terça-feira, junho 08, 2021

Desfolho-te e leio-te



Desfolho-te  e leio-te como se fosse a primeira vez.

Nem imaginas quanto gosto do gesto.

Os meus dedos cautelosos parecem sorrir

a cada página que me segreda silêncios,

ecos, sinais de luz  e metamorfoses.


Hoje encontrei um malmequer  ressequido

marcando a fronteira do que ainda não li

e ali me detive. Quanto tempo? perguntei-me.

Só sei que me abandonei ao olhar-te

tanto quanto o tempo que demorei a chegar a ti.


Texto e foto
Ailime
08.06.2021

quarta-feira, junho 02, 2021

Na vastidão do tempo

 
Paulo Heliodoro


Na vastidão do tempo percorro as margens

cintilam estrelas no  rio 

os peixes sabem a hora do desassossego

tão perto e tão longe dos teus olhos

o luar resguarda o barco.

Não te atreves a desviar o olhar

do infinito, que te cerceia as marés

as tuas mãos vazias puxam as redes.

Ontem era o tempo de enchentes

hoje o rio afunda-se na maré vaza

tudo tão estranho, tão vago.

No barco agora encalhado

o voo rasante dos pássaros.


Texto 
Ailime
02.06.2021


quarta-feira, maio 26, 2021

Já não sei das palavras



Já não sei das palavras.


Procuro-as entre o amontoado de papéis

e só vislumbro rascunhos indecifráveis,

restos de folhas amarelas, com pó,

pétalas de rosas secas.


Vem-me  à memória o que escrevi

e não sei enxergar o tempo

que me leva até ti,

no esplendor dos dias ontem.


Tudo tão belo, mas tão breve.



Texto e foto
Ailime
26.05.2021

quarta-feira, maio 19, 2021

Na celeridade do tempo



Na celeridade do tempo esculpimos as horas

como se os ponteiros do relógio nos cingissem

ao que gostaríamos de pensar e sentir.

 

A montanha já não é verde

Os peixes já não sabem de cor o rio

Nos olhos as margens secaram-se.

 

Para lá da tarde que cruzámos,

o silêncio e a solidão

abreviam o pôr do sol.

Pergunto-te o nome do porvir.

 

Texto
Ailime
19.05.2021


quarta-feira, maio 12, 2021

Tinhas o brio de um diplomata


Tinhas o brio de um diplomata

e a passividade redentora

de quem abomina a injustiça.

Teus pés calcorreavam quilómetros.

O sol caía a pino;

sem queixumes descias  vales

e subias escarpas semeando o pão.

Esculpias com os dedos na terra

o ciclo das águas

que mitigavam a sede  

do que plantavas com amor;

desse amor  brotavam flores e frutos.

Os teus olhos brilhavam de espanto

como se o sol te nascesse no gesto 

quando finalmente descansavas as mãos sobre o rosto;

como se a tua verdade fosse apenas um simples gesto.


Texto
Ailime
12.05.2021

Imagem Net (autor desconhecido)




quarta-feira, maio 05, 2021

No limiar da porta ainda há vestígios

José Malhoa

No limiar da porta ainda há vestígios;

a luz detinha-se no teu colo

e abrias as mãos num gesto 

como a querer agarrar o dia

que te fugia por entre os dedos;

recordo a leveza indelével

com que aprisionavas o tempo

quando o pôr do sol

te refulgia no rosto

o desgaste que te prendia

ao silêncio das palavras encobertas.

Era o tempo em que os pássaros

se recolhiam antes do voo.


Texto
Ailime
05.05.2021

terça-feira, abril 27, 2021

Percorri contigo os caminhos do vento



Percorri contigo os caminhos do vento

agarraste-me pela mão e levaste-me 

pela charneca em flor, na primavera

das memórias.

As fragâncias inebriavam-me os sentidos

e era como se fosse a primeira vez

que me deleitava com todas as cores

que faziam círculos em meu redor.

Amarelas, roxas, brancas, verdes

todas as cores do meu universo

estavam ali.

Perdi-me no meio delas e redopiei

qual bailarina em pontas

no mais belo palco do mundo.

O meu e o teu mundo.


 

Texto e foto
Ailime
27.04.2021

 


quinta-feira, abril 22, 2021

Nas calçadas ainda há vestígios

 



Nas calçadas ainda há vestígios
das flores rubras da manhã
que bebi como um néctar
quando a madrugada se soltou 

Pássaros esvoaçavam de galho em galho
e alertei-os da chegada da primavera.
Sorriram e voaram mais alto
a perpetrarem a canção
que as vozes ainda sustinham

Em bandos, todos os outros pássaros
entoavam já a melopeia
a incendiar a manhã
que eu percorria com pasmo



Texto
Ailime
Reedição
20.04.2020
Imagem Pinterest

quarta-feira, abril 14, 2021

Com palavras construo o tempo

 



Com palavras construo o tempo

a resvalar por entre os dedos

desvendando memórias

e sobressaltos

presos na alma,

onde concebo o futuro.

Há momentos em que

a minha  voz velada

se prende no deserto

e a sede  fere-me os lábios

e as mãos vazias e gastas

fazem eco de silêncios,

que não guardam as palavras

que se desprendem de mim.

Atravesso o tempo como asas em pleno voo.



Texto
Ailime
14.04.2021
Imagem Google

quarta-feira, abril 07, 2021

Os sons do vento





Espanto-me com os sons do vento

que me arrebatam  no cimo do monte

os pássaros afinam o canto

brilha-me o sol no olhar.

Na clareira descanso sobre a pedra

meus ombros pesados 

caem-me sobre o colo.

Da floresta, apenas o silêncio

das sombras.

Estremeço.

Estendo-me sobre um manto de musgo

a tua voz ainda tão longe.

 


Texto
Ailime
07.04.2021
Imagem Google