sábado, fevereiro 21, 2026

Tão longe, as manhãs

 

Juan Francisco Gonzalez


Tão longe,
as manhãs
na casa
onde às vezes
regresso.

Tudo repousa
como sempre,
mas tinha outra grandeza...
Uma vastidão
que o tempo levou.

O rio corre sereno
lá em baixo,
levando consigo
os seixos que brilhavam ao sol,
e o meu saltitar, leve,
em torno do moinho
e o riso
que não cabem mais em mim.

A lezíria era
uma sinfonia de cores;
as águas mais verdes,
as nuvens mais azuis,
os pássaros cantavam
como se o mundo inteiro os ouvisse,
e o ar tremia
com a promessa do instante.

Pisavas o chão
com leveza,
sem saber que cada passo
se tornaria vento,
cada gesto, sombra suave
no tempo.

Agora,
no resplendor da manhã
cada vez mais distante,
debruço o olhar
sobre a vastidão da ausência,
onde o que fui
se mistura
com o que não posso tocar,
e a saudade respira,
leve e infinita,
como luz filtrada
pelas nuvens.

Texto (revisto)
Emília Simões
Out/2021 


sexta-feira, fevereiro 13, 2026

O pensamento imerge no silêncio

Mariusz Lewandowski



O pensamento imerge no silêncio,

e o silêncio alimenta-se do pensamento.

Juntos são inevitáveis na construção da vida,

na criação do poema.

Quando as palavras se refugiam

no mais recôndito do ser,

o silêncio mergulha no escuro;

mas logo o pensamento o desperta

e ambos entram num bailado

de ideias, sem terem a certeza de nada;

como pássaros que esvoaçam à deriva,

aguardando que a primavera

deslinde as suas raízes.


Texto (revisto)
Emília Simões
04.02.2023

sexta-feira, fevereiro 06, 2026

Caminho sem destino...


 

Caminho sem destino…

Pelas faces escorre-me o sal
das tuas dores,

quando amanheces
na tua cama
de água e lama,

no vazio que te escava,
a tormenta no peito dorido,
pelo frio que te trespassa a alma
e o coração ferido,

pela solidão que te rodeia
como uma ilha
a flutuar no deserto.

Sinto o sol aproximar-se.
A força a reerguer-te.

Amanhã terás um mundo novo
que te abraçará com a força
da esperança e do amor.


Texto e foto
Emília Simões
06.02.2026 


sábado, janeiro 31, 2026

A natureza também chora


A natureza também chora.

Do seu ventre escorrem
lágrimas de rosas 
quando o vento em delírio,
no seu ímpeto devastador,
arrasta rios, vales, montanhas,
tudo o que habita
o coração do homem.

Impávido, ele vê a sua pequenez
mergulhar no abismo 
de uma noite imensa e escura.

Muitas luzes se acendem.

É tempo de endireitar veredas
e vencer a indiferença.

A terra clama.
A terra chora.

Ninguém ouve.


Texto e foto
Emília Simões
31.01.2026




sábado, janeiro 24, 2026

A chuva

(desconheço o autor)

A chuva é poesia a cair das nuvens

envolvendo-me em paz e silêncio

quando a observo através da janela,

como se fosse um momento

de introspeção sobre a vida.


A chuva é esperança a inundar-me o regaço, 

como pássaros

que anteveem a primavera

nos seus voos molhados,

suspensos sob os beirais.


A chuva é uma melodia

que me embala e traz consolo,

quando o vazio se instala em mim

e o frio me trespassa, deixando

o meu corpo exausto.

 

A chuva tem um cheiro singular.

Rega a terra e prepara-a

para que a vida renasça na primavera,

aqueça os corpos no calor do verão

e nos ofereça a beleza de outono.


Não tardará e será outra vez inverno.

A chuva voltará a cair

e dentro de mim

os pássaros molhados

voltarão de novo a cantar.


Texto:
Emília Simões
24.01.2026
Imagem (Net) desconheço
o autor


sábado, janeiro 17, 2026

Sob o céu dos dias longínquos

Desconheço o autor


Sob o céu dos dias longínquos

nas margens do nosso rio

ouço no marulhar das águas

o som da tua voz,

que me reprendia em silêncio

das traquinices de criança.

Eras sereno, compreensivo.

Tinhas um coração tão grande.

Hoje tudo mudou; como gostaria

de prolongar as conversas de anos mais tarde,

em que trocávamos ideias sobre o mundo,

sobre as gentes e o modo de pensar.

O que pensarias sobre o dia de amanhã?

Viveste o antes e o depois.

Sei que o teu coração e o meu

convergiam; tu me ensinaste história.

História hoje maltratada, rasgada,

incompreendida e esquecida.

Que fizeram ao nosso rio?

Sinto o desconforto das margens,

onde navegam barcos à deriva.


Texto
Emília Simões
17.01.2026



sábado, janeiro 10, 2026

As minhas mãos


As minhas mãos estão geladas.

Escalei até ao topo da montanha

e o frio atormentou-me

como lâminas afiadas,

que me rasgaram a pele, 

os pensamentos, o olhar, as mãos.

O teclado está-me interdito.

O poema que criei

fica em suspenso, guardado

no fundo da minha alma.

Talvez, amanhã, o sol resplandeça

e com o calor me conforte

e liberte desta inércia.

É que numa longa noite escura,

também há luz.


Texto e foto
Emília Simões
10.01.2026



sábado, janeiro 03, 2026

Nos teus olhos

Pixabay


Nos teus olhos quietos não se vislumbrava alegria.
Por vezes choravas e eu perguntava-te - porquê?
Não me respondias e, triste, não pensava em nada.
Fazia-se silêncio entre nós.
Era ainda muito criança,
para entender as dores dos adultos.

A tristeza morava em ti, silenciosa.
Olhavas o mundo sem tocá-lo;
calavas as feridas que te rasgavam por dentro,
presas naquele olhar profundo,
onde a angústia se escondia.

Dos teus olhos brotavam lágrimas,
como pérolas, a rolar pelo teu rosto belo.
Algumas caíam-me sobre as mãos,
que inocentemente te estendia.

Raramente sorrias.
O teu mundo fechava-se em ti,
apertava-te o peito,
e eu sentia, sem compreender,
que algo te consumia por dentro.

Ali, em silêncio, frente a frente,
ficávamos a olhar-nos
sem palavras, sem respostas.
Talvez o tempo, um dia,
me ensinasse aquilo que o teu olhar
guardava.

Texto
Emília Simões
03.01.2026



sábado, dezembro 27, 2025

Percorro os caminhos

 


Percorro os caminhos de outrora

cobertos de geada.

Nos escombros dos muros, o musgo

escorre a fria madrugada,

que acolhe os pássaros feridos 

de mais uma noite ao relento.

Sobre o rio, neblinas

vertem o orvalho da manhã,

que cava no teu rosto

as cicatrizes da noite,

que te embalam no silêncio

onde mergulhas a voz.

A luz tarda, mas já se anuncia

na cor purpúrea do amanhecer.

Texto 
Emília Simões
10.12.2022
Imagem Google
(Reedição revista)

*Desejo a todos um feliz e abençoado
Ano de 2026, com muita saúde, paz e amor,
extensivo a vossos familiares.

sábado, dezembro 20, 2025

O Natal

Freepik


O Natal  de Jesus aproxima-se!
Será mais um Natal ou simplesmente
um desfile de pessoas pelas ruas das cidades,
em correria ofuscada pelas luzes,
em busca de tudo e de nada.

Numa viela escura e suja, alguém

com frio estende a mão.
Ninguém para, ninguém enxerga.

Mesas cheias, lareiras a crepitar,
alegria vibrante.
Numa casa sem luz nem pão
alguém chora, pede auxílio...
Mas onde está o verdadeiro
espírito de Natal?
Será que o Deus Menino
ali fez a sua morada?

Ao longe ressoam os estrondos da guerra.
Onde está a paz? Onde habita?
As crianças, Senhor, passam fome,
sem brinquedos, sem coisa alguma,
chorando enquanto as suas mães
derramam lágrimas de dor.

Senhor, vem depressa 
ajudar o teu povo desgovernado e aflito,
suavizando a sua fome e sede,
com o teu Amor e a tua paz!

Texto
Emília Simões
20.12.2025

Aproveito para desejar a todos os amigos
e suas famílias, 
um bom Natal, com saúde, amor e paz!

Boas Festas e que 2026
seja um ano melhor para todos nós.