Procurei girassóis no lugar do costume.
Girassóis amarelos, naturalmente,
porque durante toda a minha vida
só dessa cor os conheci.
O verão é generoso com eles.
E como são belos os girassóis,
seguindo a luz do sol
até quase se apagarem
quando a tarde cai.
Queria fotografá-los,
acrescentar mais algumas imagens
à minha extensa coleção.
Esfreguei os olhos.
Não fosse algum mosquito
ter-me toldado a visão,
ou talvez uma catarata
a anunciar-se em silêncio.
Mas a cor bordô
persistia na retina.
Teria os olhos ensanguentados?
Era essa a minha dúvida.
A minha sombra sossegou-me:
— Estás a ver bem.
Os girassóis são mesmo vermelhos,
bordô.
Ainda desconfiei
de alguma discromia descontrolada.
— Não. Está tudo bem —
insistiu a minha sombra.
Descansei
e fotografei-os.
As imagens ficaram arquivadas
até que, hoje,
me lembrei delas.
E porque o mundo
continua a surpreender-me,
descobri que existem, afinal,
girassóis bordô.
Sorri.
Há sempre uma cor
que ainda não vimos,
uma flor
que ainda não conhecemos.
