sábado, dezembro 03, 2022

Na respiração de novos rebentos

(Desconheço o autor)


No silêncio da seiva a árvore adormecida;

folhas caídas sobre o chão molhado

e os líquenes a envolverem-na

como primícias de vida prometida


os pássaros adejam em seu redor 

alegres no seu canto sempre mavioso,

indiferentes às estações

e ao vento dos dias gelados


a natureza canta sempre ao amanhecer

e adormece no entardecer

quando as aves partem em debandada

na respiração de novos rebentos.

 

Texto
Ailime
03.11.2022


sábado, novembro 26, 2022

No tumulto das palavras

Belinda Flores

No tumulto das palavras sinto solidão.

Não é que as palavras não foquem sentimentos,

mas, por vezes, o gume ácido da vida

não deixa que façam sentido.


Na transversal das ruas que percorro

como ave sem penas, ouço à distância

o eco do silêncio que se me quebra na voz.


Há uma infinidade de ruas a percorrer

para melhor entender o significado

do que me rodeia, do que me espanta.


Porque a vida não sendo reta

é feita de sóis e de luas,

de abraços e palavras.

De ecos e resplendores

na partilha dos silêncios.


Texto
Ailime
26.11.2022

sexta-feira, novembro 25, 2022

Era outono e as folhas sorriam-nos.


Sempre caminhei para ti sem saber se te encontrava.

As portas por vezes fechadas, outras vezes abertas,

mas eu não te vislumbrava.

O chão estava coberto de seixos

salpicados por maresias que me perturbavam o olhar.

Nada fazia prever que te encontraria 

um dia, por acaso, com uma chávena de café 

que me oferecias despretensiosamente

fitando o meu olhar, que se prendeu no teu,

num abandono quase íntimo.


Era outono e as folhas sorriam-nos

como se uma força nos desafiasse 

a libertar o esplendor do mundo.



Texto e foto
19.011.2022
Ailime

sábado, novembro 12, 2022

Da janela florida

Imagem Net


Nas escarpas do tempo

ouço a tua voz que me fala 

das estações que ainda ontem 

eram barcos atracados nos cais,

hoje apenas restos de cinzas

esquecidas na velha lareira

onde crepitavam silêncios

a marejar dos teus olhos,

debruçados na solidão das noites.


Dos voos rasantes dos pássaros

a arrastar as sombras

diante da janela florida,

do inverno restou apenas o vento

que segreda em silêncio

os atalhos em que te reconheço.


Texto
Ailime
12.11.2022


sábado, novembro 05, 2022

Por vezes as palavras hibernam

Angela Betta Casale


Por vezes as palavras hibernam

e ficam retidas em silêncio

no mais recôndito do meu ser.

Nem o vento,

nem o voo dos pássaros

as fazem despertar.


Como num sonho

corro atrás delas, tentando libertá-las.

Elas persistem num mutismo secreto,

que me prende a língua

e tolhe os sentidos ausentes

da realidade, que me atordoa.


No esplendor da manhã

abro a janela e deixo que o sol

desperte, no silêncio das palavras,

o rio que habita em mim.



Texto
Ailime
05.11.2022
Imagem Google

sábado, outubro 29, 2022

No silêncio das folhas

 

Leonid Afremov



No silêncio das folhas

o eco da chuva que, irrefreável,

nos espanta e das nuvens

vai tombando

como cascatas de pérolas

a brilhar nas calçadas.


Estendo-lhe os braços, as mãos

e acolha-a, como bem precioso,

tão próxima de mim

a desviar-me a atenção

das guerras, dos mal-entendidos,

das frustrações, das impiedades.


No jardim, as folhas acolhem os pássaros

que perderam o norte

e repousam o outono nas tardes dos dias. 



Texto
Ailime
29.10.2022



sábado, outubro 22, 2022

Sobre o dorso da terra o gemido

 


Sobre o dorso da terra o gemido

e a busca por dentro e por fora 

do precioso líquido

que mitigará a sede do mundo.

Não tardará....

Chegará  de mansinho

e depois como um dilúvio 

lavará todas as penas 

e as manchas

que inundam a terra

e os rios transbordarão.

Uma pausa à espera de resposta

e o arco-íris a espreitar

e a ouvir a minha prece.



Texto
 Ailime
Foto  do meu filho S.S.
22.10.2022


sábado, outubro 15, 2022

Cativamo-nos em silêncio

Gustav Klimt

Cativamo-nos em silêncio

e em silêncio abrimos o coração

num beijo, que nos estremece

e enternece.

Deixamos que neste entardecer

os sentidos repousem

e nos recordem os cachos dourados

do nosso amanhecer.

Era tudo tão intenso, tão cheio de cor.

Hoje abraçamos o mundo

flutuando na leveza do amor.



Texto
Ailime
15.10.2022


sábado, outubro 08, 2022

O tempo, sempre o tempo

 

Ailime

O tempo, sempre o tempo, na voz,

como um rio que percorre as palavras

que teimam em libertar-se nas manhãs,

em que o orvalho lhe cinge o olhar

ainda meio adormecido.

Como uma fonte soletra nas águas

os sentidos, em movimentos ascendentes,

no esplendor da manhã a cativar-lhe

as palavras, que se soltam como flores

a desabrochar num chão de primavera.

Retoma o caminho

liberto de sombras e silêncios

e regressa ao tempo, nas palavras,

refletidas no rio.


Texto e foto
Ailime
08.10.2022

sábado, outubro 01, 2022

São breves os dias de outono



Quando cheguei à minha rua

já era outono.

Ainda ontem colhia uma rosa...

Hoje, das minhas mãos,

caem folhas amareladas

que recolhi no regaço

onde os dias repousam mais cedo,

no sol que se  despede 

mal a tarde se insinua.

São breves os dias de outono

e as noites alongam-se

para além do horizonte,

onde apenas distingo

no crepúsculo das horas

o silêncio da manhã que tarda.


Texto e foto
Ailime
Set./2022