com o seu vestido bordado de cerejas
sob uma imaculada bata branca
viu-se ainda menina 
sentada no banco da escola
onde aprendeu as primeiras letras.

Num pequeno lapso de tempo
todas as memórias
lhe afloraram o pensamento
que vagueava como se 
fossem andorinhas 
a construir os ninhos
no alpendre do recreio.

Tudo lhe era tão próximo
como se ainda ontem entoasse a tabuada
e brincasse à linda falua, que "lá vem lá vem"...

O tempo, implacável, num raio de sol
desfez-lhe, por instantes, o encanto.
Mas não duvidava.
Dali, também podia abraçar o azul do seu rio.


Texto
Ailime
06.08.2022
Imagem Google


terça-feira, agosto 10, 2021

A velha varanda



A  velha varanda avança pela planície

que entra pelo rio adentro e evoca o tempo

dos dias claros e das nuvens azuis

que te circundavam o rosto e o olhar

onde agora repousa a solidão.


Os degraus  ladeados por glicínias

evocam os teu passos ausentes

onde outrora sorriam  as andorinhas.


Até os pássaros partiram

deixando os ninhos vazios

sob o alpendre da casa

de paredes brancas e nuas

que retêm todos os gestos

e as palavras que dissemos.


Texto e foto
Ailime
10.08.2021
Imagem Google




terça-feira, junho 15, 2021

Não sei medir o tempo


Não sei medir o tempo por gestos.

As andorinhas voltam na primavera,

fazem os ninhos

sempre no mesmo local

e  espanto-me com a sua precisão.

Ganham asas, voejam

e regressam de novo

não se desviando da rota.

Não sei medir  o tempo por palavras

que guardo nos silêncios

quando as manhãs acordam

para o ciclo da vida.

Não sei medir o tempo  por  sóis

que dançam nas sombras  dos abismos

e ressoam nos ecos das escarpas.

Sei medir o tempo apenas quando o relento

me fala de uma nova lucidez.


Texto
Ailime
15.06.2021
Imagem Google

quarta-feira, maio 08, 2019

Nos degraus da casa


Nos degraus da casa 
em escombros 
ouço-te em cada passo 
como se o passado 
se detivesse nas paredes 
caiadas de cinza
onde as andorinhas 
ainda fazem os ninhos. 

À noite os pirilampos 
cintilavam como estrelas 
a bordejar os caminhos 
desfazendo as trevas 
os fantasmas 
as sombras  
que te sobrevoavam  
na escuridão  
que preenchia o silêncio 
ainda mais espesso que a noite. 

Na fugacidade do tempo 
ainda hoje não sei distinguir a luz 
da escuridão. 


Ailime
08.05.2019
Imagem Google

  

sábado, fevereiro 23, 2019

As musas


Nem sempre as musas alastram
Nas sombras dos bosques
Onde o silêncio se queda
Nas teias de luz
Que fugazmente me acariciam.

Mas as palavras soltam-se
Como pássaros em redor dos ninhos
E, por instantes, o luar
Irrompe como um espelho
E reflete no abraço da noite
A limpidez das estrelas.




18.08.2013
Reedição revista
Ailime
Imagem Google