sábado, fevereiro 10, 2024

No silêncio das pedras



No silêncio das pedras
desponta uma flor
que me fala de primavera,
mas também de invernos
em que as nuvens choram
lágrimas de frio e geadas,
e orvalhos sobre
os meus pés cansados
e quase descalços,
a escorregar nas calçadas.
Por entre uma nesga de nuvens
alcanço um raio de sol
que me traz de volta à realidade.
A primavera não tardará
e os meus dedos, como aves feridas,
agarrarão as palavras
com sede do poema
que brota das minhas mãos,
quase em chamas.


Texto e foto
Emília Simões
10.02.2024

sábado, fevereiro 03, 2024

Resvalo por socalcos de montanhas



Resvalo por socalcos de montanhas
como ave em pleno voo
e procuro uma flor
uma palavra 
um gesto
um raio de sol
um enigma,
talvez um pedaço de tempo
que me fale de vida
e de auroras
e entardeceres
que me falem de amor
ou de silêncios
onde escute a tua voz.
Divago e paro num golpe de vento
que cinjo na minha cintura
como se fora um afago teu.
 
Texto 
Emília Simões
03.02.2024
Imagem Google


segunda-feira, janeiro 29, 2024

Abro a porta ao silêncio

 


Abro a porta ao silêncio
e refugio-me nas memórias
que tenho albergadas em mim.

São memórias longínquas,
que se vão desvanecendo
como as nuvens que se desfazem
impelidas pelo vento, deixando uma
estrada no céu.

Procuro uma luz para as proteger
para que fiquem intactas, sempre
que me recordar dos dias em que tudo
era claro e as aves esvoaçavam
em alegres bandos dentro de mim.

Distancio-me e indiferente
procuro outro lugar para
guardar as memórias,
que parecem vaguear entre sombras
e solidões que, de instante a instante,
se revelam à minha passagem.


Texto
Emília Simões
29.01.2024
Imagem Google



sábado, janeiro 20, 2024

Para um sem-abrigo



Lembro-me de quando ainda eras criança.
Brincavas ao ar livre com os outros meninos.
Tinhas pai, mãe e uma irmã; uma vida normal.
(O que será uma vida normal?)
Parecias feliz como as outras crianças que, em teu redor,
brincavam e saltavam jogando à bola.
Todos muitos alegres, divertidos,
com as traquinices próprias da idade. 
Estive muitos anos sem te ver.
Sinceramente já nem te recordava.
Um dia abordaste-me, com muita educação,
porque me reconheceste,
apesar dos anos passados...
- Sim, sou eu...
E pediste-me uma moeda...
Contaste-me parte da tua história 
e falaste-me da tua mãe,
com tanto carinho, com tanto orgulho: 
- a Mulher que mais amei -
deixando rolar as lágrimas,
que tanto me comoveram.
Percebi que os teus caminhos não foram retos,
que tens percorrido a vida por vias travessas.
Uma vida indigna de um ser humano.
Há dias vi-te junto a uma cama improvisada
debaixo de uma varanda, onde dormes ao relento.
Fiquei atónita e o meu pensamento divagou...
E divaga, porque não tenho respostas
nem soluções para te socorrer.
Apenas te posso indicar um caminho...
Um caminho que tu conheces bem,
porque dele tua mãe te falava.
  
Texto
Emília Simões
20.01.2024
Imagem Google



sábado, janeiro 13, 2024

Hoje a chuva molha a calçada


Hoje a chuva molha a calçada
e as pedras brilham como cristais
na densa tarde de inverno.
As árvores, nuas, parecem chorar
as folhas que, coladas ao chão,
parecem adormecidas.
Há raízes profundas que as unem
e não é a falta de luz que as 
mantêm vigorosas na sua nudez.
A seiva continua a circular
no interior dos seus troncos.
Por um lapso de tempo
sobrevivem à noite que as cinge.
A primavera não tardará
e como milagre
no silêncio de uma manhã amena,
despertarão reluzentes
em ramos iluminados,
como um brilho impresso no tempo.


Texto e foto
Emília Simões
13.01.2024




sábado, janeiro 06, 2024

Mergulho nos rastos do vento


Mergulho nos rastos do vento
as ondas da ilusão 
e apenas ouço o murmúrio do mar.
As folhas balouçam
na crista das ondas 
como palavras soltas
nos barcos fundeados,
amarrotadas na boca de um peixe.
Na areia da praia um búzio reflete
o esplendor do dia
e deixo que o silêncio
apenas me fale de outras maresias.
Por instantes, fito o horizonte
e uma ave vem ao meu encontro
e pousa-me nas mãos,
leve como uma pena.
Acolho-a com espanto
e como estátuas
ficamos assim
até ao anoitecer.

Texto
06.01.24
Emília Simões
Imagem Google 
 


sábado, dezembro 30, 2023

O rio das minhas lembranças

(desconheço o autor)

Caminho sem sentido tentando abstrair-me dos trajetos, que tantas vezes trilhámos juntas!

O que mais apreciava eram os ribeiros de águas límpidas, onde mergulhavas as mãos e o coração.

Nas águas geladas brilhando ao sol, quente de inverno, a tua silhueta resplandecia de emoção e amor.

Ainda me recordo das laranjas que caíam junto à margem do ribeiro grande e que me deliciavam.

Sempre gostei de laranjas. Hoje o ribeiro está seco e não sei se ainda existem laranjeiras no velho pomar.

Mas sabes uma coisa? Do que tenho  mesmo saudades é das filhoses que fazias à lareira no tacho grande, na noite de Natal!

Quando passo à tua porta, parece que ainda sinto o aroma da canela e do açúcar com que as polvilhavas.

Como eram boas as tuas filhoses! Nunca mais comi nenhuma igual. Hoje há tantos, tantos sabores, que me confundem.

Paro um pouco e apenas desertos se estendem à minha frente e uma neblina cai sobre o rio.

O rio, o rio das minhas lembranças, que tudo guarda e tudo revela.


Desejo a todos um Feliz Ano Novo com saúde e paz!

Texto
Ailime
Imagem Google
30.12.2023

segunda-feira, dezembro 18, 2023

É dezembro, quase Natal!


É dezembro, quase Natal!

O frio alastra nas cidades,

vilas e aldeias.....

Azáfama costumeira

onde impera o consumismo

num frenesim desmedido,

torna dezembro ainda mais frio

para os que dormem ao relento,

para os que caem por terra

nos cenários de guerra.

Tanta fome no mundo,

tanta sede de afetos,

tanto choro de crianças nuas

por um destino

que lhes assassinou os pais.

Tanta prepotência e ganância,

que violam todos os direitos humanos.

É urgente  a paz, a fraternidade,

e o calor dos afetos. 

É urgente o Amor!

É urgente o Natal!


Texto
Ailime
Imagem Google
18.12.2023


Desejo a todos santo e feliz Natal!



domingo, dezembro 10, 2023

Sentada na escarpa



Sentada na escarpa

vagueio o olhar pelo horizonte 

que perscruta o entardecer, 

de uma tarde de outono.

Recordo-me da varanda

de onde ao acordar

vislumbrava o amanhecer.

Os dias tão longos,

hoje tão curtos.

A alma imperturbável

recolhe nos recônditos da memória

as cores, que hoje tão distantes,

estão aprisionadas

no pensamento.

Quando a noite murmurar

o frio e a geada do inverno,

a primavera florescerá

nas pontas dos meus dedos.


Texto
Ailime
10.12.2023
Imagem Google


sábado, dezembro 02, 2023

O recomeço



Percorri estradas

desbravei caminhos 

atravessei socalcos

feri os pés

golpeei as mãos;

a minha boca

está amarga

pelo sal que me escorre

dos olhos

o sentido do meu viver.

Quis mudar de trajeto;             

tombei, ergui-me

e tropecei nas pedras,

mas reergui-me

O meu corpo,

os meus braços

doridos

ficaram entrelaçados

para sempre nas grades

dum muro

que me rasga o pés

e me trava o recomeço.


Texto e foto
Ailime
02.12.2023