O silêncio é uma criança a brincar.
O silêncio é gritar o amor sem dizer nada.
O silêncio é amar-te, assim, sem medida.
«As palavras pesam. Um texto nunca diz a dor das pequenas coisas» Graça Pires in Poemas escolhidos
O silêncio é uma criança a brincar.
O silêncio é gritar o amor sem dizer nada.
O silêncio é amar-te, assim, sem medida.
Procurei girassóis no lugar do costume.
Girassóis amarelos, naturalmente,
porque durante toda a minha vida
só dessa cor os conheci.
O verão é generoso com eles.
E como são belos os girassóis,
seguindo a luz do sol
até quase se apagarem
quando a tarde cai.
Queria fotografá-los,
acrescentar mais algumas imagens
à minha extensa coleção.
Esfreguei os olhos.
Não fosse algum mosquito
ter-me toldado a visão,
ou talvez uma catarata
a anunciar-se em silêncio.
Mas a cor bordô
persistia na retina.
Teria os olhos ensanguentados?
Era essa a minha dúvida.
A minha sombra sossegou-me:
— Estás a ver bem.
Os girassóis são mesmo vermelhos,
bordô.
Ainda desconfiei
de alguma discromia descontrolada.
— Não. Está tudo bem —
insistiu a minha sombra.
Descansei
e fotografei-os.
As imagens ficaram arquivadas
até que, hoje,
me lembrei delas.
E porque o mundo
continua a surpreender-me,
descobri que existem, afinal,
girassóis bordô.
Sorri.
Há sempre uma cor
que ainda não vimos,
uma flor
que ainda não conhecemos.
Tenho seguido a tua cruz,
quase em silêncio.
Há silêncios que dizem mais
do que mil palavras.
O silêncio respeita o sofrimento,
abraça a dor
e fortalece a amizade.
Num deserto, aqui tão perto,
encontrei um oásis
vestido de flores amarelas.
Assemelhavam-se ao sol
e irradiavam uma luz
que não sei definir.
Seria a luz da esperança
a brilhar nos teus olhos?
(Desconheço o autor)
Será que a poesia se apartou de mim
ou se encontra envolta em densa neblina
e os meus olhos não a enxergam,
pressentindo que o tempo troteia sobre
as palavras e não as deixa voar...
A primavera vai longe...
O tempo, inabalável,
mais veloz que o sopro do vento,
escapa por entre os dedos.
Por mais que tente agarrá-lo,
ele foge-me do corpo e da alma
e deixa-me numa solidão inesperada.
Talvez no outono eu ensaie um bailado
com as folhas em revoada a envolverem-me
e descubra que, afinal, a poesia pode estar
em qualquer momento, em qualquer circunstância
sempre que o olhar perscrute o horizonte
e se deixe envolver pela luz do entardecer,
a brilhar nas margens do rio que me corre na pele.
Passo à tua porta.
Subo, pedra a pedra, os anos
e já não vislumbro
o teu rosto,
que sorria para mim
assomando ao postigo
quando, aos saltos,
corria para o teu colo.
Tu, sempre, de braços estendidos.
A rua já não tem pedras.
Vestiu-se de negro.
À noite os pirilampos
já não a bordejam
como outrora, quando
me alumiavam o caminho.
O progresso passou por ali
e tu, já não estás!
Na aridez dos dias
em que as manhãs acordam
sem horizontes definidos,
penumbras toldam os olhares
que sobre os barcos estendem as mãos vazias,
na procura do tudo e do nada
do tanto e tão pouco
num rio em chamas
entre margens geladas
num silêncio profundo
coberto de limos.
Ao longe, um estrondo, um gemido.
O mundo a desmoronar-se
sobre os barcos desfeitos
submersos nas cinzas
espalhadas no dorso do rio.
Ao acordar não vislumbro a poesia
e observo as flores da minha varanda.
Flores modestas que, naquele recanto,
são o meu pequeno jardim.
Nelas me revejo
na alegria com que me devolvem o olhar.
Será poesia?
Ou pura fantasia?
Afago-as com ternura
e sorrio.
Talvez a vida seja mais simples
quando aprendemos a encontrar perto
o que nos faz felizes.
Há tanto à nossa volta
que alegra e deslumbra,
porque na simplicidade
o belo encontra morada.
A poesia pode habitar
numa simples flor,
por vezes esquecida num canto,
mas que, no instante certo,
desabrocha,
corre nas veias,
acende o sangue,
reluz em nós
e abre caminhos.
Livre de amarras, contemplo
a natureza que me oferece beleza e harmonia
no canto dos pássaros, no colorido das flores,
nos ramos frondosos das árvores.
Encontro-me e os meus pensamentos libertos
fazem-me flutuar pela relva verde e fresca,
que atapeta o chão onde me deito a olhar o céu,
onde as nuvens brancas parecem flocos de neve .
Ao lado uma lagoa reflete a luz do sol
debruçada nos ramos das árvores;
o brilho, por instantes, cega-me
como se um espelho refletisse
a sensação de liberdade
que só a natureza me oferece.
Esvoaço livre, leve, agradecida.
O meu pensamento livre
divaga ao sabor da brisa da tarde.
Por instantes vem-me à ideia os
que vivem aprisionados e sós
enclausurados em cantos sem luz e amor,
cumprindo dolorosas penas... Alguns inocentes.
E enquanto o vento percorre os campos
e os pássaros se perdem no azul,
guardo no peito a certeza
de que a liberdade
é o mais belo rosto da vida.