sábado, agosto 22, 2026

Porque choravas, mãe?

 

DreamsTime

De degrau em degrau,
pedra sobre pedra
percorremos
os nossos caminhos.
Nem sempre lado a lado,
nem sempre na mesma direção.
Eu era irrequieta, dizias.
Porque seria?
Eu não entendia nada
do mundo, que apesar de tudo,
me deslumbrava a cada instante.
O mundo das pessoas crescidas
era uma incógnita para mim.
Muitas vezes choravas e
nunca me disseste porquê.
Na natureza cresci,
rebolando nas ervas macias,
a ouvir o canto dos pássaros
nas minhas brincadeiras de maria rapaz,
que me devolviam a alegria,
como dizias.
Eram formas de expressão que encontravas
para as minhas traquinices.
Dessas memórias
ainda guardo do teu belo rosto,
as lágrimas que deslizavam
pelas tuas faces, em silêncio
e que tanto me confundiam.

Ainda hoje não sei: 
porque choravas, mãe?

Texto
Emília Simões
22.08.2026


sábado, agosto 15, 2026

No meu silêncio

 

Pixabay


No meu silêncio, sentada sobre a escarpa

ao entardecer, quando o tom dourado

do sol abraça a natureza,

ouço a canção do mar 

e expando o olhar através do horizonte.

Uma leveza envolve-me

e impele-me para uma dança

envolta numa aragem 

que me embala e rodopio, rodopio,

como se asas invisíveis conduzissem

o meu corpo suspenso sobre o mar.

Sinto nos lábios um sabor a maresia

e pássaros aproximam-se,

num revoar de mansinho.

O sol esconde-se no horizonte.

Estremeço e sorrio.

Era apenas um sonho.

Texto 
Emília Simões
15.08.2026

 

sábado, agosto 08, 2026

Uma ligeira névoa...

Pixabay


Uma ligeira névoa tolda-me o olhar!
Não ouço a voz do vento, nem o murmúrio do mar;
caminho, em silêncio, dentro do meu pensamento.

Os algozes do mundo continuam desenfreados,
ignorando o infortúnio dos que vivem à mercê
dos seus intentos perversos.

No meu rosto escorre o sal,
que me salga e me greta os lábios
a cada arremesso que vai destruindo
o coração da humanidade.

Sigo, em silêncio, sem destino.
Será que algum dia surgirá, no horizonte,
um sinal definitivo de paz?

Continuo a caminhar em silêncio,
sob um sol atroz, por entre pedras e cardos
que me ferem os pés.

Ao longe, parece-me ouvir um hino à paz!
Como no deserto, deve ser uma miragem.
Começo a cantar... Pura ilusão.

O sol cada vez queima mais
e o meu pensamento divaga
num mar de ilusões que me transtorna.

A minha fé,
a minha esperança,
onde estão?


Texto 
Emília Simões
08.08.2026


sábado, agosto 01, 2026

Uma sombra

 

 Adolphe Bouguereau


Uma sombra tolda-me o rosto.
O caminho torna-se escuro.

Não ouço o tom da tua voz,
que embalava o meu estado de alma.

Sinto-me pesada, trôpega,
a caminhar sobre pedras,
como as que rodeavam a tua casa.

O cheiro do outono persegue-me.
As folhas secas espalham-se pelo chão.

Saboreio uma romã já seca,
que seguras nas mãos,
no velho quadro da parede
da sala grande, onde eu brincava.

Olho-te
e acabo por sorrir.


Texto 
Emília Simões
01.08.2026


sábado, julho 25, 2026

O silêncio é ...

O silêncio é uma flor que desabrochou ao sol.
O silêncio é um pássaro que voa
ao entardecer sobre o mar.

O silêncio é uma criança a brincar.

O silêncio é um abraço apertado de um amigo.
O silêncio é a chuva a molhar-te ao relento.
O silêncio é o sol a entrar pela tua janela.

O silêncio é a aragem fresca da madrugada.
O silêncio é o teu olhar nos olhos do outro.
O silêncio é o espanto na alegria da surpresa.

O silêncio é gritar o amor sem dizer nada.

O silêncio é amar-te, assim, sem medida.


Texto e foto (Sol IA)
Emília Simões
25.07.2026




sábado, julho 18, 2026

O beijo

O beijo
Gustav Klimt

O beijo é sagrado
quando sela o amor
que vai esculpindo a vida 
no desbravar de horizontes
fixando os olhares
na mesma direção,

tantas vezes atravessando
desertos áridos
sentindo a areia a escorrer
entre os pés 
e uma sede dorida,
sem oásis à vista.

O beijo é sagrado
quando lê no outro o próprio
pensamento
numa simples chávena de café
esquecida sobre a mesa.

O beijo é sagrado
quando tantas vezes 
é o silêncio que fala.

O beijo é sagrado
 quando desperta o desejo
da construção do poema —

 a aprendizagem da vida,
 o nosso maior poema.

Texto
Emília Simões
18.07.2026

sábado, julho 11, 2026

Girassóis

 

Procurei girassóis no lugar do costume.

Girassóis amarelos, naturalmente,
porque durante toda a minha vida
só dessa cor os conheci.

O verão é generoso com eles.
E como são belos os girassóis,
seguindo a luz do sol
até quase se apagarem
quando a tarde cai.

Queria fotografá-los,
acrescentar mais algumas imagens
à minha extensa coleção.



Esfreguei os olhos.
Não fosse algum mosquito
ter-me toldado a visão,
ou talvez uma catarata
a anunciar-se em silêncio.

Mas a cor bordô
persistia na retina.

Teria os olhos ensanguentados?
Era essa a minha dúvida.

A minha sombra sossegou-me:

— Estás a ver bem.
Os girassóis são mesmo vermelhos,
bordô.

Ainda desconfiei
de alguma discromia descontrolada.

— Não. Está tudo bem —
insistiu a minha sombra.

Descansei
e fotografei-os.


As imagens ficaram arquivadas
até que, hoje,
me lembrei delas.

E porque o mundo
continua a surpreender-me,
descobri que existem, afinal,
girassóis bordô.

Sorri.

Há sempre uma cor
que ainda não vimos,
uma flor
que ainda não conhecemos.


Texto e fotos
Emília Simões
11.07.2026

sábado, julho 04, 2026

Em silêncio

 


Tenho seguido a tua cruz,

quase em silêncio.

Há silêncios que dizem mais

do que mil palavras.

O silêncio respeita o sofrimento,

abraça a dor

e fortalece a amizade.

Num deserto, aqui tão perto,

encontrei um oásis

vestido de flores amarelas.

Assemelhavam-se ao sol

e irradiavam uma luz

que não sei definir.

Seria a luz da esperança

a brilhar nos teus olhos?


Texto e foto
Emília Simões
04.07.2026

sábado, junho 27, 2026

Será que a poesia se apartou de mim

(Desconheço o autor)


Será que a poesia se apartou de mim

ou se encontra envolta em densa neblina

e os meus olhos não a enxergam,

pressentindo que o tempo troteia sobre

as palavras e não as deixa voar...

A primavera vai longe...

O tempo, inabalável,

mais veloz que o sopro do vento,

escapa por entre os dedos.

Por mais que tente agarrá-lo,

ele foge-me do corpo e da alma

e deixa-me numa solidão inesperada.

Talvez no outono eu ensaie um bailado

com as folhas em revoada a envolverem-me

e descubra que, afinal, a poesia pode estar

em qualquer momento, em qualquer circunstância

sempre que o olhar perscrute o horizonte

e se deixe envolver pela luz do entardecer,

a brilhar nas margens do rio que me corre na pele.


Texto
Emília Simões
27.06.2026


sábado, junho 20, 2026

Passo à tua porta


Passo à tua porta.

Subo, pedra a pedra, os anos

e já não vislumbro

o teu rosto,

que sorria para mim

assomando ao postigo

quando, aos saltos,

corria para o teu colo.

Tu, sempre, de braços estendidos.

A rua já não tem pedras.

Vestiu-se de negro.

À noite os pirilampos

já não a bordejam

como outrora, quando

me alumiavam o caminho.

O progresso passou por ali

e tu, já não estás!


Texto e foto
Emília Simões
20.06.2026
Imagem Google