«As palavras pesam. Um texto nunca diz a dor das pequenas coisas» Graça Pires in Poemas escolhidos
terça-feira, outubro 19, 2021
Ao amanhecer
terça-feira, outubro 12, 2021
Tão longe as manhãs
Tão longe as manhãs na casa onde às vezes regresso.
Tudo parece estar no mesmo sítio.
O rio corre sereno lá em baixo,
mas não me deixa ver as margens
onde outrora os seixos brilhavam ao sol
e eu saltitava em redor do moinho.
Tudo tinha maior amplitude.
A lezíria era uma sinfonia de cores,
as águas eram mais verdes e as nuvens mais azuis.
Os pássaros cantavam mais alto.
Os teus pés pisavam o chão com leveza.
No resplendor da manhã, cada vez mais longe,
debruço o meu olhar e cismo.
Ailime
12.10.2021
terça-feira, outubro 05, 2021
Nem sempre o poema germina
Nem sempre o poema germina
como se fora raiz a brotar do chão árido.
O poema tem de ser esculpido,
entalhado, como se fora uma obra de arte
nas mãos do escultor
que grava a sua arte na pedra,
antes informe e discreta.
O poema na ausência das palavras
deve ser voz
a anunciar os ecos do silêncio
dos desertos profundos.
O poema necessita ser água
límpida e pura
para mitigar a sede dos poetas.
Ailime
05.10.2021
Imagem Google
quarta-feira, setembro 29, 2021
Diante do mar o assombro
quarta-feira, setembro 22, 2021
O outono
O outono insinou-se e chegou de mansinho,
sem fazer ruído, silencioso...
Mal o pressenti, apenas uma folha caída
despertou em mim a nostalgia da estação
dos cachos e das folhas douradas,
da sede que existe em mim e da qual não sei o nome.
As flores emudeceram, algumas murcharam
outras perderam a cor.
As horas encurtam os dias e o pensamento divaga
pelo silêncio da tarde, que se debruça no entardecer.
O sol-posto já se desenha no horizonte,
as minhas mãos, vazias, esperam o alvorecer.
Ailime
21.09.2021
quarta-feira, setembro 15, 2021
A palavra
no céu, no mar ou nas asas dos pássaros.
A palavra move-se, soletra-se,
mas, por vezes, resvala para o
abismo das emoções.
Tantas são as palavras
que não ousamos pronunciar.
Tantas são as palavras
que fingimos ignorar.
A palavra é a voz
que, quando bem silabada,
se deve preservar e contemplar
como se fora um tesouro.
Ailime
Imgem Google
terça-feira, setembro 07, 2021
Nos dias avessos à luz
descubro veredas
por entre florestas sombrias
que me lembram
o tempo
em que
caminhavas desamparada
como se o
mundo te renegasse
o chão, que
pesadamente pisavas
como se não
houvesse relâmpagos,
nem pássaros, nem
silêncios, nem palavras
a rasgar as manhãs,
que os teus olhos guardavam.
Das tuas mãos, em
gestos simples,
as flores
desprendiam-se como asas
que ninguém via, que
ninguém ouvia.
Apenas tu lhes
conhecias a cor.
terça-feira, agosto 31, 2021
É quase outono nas dunas
É quase outono nas dunas,
os oásis têm sede e as plantas mirram.
Nada é igual como dantes
quando os caminhos floriam de paz
nos teus pés descalços pelo vento
deambulando como plumas.
Ainda estamos a tempo
de colher flores amarelas
nos dias em que as névoas
orvalharem os desertos.
Ailime
31.08.2021
domingo, agosto 22, 2021
Sonho
Na escarpa sentada
avisto um navio ao longe
minhas mãos são como conchas
em que o silêncio me refaz
do cântico dos búzios
a soletrar medusas
corais e marés-cheias.
O vento arrasta-me
pelas dunas de areias movediças
despenteia-me os pensamentos
como aves em pleno voo
a entoar a canção
à deriva das correntes.
Virada para o mar
Recomponho-me do sonho
- Cai a pino a luz do meio-dia.
Ailime
22.08.2021
terça-feira, agosto 17, 2021
Palavras tantas vezes sufragadas









