Gustav Klimt
CANTO-MEU (poesia e simples palavras)
«As palavras pesam. Um texto nunca diz a dor das pequenas coisas» Graça Pires in Poemas escolhidos
sábado, julho 18, 2026
O beijo
Gustav Klimt
sábado, julho 11, 2026
Girassóis
Procurei girassóis no lugar do costume.
Girassóis amarelos, naturalmente,
porque durante toda a minha vida
só dessa cor os conheci.
O verão é generoso com eles.
E como são belos os girassóis,
seguindo a luz do sol
até quase se apagarem
quando a tarde cai.
Queria fotografá-los,
acrescentar mais algumas imagens
à minha extensa coleção.
Esfreguei os olhos.
Não fosse algum mosquito
ter-me toldado a visão,
ou talvez uma catarata
a anunciar-se em silêncio.
Mas a cor bordô
persistia na retina.
Teria os olhos ensanguentados?
Era essa a minha dúvida.
A minha sombra sossegou-me:
— Estás a ver bem.
Os girassóis são mesmo vermelhos,
bordô.
Ainda desconfiei
de alguma discromia descontrolada.
— Não. Está tudo bem —
insistiu a minha sombra.
Descansei
e fotografei-os.
As imagens ficaram arquivadas
até que, hoje,
me lembrei delas.
E porque o mundo
continua a surpreender-me,
descobri que existem, afinal,
girassóis bordô.
Sorri.
Há sempre uma cor
que ainda não vimos,
uma flor
que ainda não conhecemos.
sábado, julho 04, 2026
Em silêncio
Tenho seguido a tua cruz,
quase em silêncio.
Há silêncios que dizem mais
do que mil palavras.
O silêncio respeita o sofrimento,
abraça a dor
e fortalece a amizade.
Num deserto, aqui tão perto,
encontrei um oásis
vestido de flores amarelas.
Assemelhavam-se ao sol
e irradiavam uma luz
que não sei definir.
Seria a luz da esperança
a brilhar nos teus olhos?
Emília Simões
04.07.2026
sábado, junho 27, 2026
Será que a poesia se apartou de mim
(Desconheço o autor)
Será que a poesia se apartou de mim
ou se encontra envolta em densa neblina
e os meus olhos não a enxergam,
pressentindo que o tempo troteia sobre
as palavras e não as deixa voar...
A primavera vai longe...
O tempo, inabalável,
mais veloz que o sopro do vento,
escapa por entre os dedos.
Por mais que tente agarrá-lo,
ele foge-me do corpo e da alma
e deixa-me numa solidão inesperada.
Talvez no outono eu ensaie um bailado
com as folhas em revoada a envolverem-me
e descubra que, afinal, a poesia pode estar
em qualquer momento, em qualquer circunstância
sempre que o olhar perscrute o horizonte
e se deixe envolver pela luz do entardecer,
a brilhar nas margens do rio que me corre na pele.
Emília Simões
27.06.2026
sábado, junho 20, 2026
Passo à tua porta
Passo à tua porta.
Subo, pedra a pedra, os anos
e já não vislumbro
o teu rosto,
que sorria para mim
assomando ao postigo
quando, aos saltos,
corria para o teu colo.
Tu, sempre, de braços estendidos.
A rua já não tem pedras.
Vestiu-se de negro.
À noite os pirilampos
já não a bordejam
como outrora, quando
me alumiavam o caminho.
O progresso passou por ali
e tu, já não estás!
Emília Simões
Imagem Google
sábado, junho 13, 2026
Na aridez dos dias
Na aridez dos dias
em que as manhãs acordam
sem horizontes definidos,
penumbras toldam os olhares
que sobre os barcos estendem as mãos vazias,
na procura do tudo e do nada
do tanto e tão pouco
num rio em chamas
entre margens geladas
num silêncio profundo
coberto de limos.
Ao longe, um estrondo, um gemido.
O mundo a desmoronar-se
sobre os barcos desfeitos
submersos nas cinzas
espalhadas no dorso do rio.
Emília Simões
13.6.2026
sábado, junho 06, 2026
A poesia
Ao acordar não vislumbro a poesia
e observo as flores da minha varanda.
Flores modestas que, naquele recanto,
são o meu pequeno jardim.
Nelas me revejo
na alegria com que me devolvem o olhar.
Será poesia?
Ou pura fantasia?
Afago-as com ternura
e sorrio.
Talvez a vida seja mais simples
quando aprendemos a encontrar perto
o que nos faz felizes.
Há tanto à nossa volta
que alegra e deslumbra,
porque na simplicidade
o belo encontra morada.
A poesia pode habitar
numa simples flor,
por vezes esquecida num canto,
mas que, no instante certo,
desabrocha,
corre nas veias,
acende o sangue,
reluz em nós
e abre caminhos.
Emília Simões
sábado, maio 30, 2026
Livre de amarras
Livre de amarras, contemplo
a natureza que me oferece beleza e harmonia
no canto dos pássaros, no colorido das flores,
nos ramos frondosos das árvores.
Encontro-me e os meus pensamentos libertos
fazem-me flutuar pela relva verde e fresca,
que atapeta o chão onde me deito a olhar o céu,
onde as nuvens brancas parecem flocos de neve .
Ao lado uma lagoa reflete a luz do sol
debruçada nos ramos das árvores;
o brilho, por instantes, cega-me
como se um espelho refletisse
a sensação de liberdade
que só a natureza me oferece.
Esvoaço livre, leve, agradecida.
O meu pensamento livre
divaga ao sabor da brisa da tarde.
Por instantes vem-me à ideia os
que vivem aprisionados e sós
enclausurados em cantos sem luz e amor,
cumprindo dolorosas penas... Alguns inocentes.
E enquanto o vento percorre os campos
e os pássaros se perdem no azul,
guardo no peito a certeza
de que a liberdade
é o mais belo rosto da vida.
30.05.2026
sábado, maio 23, 2026
Caminho
piso pedra sobre pedra,
subo montes,
desço por vales e planícies,
repouso nas margens do rio,
onde escuto a tua voz ausente
falar-me de mansinho
no murmúrio suave das águas.
Chamo-te, e não respondes.
O eco da minha voz não regressa
e uma brisa suave acaricia-me o rosto.
Apesar do silêncio que fere,
o teu nome continua indelével,
a bailar nas águas do rio.
Emília Simões
sábado, maio 16, 2026
Olho em redor
Olho em redor;
o mundo transpira guerras,
ódios, violências.
Famílias desavindas,
crianças com fome,
destruição, prantos, doenças,
rumos sem nexo.
Lágrimas rasgam sulcos
nos rostos envelhecidos
de quem sofre.
Impiedosamente
o poder, a ganância e a loucura
empurram para o abismo
milhões de seres indefesos.
O que espera os vindouros
neste planeta em ebulição?
Será que a paz é viável?
Será que a esperança não é palavra vã?
Será que o Homem é recetivo à Luz?
Ou estará o mundo a
mergulhar na escuridão?
Emília Simões
16.05.2026
