sábado, setembro 19, 2026

Um não poema


Foto: Emília Simões


Caminho descalça sobre a areia molhada,

quando a hora dourada
me envolve numa névoa de paz,

respirando a brisa marinha
do cálido entardecer, que me afaga,
como se um doce abraço
me enlaçasse no momento certo.

Em redor, as gaivotas esvoaçam,
em busca das migalhas
que alguém distraído
lhes pudesse oferecer.

Até as gaivotas passam fome.

Os seus voos baixos
assim o denunciam.

Fito-as,
mas não se deixam fotografar.

Naquele momento de aparente paz,
o mundo parece refletido
nos tons do entardecer.

E fico a cismar...

Texto 
Emília Simões
19/09/2026

sexta-feira, agosto 28, 2026

Havia um oceano dentro dela

 

Da Net

Havia um oceano dentro dela

de águas calmas, sem ondulação,

que mergulhava no silêncio das madrugadas

e na paz do entardecer.

Os barcos navegavam à tona

rodeados de corais verdes e azuis

que a cerceavam nas  noites

em que as marés fitavam a Lua

e o luar a cingia meio tímido.

Nestes momentos a presença de Deus

tomava-lhe as emoções e o silêncio

era apenas brisa refrescante

numa praia invisível.


Texto
Emília Simões
23.07.2022
Reedição

(Estarei em pausa até à terceira semana de setembro).

sábado, agosto 22, 2026

Porque choravas, mãe?

 

DreamsTime

De degrau em degrau,
pedra sobre pedra
percorremos
os nossos caminhos.
Nem sempre lado a lado,
nem sempre na mesma direção.
Eu era irrequieta, dizias.
Porque seria?
Eu não entendia nada
do mundo, que apesar de tudo,
me deslumbrava a cada instante.
O mundo das pessoas crescidas
era uma incógnita para mim.
Muitas vezes choravas e
nunca me disseste porquê.
Na natureza cresci,
rebolando nas ervas macias,
a ouvir o canto dos pássaros
nas minhas brincadeiras de maria rapaz,
que me devolviam a alegria,
como dizias.
Eram formas de expressão que encontravas
para as minhas traquinices.
Dessas memórias
ainda guardo do teu belo rosto,
as lágrimas que deslizavam
pelas tuas faces, em silêncio
e que tanto me confundiam.

Ainda hoje não sei: 
porque choravas, mãe?

Texto
Emília Simões
22.08.2026


sábado, agosto 15, 2026

No meu silêncio

 

Pixabay


No meu silêncio, sentada sobre a escarpa

ao entardecer, quando o tom dourado

do sol abraça a natureza,

ouço a canção do mar 

e expando o olhar através do horizonte.

Uma leveza envolve-me

e impele-me para uma dança

envolta numa aragem 

que me embala e rodopio, rodopio,

como se asas invisíveis conduzissem

o meu corpo suspenso sobre o mar.

Sinto nos lábios um sabor a maresia

e pássaros aproximam-se,

num revoar de mansinho.

O sol esconde-se no horizonte.

Estremeço e sorrio.

Era apenas um sonho.

Texto 
Emília Simões
15.08.2026

 

sábado, agosto 08, 2026

Uma ligeira névoa...

Pixabay


Uma ligeira névoa tolda-me o olhar!
Não ouço a voz do vento, nem o murmúrio do mar;
caminho, em silêncio, dentro do meu pensamento.

Os algozes do mundo continuam desenfreados,
ignorando o infortúnio dos que vivem à mercê
dos seus intentos perversos.

No meu rosto escorre o sal,
que me salga e me greta os lábios
a cada arremesso que vai destruindo
o coração da humanidade.

Sigo, em silêncio, sem destino.
Será que algum dia surgirá, no horizonte,
um sinal definitivo de paz?

Continuo a caminhar em silêncio,
sob um sol atroz, por entre pedras e cardos
que me ferem os pés.

Ao longe, parece-me ouvir um hino à paz!
Como no deserto, deve ser uma miragem.
Começo a cantar... Pura ilusão.

O sol cada vez queima mais
e o meu pensamento divaga
num mar de ilusões que me transtorna.

A minha fé,
a minha esperança,
onde estão?


Texto 
Emília Simões
08.08.2026


sábado, agosto 01, 2026

Uma sombra

 

 Adolphe Bouguereau


Uma sombra tolda-me o rosto.
O caminho torna-se escuro.

Não ouço o tom da tua voz,
que embalava o meu estado de alma.

Sinto-me pesada, trôpega,
a caminhar sobre pedras,
como as que rodeavam a tua casa.

O cheiro do outono persegue-me.
As folhas secas espalham-se pelo chão.

Saboreio uma romã já seca,
que seguras nas mãos,
no velho quadro da parede
da sala grande, onde eu brincava.

Olho-te
e acabo por sorrir.


Texto 
Emília Simões
01.08.2026


sábado, julho 25, 2026

O silêncio é ...

O silêncio é uma flor que desabrochou ao sol.
O silêncio é um pássaro que voa
ao entardecer sobre o mar.

O silêncio é uma criança a brincar.

O silêncio é um abraço apertado de um amigo.
O silêncio é a chuva a molhar-te ao relento.
O silêncio é o sol a entrar pela tua janela.

O silêncio é a aragem fresca da madrugada.
O silêncio é o teu olhar nos olhos do outro.
O silêncio é o espanto na alegria da surpresa.

O silêncio é gritar o amor sem dizer nada.

O silêncio é amar-te, assim, sem medida.


Texto e foto (Sol IA)
Emília Simões
25.07.2026




sábado, julho 18, 2026

O beijo

O beijo
Gustav Klimt

O beijo é sagrado
quando sela o amor
que vai esculpindo a vida 
no desbravar de horizontes
fixando os olhares
na mesma direção,

tantas vezes atravessando
desertos áridos
sentindo a areia a escorrer
entre os pés 
e uma sede dorida,
sem oásis à vista.

O beijo é sagrado
quando lê no outro o próprio
pensamento
numa simples chávena de café
esquecida sobre a mesa.

O beijo é sagrado
quando tantas vezes 
é o silêncio que fala.

O beijo é sagrado
 quando desperta o desejo
da construção do poema —

 a aprendizagem da vida,
 o nosso maior poema.

Texto
Emília Simões
18.07.2026

sábado, julho 11, 2026

Girassóis

 

Procurei girassóis no lugar do costume.

Girassóis amarelos, naturalmente,
porque durante toda a minha vida
só dessa cor os conheci.

O verão é generoso com eles.
E como são belos os girassóis,
seguindo a luz do sol
até quase se apagarem
quando a tarde cai.

Queria fotografá-los,
acrescentar mais algumas imagens
à minha extensa coleção.



Esfreguei os olhos.
Não fosse algum mosquito
ter-me toldado a visão,
ou talvez uma catarata
a anunciar-se em silêncio.

Mas a cor bordô
persistia na retina.

Teria os olhos ensanguentados?
Era essa a minha dúvida.

A minha sombra sossegou-me:

— Estás a ver bem.
Os girassóis são mesmo vermelhos,
bordô.

Ainda desconfiei
de alguma discromia descontrolada.

— Não. Está tudo bem —
insistiu a minha sombra.

Descansei
e fotografei-os.


As imagens ficaram arquivadas
até que, hoje,
me lembrei delas.

E porque o mundo
continua a surpreender-me,
descobri que existem, afinal,
girassóis bordô.

Sorri.

Há sempre uma cor
que ainda não vimos,
uma flor
que ainda não conhecemos.


Texto e fotos
Emília Simões
11.07.2026

sábado, julho 04, 2026

Em silêncio

 


Tenho seguido a tua cruz,

quase em silêncio.

Há silêncios que dizem mais

do que mil palavras.

O silêncio respeita o sofrimento,

abraça a dor

e fortalece a amizade.

Num deserto, aqui tão perto,

encontrei um oásis

vestido de flores amarelas.

Assemelhavam-se ao sol

e irradiavam uma luz

que não sei definir.

Seria a luz da esperança

a brilhar nos teus olhos?


Texto e foto
Emília Simões
04.07.2026