sábado, janeiro 31, 2026

A natureza também chora


A natureza também chora.

Do seu ventre escorrem
lágrimas de rosas 
quando o vento em delírio,
no seu ímpeto devastador,
arrasta rios, vales, montanhas,
tudo o que habita
o coração do homem.

Impávido, ele vê a sua pequenez
mergulhar no abismo 
de uma noite imensa e escura.

Muitas luzes se acendem.

É tempo de endireitar veredas
e vencer a indiferença.

A terra clama.
A terra chora.

Ninguém ouve.


Texto e foto
Emília Simões
31.01.2026




sábado, janeiro 24, 2026

A chuva

(desconheço o autor)

A chuva é poesia a cair das nuvens

envolvendo-me em paz e silêncio

quando a observo através da janela,

como se fosse um momento

de introspeção sobre a vida.


A chuva é esperança a inundar-me o regaço, 

como pássaros

que anteveem a primavera

nos seus voos molhados,

suspensos sob os beirais.


A chuva é uma melodia

que me embala e traz consolo,

quando o vazio se instala em mim

e o frio me trespassa, deixando

o meu corpo exausto.

 

A chuva tem um cheiro singular.

Rega a terra e prepara-a

para que a vida renasça na primavera,

aqueça os corpos no calor do verão

e nos ofereça a beleza de outono.


Não tardará e será outra vez inverno.

A chuva voltará a cair

e dentro de mim

os pássaros molhados

voltarão de novo a cantar.


Texto:
Emília Simões
24.01.2026
Imagem (Net) desconheço
o autor


sábado, janeiro 17, 2026

Sob o céu dos dias longínquos

Desconheço o autor


Sob o céu dos dias longínquos

nas margens do nosso rio

ouço no marulhar das águas

o som da tua voz,

que me reprendia em silêncio

das traquinices de criança.

Eras sereno, compreensivo.

Tinhas um coração tão grande.

Hoje tudo mudou; como gostaria

de prolongar as conversas de anos mais tarde,

em que trocávamos ideias sobre o mundo,

sobre as gentes e o modo de pensar.

O que pensarias sobre o dia de amanhã?

Viveste o antes e o depois.

Sei que o teu coração e o meu

convergiam; tu me ensinaste história.

História hoje maltratada, rasgada,

incompreendida e esquecida.

Que fizeram ao nosso rio?

Sinto o desconforto das margens,

onde navegam barcos à deriva.


Texto
Emília Simões
17.01.2026



sábado, janeiro 10, 2026

As minhas mãos


As minhas mãos estão geladas.

Escalei até ao topo da montanha

e o frio atormentou-me

como lâminas afiadas,

que me rasgaram a pele, 

os pensamentos, o olhar, as mãos.

O teclado está-me interdito.

O poema que criei

fica em suspenso, guardado

no fundo da minha alma.

Talvez, amanhã, o sol resplandeça

e com o calor me conforte

e liberte desta inércia.

É que numa longa noite escura,

também há luz.


Texto e foto
Emília Simões
10.01.2026



sábado, janeiro 03, 2026

Nos teus olhos

Pixabay


Nos teus olhos quietos não se vislumbrava alegria.
Por vezes choravas e eu perguntava-te - porquê?
Não me respondias e, triste, não pensava em nada.
Fazia-se silêncio entre nós.
Era ainda muito criança,
para entender as dores dos adultos.

A tristeza morava em ti, silenciosa.
Olhavas o mundo sem tocá-lo;
calavas as feridas que te rasgavam por dentro,
presas naquele olhar profundo,
onde a angústia se escondia.

Dos teus olhos brotavam lágrimas,
como pérolas, a rolar pelo teu rosto belo.
Algumas caíam-me sobre as mãos,
que inocentemente te estendia.

Raramente sorrias.
O teu mundo fechava-se em ti,
apertava-te o peito,
e eu sentia, sem compreender,
que algo te consumia por dentro.

Ali, em silêncio, frente a frente,
ficávamos a olhar-nos
sem palavras, sem respostas.
Talvez o tempo, um dia,
me ensinasse aquilo que o teu olhar
guardava.

Texto
Emília Simões
03.01.2026



sábado, dezembro 27, 2025

Percorro os caminhos

 


Percorro os caminhos de outrora

cobertos de geada.

Nos escombros dos muros, o musgo

escorre a fria madrugada,

que acolhe os pássaros feridos 

de mais uma noite ao relento.

Sobre o rio, neblinas

vertem o orvalho da manhã,

que cava no teu rosto

as cicatrizes da noite,

que te embalam no silêncio

onde mergulhas a voz.

A luz tarda, mas já se anuncia

na cor purpúrea do amanhecer.

Texto 
Emília Simões
10.12.2022
Imagem Google
(Reedição revista)

*Desejo a todos um feliz e abençoado
Ano de 2026, com muita saúde, paz e amor,
extensivo a vossos familiares.

sábado, dezembro 20, 2025

O Natal

Freepik


O Natal  de Jesus aproxima-se!
Será mais um Natal ou simplesmente
um desfile de pessoas pelas ruas das cidades,
em correria ofuscada pelas luzes,
em busca de tudo e de nada.

Numa viela escura e suja, alguém

com frio estende a mão.
Ninguém para, ninguém enxerga.

Mesas cheias, lareiras a crepitar,
alegria vibrante.
Numa casa sem luz nem pão
alguém chora, pede auxílio...
Mas onde está o verdadeiro
espírito de Natal?
Será que o Deus Menino
ali fez a sua morada?

Ao longe ressoam os estrondos da guerra.
Onde está a paz? Onde habita?
As crianças, Senhor, passam fome,
sem brinquedos, sem coisa alguma,
chorando enquanto as suas mães
derramam lágrimas de dor.

Senhor, vem depressa 
ajudar o teu povo desgovernado e aflito,
suavizando a sua fome e sede,
com o teu Amor e a tua paz!

Texto
Emília Simões
20.12.2025

Aproveito para desejar a todos os amigos
e suas famílias, 
um bom Natal, com saúde, amor e paz!

Boas Festas e que 2026
seja um ano melhor para todos nós.

sábado, dezembro 13, 2025

No teu colo

Pixabay


Uma cozinha pequena,
uma lareira grande
e uma fogueira
de chamas a crepitar.

As varas com os enchidos,
na enorme chaminé,
lembravam a matança do porco,
ritual antigo do inverno.

Lá fora, geada e vento.
Tão frio era o inverno.
Era dezembro, mês de Natal.

A tua casa era modesta, mas ampla.
Nela morava o meu aconchego
nos longos serões de inverno,
até adormecer
no calor da lareira.

No teu colo, pela rua iluminada
pelos pirilampos que a ladeavam,
percorríamos o caminho de volta
à minha casa, um pouco acima.

Quando acordava de manhã,
ainda sentia o calor
do teu colo
e da lareira acesa.

Emília Simões
13.12.2025

sábado, dezembro 06, 2025

Tertúlia de Amor nº 5

  Participo na 5ª Tertúlia de Amor da nossa Amiga Rosélia, proposta no seu Blogue Amor Azul.

Grata, Amiga, pelo seu honroso convite.


Desprendidos do mundo
voamos ao sabor do vento,
num mar de papoilas vermelhas
que se abre à nossa passagem.

Como etéreas borboletas 
dançamos sobre o tempo;
o mundo inteiro é nosso,
livre de sombras, pleno de fulgor.

Somos livres para pensar, para amar,
para rir como crianças,
para festejar o nosso enlace,
para celebrar a vida.

De mãos dadas, cruzaremos horizontes,
o amor guia-nos, suave e constante.
Com doce cumplicidade 
construiremos pontes
entre o amor e a felicidade.

Texto
Emília Simões
03.12.2025



sábado, novembro 29, 2025

Um banco solitário

Pixabay

O outono revela-se nas pequenas coisas

que os meus olhos enxergam com pasmo.

No silêncio do vento, o outono guarda

folhas secas com segredos de vidas passadas.

Às vezes, nomes gravados revelam

amores antigos que por ali passaram, 

no parque, onde um banco solitário

imerso num mar de folhas,

parece lamentar as ausências,

antes tão presentes e comuns.

Hoje, ninguém tem tempo

para descansar no velho parque

e escutar os silêncios e o sussurrar do vento,

nas cirandas das folhas em rodopio.

Ainda é tempo para redescobrir os silêncios

e os segredos que aguardam uma nova vida.

Texto
Emília Simões
29.11.2025