terça-feira, outubro 19, 2021

Ao amanhecer

 

Monet


Ao amanhecer há uma nova vida
a nascer, 
uma nova forma de materializar o tempo
e os sentimentos.
Renasce-se para  o desconhecido
que desperta em nós a chama
abrasadora de viver 
como se as horas
fossem apenas um instante,
como se um golpe de vento
espontâneo
nos abraçasse e impelisse 
para o bulício que invade as cidades,
onde nos perdemos
como pescadores furtivos
no regresso da faina.

Texto
Ailime
19.10.2021
Imagem Google


terça-feira, outubro 12, 2021

Tão longe as manhãs

 
Juan Francisco Gonzalez


Tão longe as manhãs na casa onde às vezes regresso.

Tudo parece estar no mesmo sítio.

O rio corre sereno lá em baixo,

mas não me deixa ver as margens

onde outrora os seixos brilhavam ao sol

e eu saltitava em redor do moinho.

Tudo tinha maior amplitude.

A lezíria era  uma sinfonia de cores,

as águas eram mais verdes e as nuvens mais azuis.

Os pássaros cantavam mais alto.

Os teus pés pisavam o chão com leveza.

No resplendor da manhã, cada vez mais longe,

debruço o meu olhar e cismo.


Texto
Ailime
12.10.2021



terça-feira, outubro 05, 2021

Nem sempre o poema germina



Nem sempre o poema germina

como se fora raiz a brotar do chão árido.

O poema tem de ser esculpido,

entalhado, como se fora uma obra de arte

nas mãos do escultor

que grava a sua arte na pedra,

antes informe e discreta.

O poema na ausência das palavras

deve ser voz

a anunciar os ecos do silêncio

dos desertos profundos.

O poema necessita ser água

límpida e pura

para mitigar a sede dos poetas.


Texto 
Ailime
05.10.2021
Imagem Google

quarta-feira, setembro 29, 2021

Diante do mar o assombro

 


Diante do mar o assombro 
Aves errantes em sobressalto 
As marés murmuram baixinho 
O teu nome 
No princípio da tua voz 
O silêncio a embargar os sentidos 

No cimo da arriba 
O farol antecipa a noite 
Quando a claridade do mar 
Se tinge de púrpura 
A terra adormece tímida. 



Ailime 
14.03.2019 
Imagem
 Google
(Reedição revista)

quarta-feira, setembro 22, 2021

O outono








O outono insinou-se e chegou de mansinho,

sem fazer ruído, silencioso...

Mal o pressenti, apenas uma folha caída

despertou em mim a nostalgia da estação

dos cachos e das folhas douradas,

da sede que existe em mim e da qual não sei o nome.

As flores emudeceram, algumas murcharam

outras perderam a cor.

As horas encurtam os dias e o pensamento divaga

pelo silêncio da tarde, que se debruça no entardecer.

O sol-posto já se desenha no horizonte,

as minhas mãos, vazias, esperam o alvorecer.


Texto e foto
Ailime
21.09.2021

quarta-feira, setembro 15, 2021

A palavra



A palavra nem sempre está em lugar certo.
Pode estar no vento, nos ecos ou no silêncio,
no céu, no mar ou nas asas dos pássaros.
A palavra move-se, soletra-se,
mas, por vezes, resvala para o
abismo das emoções.
Tantas são as palavras
que não ousamos pronunciar.
Tantas são as palavras
que fingimos ignorar.
A palavra é a voz
que, quando bem silabada,
se deve preservar e contemplar
como se fora um tesouro.


Texto
Ailime
14.09.2021
Imgem Google

terça-feira, setembro 07, 2021

Nos dias avessos à luz


 

Nos dias avessos à luz 

descubro veredas por entre florestas sombrias 

que me lembram o tempo 

em que caminhavas desamparada 

como se o mundo te renegasse 

o chão, que pesadamente pisavas 

como se não houvesse relâmpagos, 

nem pássaros, nem silêncios, nem palavras  

a rasgar as manhãs, que os teus olhos guardavam. 

Das tuas mãos, em gestos simples, 

as flores desprendiam-se como asas 

que ninguém via, que ninguém ouvia. 

Apenas tu lhes conhecias a cor. 

 


Texto
Ailime 
Reedição
(2019) 
Imagem Google

terça-feira, agosto 31, 2021

É quase outono nas dunas



É quase outono nas dunas,

os oásis  têm sede  e as plantas mirram.


Nada é igual como dantes

quando os caminhos floriam de paz

nos teus pés descalços pelo vento

deambulando como plumas.


Ainda estamos a tempo

de colher flores amarelas

nos dias em que as névoas

orvalharem os desertos.


Texto
Ailime
31.08.2021
Imagem
Google

domingo, agosto 22, 2021

Sonho



Na escarpa sentada

avisto um navio ao longe

minhas mãos são como conchas

em que o  silêncio me refaz

do cântico dos búzios

a soletrar medusas

corais e marés-cheias.


O vento arrasta-me

pelas dunas de areias movediças

despenteia-me os pensamentos

como aves em pleno voo

a entoar a canção 

à deriva das correntes.


Virada para o mar

Recomponho-me do sonho 

- Cai a pino a luz do meio-dia.


Texto
Ailime
22.08.2021
Imagem
Google


terça-feira, agosto 17, 2021

Palavras tantas vezes sufragadas

 


sun

Palavras tantas vezes sufragadas
Por gotas de mar nublado pelas brumas
Que te cerram no olhar o vento
Quando há escassez de marés
E nem sabes se são mesmo palavras
Ou apenas pedaços de memórias
Encalhadas no convés do navio
Quando te fazes ao largo

Não precisas penitenciar-te
Deixa apenas que o esplendor do sol
Te preencha o vazio da alma.


Texto
Ailime
(Reedição)
Imagem
Google