segunda-feira, abril 18, 2016

Nas escarpas do tempo


Nas escarpas do tempo
perdi-te o rasto.
As manhãs não brilham
como naquela madrugada
em que o céu te gravou no rosto
um sorriso de esperança.

O chão que agora pisas
parece já não ser teu
e resvalas como se no teu corpo
o sorriso te pesasse nos gestos.

Querias resgatar das sombras
o sopro emudecido do alvorecer
mas as aves partiram em bandos
e na praia, deserta, apenas os búzios
entoam o hino das flores.



Texto Ailime
Foto Google
18.04.2016

domingo, abril 03, 2016

No meu silêncio


No meu silêncio
acolho penumbras e barcos
a resvalar
nas marés
das tardes
quando o vento
me açoita 
o rosto gelado
debruçado na escarpa
e as flores 
penduradas nos galhos
baloiçam
como  ondas
a desenhar na areia
o rumo das aves. 

Texto e foto
Ailime
03.04.2016

terça-feira, março 29, 2016

No oceano da vida


No oceano da vida concebo os meus sonhos
Na esperança da luz que incendeia o horizonte
E deslumbro-me com a beleza exuberante do ocaso.

Mas na claridade da manhã abarco a alegria da aurora
No sol, nas flores e no barco aportado
Que abriga a outra margem de mim.

Abraço nas flores o vento em rebelião,
Sigo as linhas do rio que corre placidamente
E me devolve a aragem da existência
Que outrora era nascente e agora poente.

Na vertigem que me desinstala
Percorro horizontes de mil tons
Como se o vento, as flores e o rio
Me devolvessem o remoto madrugar.

Texto e foto
Ailime
29.09.2013
Reposição)



terça-feira, março 15, 2016

Pudera eu


Pudera eu devolver-te a leveza dos pássaros
para que voasses nas margens do rio
o sorriso que, desperto, em teu olhar
te ilumina o entardecer.
Pudera eu retirar todos os limos
que te resvalam nos gestos
a fragilidade do chão, escorregadio
sob os teus pés vacilantes.
Pudera eu devolver-te num raio de sol
a seiva a pulsar, qual primavera em apogeu
a cingir-te nos braços, o rio ao amanhecer.
Pudera eu atrasar os ponteiros do relógio
para te retardar no rosto os teus olhos cor de rio.

Texto
Ailime
Imagem Google
15.03.2016

domingo, fevereiro 28, 2016

Esvoaço numa asa de vento


Esvoaço numa asa de vento
e deixo que os meus cabelos
se transfigurem
como ondas a beijar a praia
quando o silêncio das marés
esboça ao pôr do sol
a imagem do anoitecer.
Por entre os meus dedos vacilantes
deixo que a espuma das águas
escorra a claridade das nuvens
que esculpem no  infinito
a finitude dos mares.

Texto
Ailime
Imagem Google
28.02.2016

segunda-feira, fevereiro 15, 2016

Nas telas invisíveis do tempo


Nas telas invisíveis do tempo
descortino palavras abrasadas
como papoulas a balouçar
os  silêncios do entardecer
em  campos de trigo maduro.

Aves em voo desenfreado
transportam nas asas do vento
prenúncios de madrugadas
suspensas em nuvens de orvalho.

No chão repousa o cansaço das memórias.

Texto e foto
Ailime
15.02.2016

quinta-feira, fevereiro 04, 2016

Em silêncio


Em silêncio acolho as palavras
tolhidas por gestos
tantas vezes neblinas
tantas vezes incertezas
a toldarem-me o olhar
a inventarem segredos
que nem o vento ousa desvendar.

No rumorejo das marés
pressinto-as no entardecer
abrigadas num velho barco
largado na penumbra do cais.

04.02.2016
Ailime
Foto Google


  

sábado, janeiro 30, 2016

Poesia de Graça Pires


As águas baixaram.
Amainada a maré vieram as gaivotas
poisar-nos na janela.
O brilho inesperado dos barcos
e das dunas doía no olhar.
De olhos fechados, ainda assim
nos perturbava a clareira de bruma
que alastrava do mar.
As gaivotas, essas, traziam nas pupilas
um rebentar de ondas que nos ensurdecia.
Ao anoitecer jantámos em silêncio
e adormecemos com sede.

In: Poemas Escolhidos
(1990-2011)
Graça Pires

sábado, janeiro 23, 2016

Há na luz pálida dos dias


Há na luz pálida dos dias
uma ausência de gestos
que navega nos lemes
do velho bote esquecido no cais.

As margens já não pertencem ao rio
e as nuvens choram o dilúvio
da manhã que entardeceu
no orvalho taciturno da noite.

Uma ténue luz percorre os astros
e arrasta no murmúrio das sombras
o desassossego das margens
sufragado na mansidão das águas.



Ailime
17.10.2013
(revisto)
Imagem Google

domingo, janeiro 10, 2016

No silêncio da chuva


No silêncio da chuva
o sussurro do vento
a afagar o mar
encrespado no mastro
de um navio à deriva.

Solta-se a madrugada.
Na areia da praia
explodem foguetes
no interior dos búzios
cintilantes como corais.

Uma âncora perdida
arrasta no azul das nuvens
brisas esculpidas na areia
diluindo nas águas profundas
os rumores das marés.

Texto e foto
Ailime
 10.01.2016