sexta-feira, fevereiro 13, 2026

O pensamento imerge no silêncio

Mariusz Lewandowski



O pensamento imerge no silêncio,

e o silêncio alimenta-se do pensamento.

Juntos são inevitáveis na construção da vida,

na criação do poema.

Quando as palavras se refugiam

no mais recôndito do ser,

o silêncio mergulha no escuro;

mas logo o pensamento o desperta

e ambos entram num bailado

de ideias, sem terem a certeza de nada;

como pássaros que esvoaçam à deriva,

aguardando que a primavera

deslinde as suas raízes.


Texto (revisto)
Emília Simões
04.02.2023

sexta-feira, fevereiro 06, 2026

Caminho sem destino...


 

Caminho sem destino…

Pelas faces escorre-me o sal
das tuas dores,

quando amanheces
na tua cama
de água e lama,

no vazio que te escava,
a tormenta no peito dorido,
pelo frio que te trespassa a alma
e o coração ferido,

pela solidão que te rodeia
como uma ilha
a flutuar no deserto.

Sinto o sol aproximar-se.
A força a reerguer-te.

Amanhã terás um mundo novo
que te abraçará com a força
da esperança e do amor.


Texto e foto
Emília Simões
06.02.2026 


sábado, janeiro 31, 2026

A natureza também chora


A natureza também chora.

Do seu ventre escorrem
lágrimas de rosas 
quando o vento em delírio,
no seu ímpeto devastador,
arrasta rios, vales, montanhas,
tudo o que habita
o coração do homem.

Impávido, ele vê a sua pequenez
mergulhar no abismo 
de uma noite imensa e escura.

Muitas luzes se acendem.

É tempo de endireitar veredas
e vencer a indiferença.

A terra clama.
A terra chora.

Ninguém ouve.


Texto e foto
Emília Simões
31.01.2026




sábado, janeiro 24, 2026

A chuva

(desconheço o autor)

A chuva é poesia a cair das nuvens

envolvendo-me em paz e silêncio

quando a observo através da janela,

como se fosse um momento

de introspeção sobre a vida.


A chuva é esperança a inundar-me o regaço, 

como pássaros

que anteveem a primavera

nos seus voos molhados,

suspensos sob os beirais.


A chuva é uma melodia

que me embala e traz consolo,

quando o vazio se instala em mim

e o frio me trespassa, deixando

o meu corpo exausto.

 

A chuva tem um cheiro singular.

Rega a terra e prepara-a

para que a vida renasça na primavera,

aqueça os corpos no calor do verão

e nos ofereça a beleza de outono.


Não tardará e será outra vez inverno.

A chuva voltará a cair

e dentro de mim

os pássaros molhados

voltarão de novo a cantar.


Texto:
Emília Simões
24.01.2026
Imagem (Net) desconheço
o autor


sábado, janeiro 17, 2026

Sob o céu dos dias longínquos

Desconheço o autor


Sob o céu dos dias longínquos

nas margens do nosso rio

ouço no marulhar das águas

o som da tua voz,

que me reprendia em silêncio

das traquinices de criança.

Eras sereno, compreensivo.

Tinhas um coração tão grande.

Hoje tudo mudou; como gostaria

de prolongar as conversas de anos mais tarde,

em que trocávamos ideias sobre o mundo,

sobre as gentes e o modo de pensar.

O que pensarias sobre o dia de amanhã?

Viveste o antes e o depois.

Sei que o teu coração e o meu

convergiam; tu me ensinaste história.

História hoje maltratada, rasgada,

incompreendida e esquecida.

Que fizeram ao nosso rio?

Sinto o desconforto das margens,

onde navegam barcos à deriva.


Texto
Emília Simões
17.01.2026



sábado, janeiro 10, 2026

As minhas mãos


As minhas mãos estão geladas.

Escalei até ao topo da montanha

e o frio atormentou-me

como lâminas afiadas,

que me rasgaram a pele, 

os pensamentos, o olhar, as mãos.

O teclado está-me interdito.

O poema que criei

fica em suspenso, guardado

no fundo da minha alma.

Talvez, amanhã, o sol resplandeça

e com o calor me conforte

e liberte desta inércia.

É que numa longa noite escura,

também há luz.


Texto e foto
Emília Simões
10.01.2026



sábado, janeiro 03, 2026

Nos teus olhos

Pixabay


Nos teus olhos quietos não se vislumbrava alegria.
Por vezes choravas e eu perguntava-te - porquê?
Não me respondias e, triste, não pensava em nada.
Fazia-se silêncio entre nós.
Era ainda muito criança,
para entender as dores dos adultos.

A tristeza morava em ti, silenciosa.
Olhavas o mundo sem tocá-lo;
calavas as feridas que te rasgavam por dentro,
presas naquele olhar profundo,
onde a angústia se escondia.

Dos teus olhos brotavam lágrimas,
como pérolas, a rolar pelo teu rosto belo.
Algumas caíam-me sobre as mãos,
que inocentemente te estendia.

Raramente sorrias.
O teu mundo fechava-se em ti,
apertava-te o peito,
e eu sentia, sem compreender,
que algo te consumia por dentro.

Ali, em silêncio, frente a frente,
ficávamos a olhar-nos
sem palavras, sem respostas.
Talvez o tempo, um dia,
me ensinasse aquilo que o teu olhar
guardava.

Texto
Emília Simões
03.01.2026



sábado, dezembro 27, 2025

Percorro os caminhos

 


Percorro os caminhos de outrora

cobertos de geada.

Nos escombros dos muros, o musgo

escorre a fria madrugada,

que acolhe os pássaros feridos 

de mais uma noite ao relento.

Sobre o rio, neblinas

vertem o orvalho da manhã,

que cava no teu rosto

as cicatrizes da noite,

que te embalam no silêncio

onde mergulhas a voz.

A luz tarda, mas já se anuncia

na cor purpúrea do amanhecer.

Texto 
Emília Simões
10.12.2022
Imagem Google
(Reedição revista)

*Desejo a todos um feliz e abençoado
Ano de 2026, com muita saúde, paz e amor,
extensivo a vossos familiares.

sábado, dezembro 20, 2025

O Natal

Freepik


O Natal  de Jesus aproxima-se!
Será mais um Natal ou simplesmente
um desfile de pessoas pelas ruas das cidades,
em correria ofuscada pelas luzes,
em busca de tudo e de nada.

Numa viela escura e suja, alguém

com frio estende a mão.
Ninguém para, ninguém enxerga.

Mesas cheias, lareiras a crepitar,
alegria vibrante.
Numa casa sem luz nem pão
alguém chora, pede auxílio...
Mas onde está o verdadeiro
espírito de Natal?
Será que o Deus Menino
ali fez a sua morada?

Ao longe ressoam os estrondos da guerra.
Onde está a paz? Onde habita?
As crianças, Senhor, passam fome,
sem brinquedos, sem coisa alguma,
chorando enquanto as suas mães
derramam lágrimas de dor.

Senhor, vem depressa 
ajudar o teu povo desgovernado e aflito,
suavizando a sua fome e sede,
com o teu Amor e a tua paz!

Texto
Emília Simões
20.12.2025

Aproveito para desejar a todos os amigos
e suas famílias, 
um bom Natal, com saúde, amor e paz!

Boas Festas e que 2026
seja um ano melhor para todos nós.

sábado, dezembro 13, 2025

No teu colo

Pixabay


Uma cozinha pequena,
uma lareira grande
e uma fogueira
de chamas a crepitar.

As varas com os enchidos,
na enorme chaminé,
lembravam a matança do porco,
ritual antigo do inverno.

Lá fora, geada e vento.
Tão frio era o inverno.
Era dezembro, mês de Natal.

A tua casa era modesta, mas ampla.
Nela morava o meu aconchego
nos longos serões de inverno,
até adormecer
no calor da lareira.

No teu colo, pela rua iluminada
pelos pirilampos que a ladeavam,
percorríamos o caminho de volta
à minha casa, um pouco acima.

Quando acordava de manhã,
ainda sentia o calor
do teu colo
e da lareira acesa.

Emília Simões
13.12.2025