desponta uma flor
que me fala de primavera,
mas também de invernos
em que as nuvens choram
lágrimas de frio e geadas,
e orvalhos sobre
os meus pés cansados
e quase descalços,
a escorregar nas calçadas.
«As palavras pesam. Um texto nunca diz a dor das pequenas coisas» Graça Pires in Poemas escolhidos
Caminho sem sentido tentando abstrair-me dos trajetos, que tantas vezes trilhámos juntas!
O que mais apreciava eram os ribeiros de águas límpidas, onde mergulhavas as mãos e o coração.
Nas águas geladas brilhando ao sol, quente de inverno, a tua silhueta resplandecia de emoção e amor.
Ainda me recordo das laranjas que caíam junto à margem do ribeiro grande e que me deliciavam.
Sempre gostei de laranjas. Hoje o ribeiro está seco e não sei se ainda existem laranjeiras no velho pomar.
Mas sabes uma coisa? Do que tenho mesmo saudades é das filhoses que fazias à lareira no tacho grande, na noite de Natal!
Quando passo à tua porta, parece que ainda sinto o aroma da canela e do açúcar com que as polvilhavas.
Como eram boas as tuas filhoses! Nunca mais comi nenhuma igual. Hoje há tantos, tantos sabores, que me confundem.
Paro um pouco e apenas desertos se estendem à minha frente e uma neblina cai sobre o rio.
O rio, o rio das minhas lembranças, que tudo guarda e tudo revela.
Desejo a todos um Feliz Ano Novo com saúde e paz!
É dezembro, quase Natal!
O frio alastra nas cidades,
vilas e aldeias.....
Azáfama costumeira
onde impera o consumismo
num frenesim desmedido,
torna dezembro ainda mais frio
para os que dormem ao relento,
para os que caem por terra
nos cenários de guerra.
Tanta fome no mundo,
tanta sede de afetos,
tanto choro de crianças nuas
por um destino
que lhes assassinou os pais.
Tanta prepotência e ganância,
que violam todos os direitos humanos.
É urgente a paz, a fraternidade,
e o calor dos afetos.
É urgente o Amor!
É urgente o Natal!
Desejo a todos santo e feliz Natal!
Sentada na escarpa
vagueio o olhar pelo horizonte
que perscruta o entardecer,
de uma tarde de outono.
Recordo-me da varanda
de onde ao acordar
vislumbrava o amanhecer.
Os dias tão longos,
hoje tão curtos.
A alma imperturbável
recolhe nos recônditos da memória
as cores, que hoje tão distantes,
estão aprisionadas
no pensamento.
Quando a noite murmurar
o frio e a geada do inverno,
a primavera florescerá
nas pontas dos meus dedos.
Percorri estradas
desbravei caminhos
atravessei socalcos
feri os pés
golpeei as mãos;
a minha boca
está amarga
pelo sal que me escorre
dos olhos
o sentido do meu viver.
Quis mudar de trajeto;
tombei, ergui-me
e tropecei nas pedras,
mas reergui-me
O meu corpo,
os meus braços
doridos
ficaram entrelaçados
para sempre nas grades
dum muro
que me rasga o pés
e me trava o recomeço.