CANTO-MEU (poesia e simples palavras)
«As palavras pesam. Um texto nunca diz a dor das pequenas coisas» Graça Pires in Poemas escolhidos
sábado, maio 02, 2026
O silêncio...
sábado, abril 25, 2026
QUANDO ABRIL NASCEU!
Naquela madrugada
a cidade acordou antes do tempo.
Pássaros em alvoroço
sobrevoavam barcos,
marés cheias,
escarpas e silêncios.
O rio, lá em baixo, a espreitar,
azul de tanto céu.
Estalavam foguetes,
rostos mudos de espanto,
clarões,
olhares incrédulos.
Onde estavam as sombras?
multidão em êxtase,
sorrisos e abraços.
A longa noite expirara.
Uma flor ergueu-se,
rubra como sol nascente,
no cano duma espingarda —
iluminou Abril.
sábado, abril 18, 2026
No teu olhar ...
No teu olhar resgato um brilho,
como se fosse ontem,
o instante que hoje me recorda
as margens verdes do teu rio,
onde, com os pés imersos
nos reflexos do entardecer,
tentava alcançar-te
quando deslizavas no barco,
envolto nas brisas suaves
da tarde.
Quão breve é o tempo,
quão frias as margens,
como a tarde se desvanece
ao ritmo da vida...
Emília Simões
18.04.2026
sábado, abril 11, 2026
A raiz ignora
A raiz ignora
que sustenta a árvore.
As folhas,
sem saber porquê,
entregam-se ao vento
e, sobre o rio,
vão como barcos
à deriva suave,
tocadas por brisas leves
nas tardes amenas de verão.
Nas margens azuis,
onde os seixos
brilham ao sol,
há uma primavera suspensa
nas neblinas verdes,
espelhadas na corrente
do rio
que passa indiferente
à luz
e ao tempo.
Emília Simões
11.04.2026
(Estarei ausente durante uma semana)
sábado, abril 04, 2026
Nos tons do entardecer
um brilho que parece fugir-me.
Em silêncio,
escuto nos sons da natureza,
a tua voz maviosa,
como um canto de ave
a esvoaçar
em torno do meu ninho,
quase ao meu alcance,
quase distante.
Procuro-te
em cada aroma de flores,
como se me oferecesses
um delicado manjar,
tentação que me chama e se esconde.
E acordo...
Do sonho,
fica apenas o eco de ti
na luz suave do amanhecer,
presença que persiste
entre brilho fugaz e memória.
Emília Simões
04.04.2026
sábado, março 28, 2026
Perscruto o horizonte
Nas nuvens, ainda ardem
fragmentos do passado.
Cores dispersas
tingem de azul e verde
o mundo à minha volta.
Uma brisa suave, quase muda,
desassossega-me.
O corpo cede,
pesado de memórias.
Embriago-me no aroma das flores
que já me foram casa,
enquanto os insetos
insistem no néctar do instante.
E tu,
oferecias-me o mel,
em silêncio,
a adoçar o que em mim doía.
Emília Simões
28.03.2026
sábado, março 21, 2026
Olho o céu
Olho o céu e observo-te para lá das nuvens.
Uma luz suave infunde em mim a saudade.
Não ouço a tua voz, mas leio as palavras que deixaste,
plenas de amor e humanidade,
que me deixaram profundamente comovida.
Tento respirar e sentir-te na primavera
que não chegaste a completar.
Um travo amargo percorre o meu pensamento,
porque um amigo que se perde é um pedaço de vida
que se esvai, mas cuja memória fica guardada
para sempre, no mais recôndito do ser.
Há uma presença discreta que persiste,
como um eco que o tempo não apaga.
em memórias,
não apenas no céu que observo,
mas naquilo que, sem ruído,
permanece.
Texto
Emília Simões
21.03.2026
sábado, março 14, 2026
Os meus olhos vagueiam perdidos
Os meus olhos vagueiam perdidos
na penumbra dos dias em que
a claridade se ausenta
de mentes que não enxergam horizontes
de justiça, lealdade e amor.
Nas águas do mar embrenho-me
para dissimular o sal
que me escorre do rosto,
numa mistura límpida,
purificando os ruídos que me perturbam
os sentidos e a razão.
Um silêncio inquietante
roça-me os passos
e a voz atrofia-se
num gesto desumano.
Quando irromperá a luz
no coração de quem ignora
os caminhos da paz?
Texto
Emília Simões
14.03.2026
sábado, março 07, 2026
Além da Flor
A preguiça ou a falta de criatividade
inibiam-me de escrever um poema novo.
Não é que eu seja poeta,
mas, por vezes, gosto de escrever
sobre coisas que penso, que me atravessam
as veias e me fazem olhar o mundo,
com alguma apreensão.
Mas não vou falar disso.
Hoje quero escrever sobre a Mulher.
Ainda se celebra o seu dia.
Como se não tivesse o direito
de ter nascido Mulher.
Gosto de ter nascido Mulher
e orgulho-me de ser mãe de dois filhos.
Mas, nem todas as mulheres são mães,
nem todos os homens são pais.
O importante é a dignidade do ser humano,
que habita o ser de cada homem e de cada mulher.
Neste dia costuma-se oferecer à Mulher uma flor.
Sugiro: ofereçam amor.
Porque a sociedade está muito egoísta
e esquece os sentimentos que se devem nutrir
por cada outro.
Festeje-se a Mulher e o amor.
A vida e a paz.
O respeito pelas diferenças.
Talvez um dia, quem sabe,
o Homem e a Mulher
finalmente se complementem
e o dia seja apenas lembrança
dum passado distante.
07.03.2026
sábado, fevereiro 28, 2026
Não sei medir o tempo por gestos
Não sei medir o tempo por gestos.
As andorinhas voltam na primavera,
fazem os ninhos sempre no mesmo lugar
e espanto-me com a sua precisão.
Alçam voo
e regressam,
fiéis à rota invisível.
Não sei medir o tempo por palavras
que guardo nos silêncios,
quando as manhãs despertam
para o ciclo da vida.
Não sei medir o tempo por sóis
que dançam nas sombras dos abismos
e ressoam nos ecos das escarpas.
Sei medir o tempo apenas quando o relento
da madrugada
me toca o rosto
e respiro.
Emília Simões
2021
Revisto
