terça-feira, janeiro 11, 2022

Há no silêncio dos corpos

Leonid Afremov


Há no silêncio dos corpos

uma cumplicidade no olhar

como se relâmpagos

alumiassem as escarpas

onde nos desnudamos

como cardumes ao vento

a marulhar em praias

invisíveis.

Afetos e vozes inaudíveis

mergulham definitivamente

num mar de privação, 

no universo inacabado

para lá do tempo

e dos enigmas do espaço.


Texto
Ailime
10.01.2022
Imagem Google

terça-feira, janeiro 04, 2022

Sigo por uma rua estreita



Sigo por uma rua estreita

e os meus olhos alongam-se

na direção do mar

Antes agarrava as estrelas

com as pontas dos dedos

e desenhava manhãs

na linha do horizonte onde o

poente se insinua nas asas 

dos pássaros.

Hoje ainda me espantam os corais

e os búzios

onde tatuei os meus sonhos

que à margem do tempo e das águas

não contam os dias.


Texto
Ailime
Jan/2022

Imagem Google

quinta-feira, dezembro 16, 2021

Presépio da minha infância (Boas Festas)

BOAS FESTAS! 

(Vou fazer uma pausa)



No tempo da geada, da
minha infância, 
apanhávamos o musgo como
se fora veludo.
Era macio, brilhante, como
duas estrelas a faiscarem amor. 
O frio não detinha os nossos dedos enregelados
que, delicadamente,
o subtraíam à terra, também ela macia.
As nossas vozes, desafinadas,
entoavam cânticos de Natal.
O Menino esperava-nos
numa caixa guardada
na sacristia da Igreja.
Era uma luz serena,
que humilde e silenciosa
dali a pouco refulgiria numa caminha de palha
sobre o presépio de musgo macio.
No topo da cabana 
cintilava
a mais  bela e brilhante estrela de Natal.
E os anjos entoavam: 
Glória in Excelcis Deo! 
Paz na Terra aos homens de boa vontade! 


Aproveito para vos desejar um santo e feliz Natal ,
com muito amor, paz  e saúde.
Obrigada pela vossa presença neste meu cantinho ao longo do ano.
Próspero 2022!
Texto
Ailime
24.11.2021

sexta-feira, dezembro 10, 2021

Um dia a minha sede

 



Um dia a minha sede

será saciada pela fonte do deserto.

As chuvas molhar-me-ão o rosto

e sentirei o orvalho das manhãs

a afagar-me os cabelos.

As tardes serão mais lisas

e falar-me-ão de crepúsculos,

que se escondem atrás das nuvens

onde os pássaros se detêm

nos voos,

a acalentar-me nas noites

longas,

De sonhos improváveis.


Texto
Ailime
10.12.2021
Imagem Google

terça-feira, novembro 30, 2021

Ainda te lembras?


                                                                      Anouk Lacasse


O vento sopra  nos meus dedos que, enregelados,
procuram os teus e
entrelaçamos as mãos.
Esqueçamos o  inverno e deambulemos
como duas crianças que brincam ao sol
num prado verde de ternas lembranças.
Os pássaros esvoaçam e sinto a primavera
que me sopra aos ouvidos
melodias de amor já muito antigas,
que costumávamos ouvir em silêncio
quando o sol se escondia no horizonte 
e nos incendiava os corpos
numa dança flamejante de amor. 
Ainda te lembras?

Texto
Ailime
24.11.2021

quarta-feira, novembro 24, 2021

Ah se eu pudesse

 

Van Gogh


Ah se eu pudesse dissipar as palavras numa gota de chuva,
As vozes trazidas por vendavais inusitados
Soariam a campos ondeados de trigais maduros
Num apoteótico bailado de metamorfoses.

E correria livremente pelas madrugadas
Envolta em primaveras multicolores
Na procura incessante de um anúncio
Que te abraçasse o futuro.


Ailime
11.01.2013
(Reposição)

quarta-feira, novembro 17, 2021

Há momentos

 


Há momentos em que mergulho no meio das palavras.
Distante está o mundo em que  movo os meus sonhos
alados como pássaros em voos intermitentes.
De ti sei apenas o nome e as palavras ficam em silêncio.


Texto
Ailime
17.11.2021
Imagem Google

terça-feira, novembro 09, 2021

O mundo ainda pode ter cor


Sofia Sant'Ana


O mundo ainda pode ter cor se nos predispusermos
a seguir as pegadas dos que nos precederam;
a luz ainda se demora no horizonte
até que a veneremos cordatamente
deixando que os sóis repousem sobre as águas
e os rios bebam das nascentes o néctar.
Prestemos atenção ao tempo que se esvai
e plantemos com vigor todas as seivas;
carente está o chão das suas espécies
onde rasgões como feridas clamam
por uma estrada rumo ao futuro.


Texto
Ailime
09.11.2021

terça-feira, novembro 02, 2021

O tempo nunca é o mesmo




O tempo nunca é o mesmo.
Ontem a chuva  regou os meus sonhos,
hoje colho uma flor.
O dia e a noite contemplam-se, 
assim como o sol e a lua
se abraçam num golpe de vento
que vagueia por entre galáxias.
Claridade e sombras.
Um pássaro nunca está só;
poisa sobre uma estrela 
e  esvoaça no universo
por entre galhos de nuvens. 
Gravo os meus sonhos
nas folhas caídas de outono.


Texto e foto
Ailime
02.11.2021



terça-feira, outubro 26, 2021

No interior das pedras



No interior das pedras há chamas 
que à tua passagem te queimam os pés,
te sacodem, como se o vento alastrasse
e se detivesse no teu andar vagaroso e
pesado, como as folhas que
se arrastam impelidas por aragens
ensurdecidas de tanto silêncio.
À margem dos dias as florestas
gritam por socorro
no leito seco dos rios.


Texto 
Ailime
26.10.2021
Imagem Google