terça-feira, novembro 24, 2015

No Outono ainda Primavera


Como folhas trespassadas pelo vento
 as minhas mãos abrem-se e deixam escorrer por entre os dedos
pequenos sóis suspensos nos galhos ainda viçosos das árvores,
que  reflectem na palidez da tarde
a insensibilidade do homem perante a natureza.

São imagens inesperadas que me dilaceram a alma
me corroem o pensamento,
me sobressaltam o olhar neste mundo cruel.

No Outono ainda Primavera
os ramos e as folhas  terminam o ciclo abruptamente.


Texto e foto
Ailime
24.11.2015

domingo, novembro 15, 2015

Urgentemente de Eugénio de Andrade

Urgentemente

É urgente o amor
É urgente um barco no mar

É urgente destruir certas palavras,
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos, muitas espadas.

É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.

Cai o silêncio nos ombros e a luz
impura, até doer.
É urgente o amor, é urgente
permanecer. 


Eugénio de Andrade, in "Até Amanhã" 

terça-feira, novembro 10, 2015

Mar de verão?


Mar de verão?
O mar não tem estação.
Tem a cadência das águas
nas marés vazas
ou no enrolar das ondas
que os pássaros sobrevoam
na sedução do olhar.




Texto e foto
Ailime (08.11.2015).
(Publicado aqui
 no próprio dia)

quinta-feira, outubro 29, 2015

Os lírios

Van Gogh

Tão longe a casa onde nasci.
No quintal um pouco acima
a oliveira e o baloiço
que subia mais alto que os pássaros
que voavam em bandos
(eram tantos, aos milhares)
e o morangueiro sobre o poço
a florir como rosas em botão.
 “Não tardará a maturar”, dizias.
Mais abaixo os lírios roxos
(tão belos que eram os lírios)
e o musgo como veludo a debruar o muro.
Entardeceram as horas no pátio da casa
e a luz quedou-se na janela cerrada.

Tão longe a casa onde nasci...

Texto
Ailime
29.10.2015
Imagem Google


sábado, outubro 17, 2015

Que se faça silêncio


Que se faça silêncio em teus ecos
E os ventos não te arrastem
Pelos bancos alagados dos jardins
Onde jaz a solidão das folhas

Que as tuas mãos, macias
Como musgo a revestir os muros
Se elevem até onde a luz se detém
Suspensa em pequenos galhos trémulos

Que os rios e os mares de algas imperfeitas
Deixem que os búzios regressem à praia
Onde outrora deixaste esculpida
A claridade dos gestos


Texto
Ailime
Imagem Google
17.10.2015

terça-feira, setembro 29, 2015

Torna-se necessário rescrever a canção


Torna-se necessário rescrever a canção
Mesmo que as mãos, em chamas,
Recusem o gesto, vacilante, da melodia.

Como os pássaros, que de asas feridas
Cruzam os céus em voos arrojados,
É urgente que os barcos ergam as velas
Na melopeia cadente da maré cheia.


Ailime
29.03.2015
Imagem Google

sexta-feira, setembro 18, 2015

É no outono

É no outono que a tua memória
Reacende em mim a saudade.

O rio escorre-me nas faces
O sabor amargo do mar
Como se um barco
Transportasse nas velas
Os ecos insondáveis do tempo.

No infinito apenas a luz
E as folhas a esvoaçar
Num misterioso rodopio
Me falam do teu silêncio
Envolto num estranho vazio.

Texto
Ailime
18.09.2015
Imagem Google

terça-feira, setembro 08, 2015

O resgate


Hoje os mastros não me falaram de outono
e  o sol irrompeu no horizonte, altivo.
O mar rasgou as marés e devolveu-me o sal
num barco repleto de ardis.
Na areia da praia uma ave ferida
aguarda o resgate, do nada.

Texto e foto
Ailime
08.09.2015

quarta-feira, agosto 12, 2015

Eu era rio e tua eras paz



Eu era rio e tua eras paz.
Desenhava-te no horizonte
Em círculos azuis como asas
Que o vento apenas traz
Quando as linhas se tocam
Em forma de folhas novas.

Enleamo-nos nas horas
Que só o tempo pode entender
Quando a luz das manhãs
Se prende nas tardes do ocaso
Ali… diante de nós.

Texto e foto
Ailime
28.04.2014
(Reposição)
(Vou fazer uma pausa no blogue. Até breve. Ailime)

terça-feira, agosto 04, 2015

Guardo na voz o silêncio

Van Gogh


Guardo na voz o silêncio
Das madrugadas em que desfiavas
Trovas que mascaravam
O sal das lágrimas
Que te sulcavam o rosto
Nas planícies cobertas de corvos.

Mas trazias na alma o sossego
Das tardes purpúreas do sol-posto
Que te amenizavam a noite
Que precedia a jornada.

De novo a labuta, a sobrevivência
O suor e as lágrimas
Dum tempo outro, impuro
Igual no sangue e verdade.


09.08.2013
Ailime
(Reposição)