segunda-feira, janeiro 29, 2024

Abro a porta ao silêncio

 


Abro a porta ao silêncio
e refugio-me nas memórias
que tenho albergadas em mim.

São memórias longínquas,
que se vão desvanecendo
como as nuvens que se desfazem
impelidas pelo vento, deixando uma
estrada no céu.

Procuro uma luz para as proteger
para que fiquem intactas, sempre
que me recordar dos dias em que tudo
era claro e as aves esvoaçavam
em alegres bandos dentro de mim.

Distancio-me e indiferente
procuro outro lugar para
guardar as memórias,
que parecem vaguear entre sombras
e solidões que, de instante a instante,
se revelam à minha passagem.


Texto
Emília Simões
29.01.2024
Imagem Google



sábado, janeiro 20, 2024

Para um sem-abrigo



Lembro-me de quando ainda eras criança.
Brincavas ao ar livre com os outros meninos.
Tinhas pai, mãe e uma irmã; uma vida normal.
(O que será uma vida normal?)
Parecias feliz como as outras crianças que, em teu redor,
brincavam e saltavam jogando à bola.
Todos muitos alegres, divertidos,
com as traquinices próprias da idade. 
Estive muitos anos sem te ver.
Sinceramente já nem te recordava.
Um dia abordaste-me, com muita educação,
porque me reconheceste,
apesar dos anos passados...
- Sim, sou eu...
E pediste-me uma moeda...
Contaste-me parte da tua história 
e falaste-me da tua mãe,
com tanto carinho, com tanto orgulho: 
- a Mulher que mais amei -
deixando rolar as lágrimas,
que tanto me comoveram.
Percebi que os teus caminhos não foram retos,
que tens percorrido a vida por vias travessas.
Uma vida indigna de um ser humano.
Há dias vi-te junto a uma cama improvisada
debaixo de uma varanda, onde dormes ao relento.
Fiquei atónita e o meu pensamento divagou...
E divaga, porque não tenho respostas
nem soluções para te socorrer.
Apenas te posso indicar um caminho...
Um caminho que tu conheces bem,
porque dele tua mãe te falava.
  
Texto
Emília Simões
20.01.2024
Imagem Google



sábado, janeiro 13, 2024

Hoje a chuva molha a calçada


Hoje a chuva molha a calçada
e as pedras brilham como cristais
na densa tarde de inverno.
As árvores, nuas, parecem chorar
as folhas que, coladas ao chão,
parecem adormecidas.
Há raízes profundas que as unem
e não é a falta de luz que as 
mantêm vigorosas na sua nudez.
A seiva continua a circular
no interior dos seus troncos.
Por um lapso de tempo
sobrevivem à noite que as cinge.
A primavera não tardará
e como milagre
no silêncio de uma manhã amena,
despertarão reluzentes
em ramos iluminados,
como um brilho impresso no tempo.


Texto e foto
Emília Simões
13.01.2024




sábado, janeiro 06, 2024

Mergulho nos rastos do vento


Mergulho nos rastos do vento
as ondas da ilusão 
e apenas ouço o murmúrio do mar.
As folhas balouçam
na crista das ondas 
como palavras soltas
nos barcos fundeados,
amarrotadas na boca de um peixe.
Na areia da praia um búzio reflete
o esplendor do dia
e deixo que o silêncio
apenas me fale de outras maresias.
Por instantes, fito o horizonte
e uma ave vem ao meu encontro
e pousa-me nas mãos,
leve como uma pena.
Acolho-a com espanto
e como estátuas
ficamos assim
até ao anoitecer.

Texto
06.01.24
Emília Simões
Imagem Google 
 


sábado, dezembro 30, 2023

O rio das minhas lembranças

(desconheço o autor)

Caminho sem sentido tentando abstrair-me dos trajetos, que tantas vezes trilhámos juntas!

O que mais apreciava eram os ribeiros de águas límpidas, onde mergulhavas as mãos e o coração.

Nas águas geladas brilhando ao sol, quente de inverno, a tua silhueta resplandecia de emoção e amor.

Ainda me recordo das laranjas que caíam junto à margem do ribeiro grande e que me deliciavam.

Sempre gostei de laranjas. Hoje o ribeiro está seco e não sei se ainda existem laranjeiras no velho pomar.

Mas sabes uma coisa? Do que tenho  mesmo saudades é das filhoses que fazias à lareira no tacho grande, na noite de Natal!

Quando passo à tua porta, parece que ainda sinto o aroma da canela e do açúcar com que as polvilhavas.

Como eram boas as tuas filhoses! Nunca mais comi nenhuma igual. Hoje há tantos, tantos sabores, que me confundem.

Paro um pouco e apenas desertos se estendem à minha frente e uma neblina cai sobre o rio.

O rio, o rio das minhas lembranças, que tudo guarda e tudo revela.


Desejo a todos um Feliz Ano Novo com saúde e paz!

Texto
Ailime
Imagem Google
30.12.2023

segunda-feira, dezembro 18, 2023

É dezembro, quase Natal!


É dezembro, quase Natal!

O frio alastra nas cidades,

vilas e aldeias.....

Azáfama costumeira

onde impera o consumismo

num frenesim desmedido,

torna dezembro ainda mais frio

para os que dormem ao relento,

para os que caem por terra

nos cenários de guerra.

Tanta fome no mundo,

tanta sede de afetos,

tanto choro de crianças nuas

por um destino

que lhes assassinou os pais.

Tanta prepotência e ganância,

que violam todos os direitos humanos.

É urgente  a paz, a fraternidade,

e o calor dos afetos. 

É urgente o Amor!

É urgente o Natal!


Texto
Ailime
Imagem Google
18.12.2023


Desejo a todos santo e feliz Natal!



domingo, dezembro 10, 2023

Sentada na escarpa



Sentada na escarpa

vagueio o olhar pelo horizonte 

que perscruta o entardecer, 

de uma tarde de outono.

Recordo-me da varanda

de onde ao acordar

vislumbrava o amanhecer.

Os dias tão longos,

hoje tão curtos.

A alma imperturbável

recolhe nos recônditos da memória

as cores, que hoje tão distantes,

estão aprisionadas

no pensamento.

Quando a noite murmurar

o frio e a geada do inverno,

a primavera florescerá

nas pontas dos meus dedos.


Texto
Ailime
10.12.2023
Imagem Google


sábado, dezembro 02, 2023

O recomeço



Percorri estradas

desbravei caminhos 

atravessei socalcos

feri os pés

golpeei as mãos;

a minha boca

está amarga

pelo sal que me escorre

dos olhos

o sentido do meu viver.

Quis mudar de trajeto;             

tombei, ergui-me

e tropecei nas pedras,

mas reergui-me

O meu corpo,

os meus braços

doridos

ficaram entrelaçados

para sempre nas grades

dum muro

que me rasga o pés

e me trava o recomeço.


Texto e foto
Ailime
02.12.2023



sábado, novembro 25, 2023

No meu canto



No meu canto escrevo uma palavra, 

depois outra e ainda outra.

Que pretendem meus dedos expressar

quando seguram a caneta e ela desliza

lentamente, como a desenhar um poema

que nem sequer está esboçado?

Deixo que gotas de tinta escorram

e molhem o papel e nesse borrão

eu tenha esculpido algo

que se assemelhe a poesia.

Tal como o pintor, quando na tela

deixa que as tintas se esbatam 

e formem a sua inspiração contida.

A tinta secou, olho-a incrédula!   

Nada restou e o poema não aconteceu.


Texto
Ailime
25.11.2023
Imagem Google



segunda-feira, novembro 20, 2023

É outono

 


A natureza reveste-se de amarelo dourado.

Os frutos têm  sabor a mel.

Nos meus lábios o teu nome

tem o aroma de um amanhecer

e o sabor de um pôr do sol.


Os dias são mais curtos.

Os raios solares mais amenos.

Os muros e os troncos de árvores

cobrem-se de líquenes e musgos.

Nos prados, a geada cobre as ervas pela manhã.


A natureza respira serenidade;

até o vento amainou.

Quase que o aconchego  nas minhas mãos.

Paira no ar o cheiro a castanhas assadas,

maçãs e canela.


No chão molhado repousam folhas caídas,

no outono da alma, no outono da vida.


Texto e foto
Ailime
19.11.2023