domingo, janeiro 10, 2016

No silêncio da chuva


No silêncio da chuva
o sussurro do vento
a afagar o mar
encrespado no mastro
de um navio à deriva.

Solta-se a madrugada.
Na areia da praia
explodem foguetes
no interior dos búzios
cintilantes como corais.

Uma âncora perdida
arrasta no azul das nuvens
brisas esculpidas na areia
diluindo nas águas profundas
os rumores das marés.

Texto e foto
Ailime
 10.01.2016


quarta-feira, dezembro 30, 2015

A lareira

Tão fresca era a terra
que te acolhia nas madrugadas,
sob  as oliveiras já corcundas
que te iluminavam o rosto
no suor dos dias passados,
o futuro das colheitas incertas.

Tão longínquo e breve foi o tempo
em que me davas as mãos e sorrias
mostrando-me a lua e as estrelas
e as flores do caminho orvalhadas
a sorrirem por entre uma nesga de sol.

Tão longínquo e breve  foi o tempo
dos musgos e das candeias acesas
sobre as paredes caiadas como neve
a faiscarem relâmpagos na noite.

Tão breve mas tão próximo o tempo
em que a lareira a crepitar
era o refúgio nos invernos glaciais
enquanto o vento assobiava lá fora
chispas de silêncios encapotados.

Texto
Ailime
Foto Google
30.12.2015

domingo, dezembro 20, 2015

É Natal


É Natal.

Lá fora olhares e  faces encovadas
deixam escorrer gotas de orvalho
geladas pela indiferença de quem passa.

As luzes, o alarido, a festa das compras
(de última hora num corre-corre desenfreado).
A noite  calada, fria, impiedosa
dos corações solitários aproxima-se.

Uma mão estendida num olhar côncavo
(onde cabe toda uma vida apática de rastos)
perde-se sob a arcada recôndita e sórdida do cais.

Na fogueira que me arde no peito
um aperto sangra-me a razão.
É hora de acordar e abraçar o meu irmão.
........... 

Ao longe, uma luz brilha.
Na gruta fria, envolto em trapos
eclode o Amor,
que abarca (abraça)  todos.
Feliz Natal!

Texto
Ailime
20.12.2015
Imagens Google



sábado, dezembro 12, 2015

Poesia de Graça Pires


Hoje, que não escuto o mar
fujo na crina de um potro livre,
sem jugo, em veloz cavalgada.
Tenho nos olhos um incêndio tangível
à luz que se quebra no galope
ágil e sonoro da fuga.
Irrompe sobre mim o perfil dos montes
que me diz a que distância deixei o mar.
Um odor de poeira impede-me de gritar.
Doeu-me a voz quando bradei,
sem fôlego, o verso de neruda:
quero inventar o mar de cada dia.

In: Uma claridade que cega
Graça Pires

sábado, dezembro 05, 2015

Cidade adormecida


Quando o orvalho da noite
abraça a solidão dos corpos
mergulhados no vazio
da cidade adormecida
o luar rasga o silêncio
e alonga-se como um relâmpago
 a crepitar labaredas.



Texto Ailime
Imagem Google
05.12.2015

terça-feira, novembro 24, 2015

No Outono ainda Primavera


Como folhas trespassadas pelo vento
 as minhas mãos abrem-se e deixam escorrer por entre os dedos
pequenos sóis suspensos nos galhos ainda viçosos das árvores,
que  reflectem na palidez da tarde
a insensibilidade do homem perante a natureza.

São imagens inesperadas que me dilaceram a alma
me corroem o pensamento,
me sobressaltam o olhar neste mundo cruel.

No Outono ainda Primavera
os ramos e as folhas  terminam o ciclo abruptamente.


Texto e foto
Ailime
24.11.2015

domingo, novembro 15, 2015

Urgentemente de Eugénio de Andrade

Urgentemente

É urgente o amor
É urgente um barco no mar

É urgente destruir certas palavras,
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos, muitas espadas.

É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.

Cai o silêncio nos ombros e a luz
impura, até doer.
É urgente o amor, é urgente
permanecer. 


Eugénio de Andrade, in "Até Amanhã" 

terça-feira, novembro 10, 2015

Mar de verão?


Mar de verão?
O mar não tem estação.
Tem a cadência das águas
nas marés vazas
ou no enrolar das ondas
que os pássaros sobrevoam
na sedução do olhar.




Texto e foto
Ailime (08.11.2015).
(Publicado aqui
 no próprio dia)

quinta-feira, outubro 29, 2015

Os lírios

Van Gogh

Tão longe a casa onde nasci.
No quintal um pouco acima
a oliveira e o baloiço
que subia mais alto que os pássaros
que voavam em bandos
(eram tantos, aos milhares)
e o morangueiro sobre o poço
a florir como rosas em botão.
 “Não tardará a maturar”, dizias.
Mais abaixo os lírios roxos
(tão belos que eram os lírios)
e o musgo como veludo a debruar o muro.
Entardeceram as horas no pátio da casa
e a luz quedou-se na janela cerrada.

Tão longe a casa onde nasci...

Texto
Ailime
29.10.2015
Imagem Google


sábado, outubro 17, 2015

Que se faça silêncio


Que se faça silêncio em teus ecos
E os ventos não te arrastem
Pelos bancos alagados dos jardins
Onde jaz a solidão das folhas

Que as tuas mãos, macias
Como musgo a revestir os muros
Se elevem até onde a luz se detém
Suspensa em pequenos galhos trémulos

Que os rios e os mares de algas imperfeitas
Deixem que os búzios regressem à praia
Onde outrora deixaste esculpida
A claridade dos gestos


Texto
Ailime
Imagem Google
17.10.2015