que eu percorria com pasmo
Ailime
20.04.2020
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«As palavras pesam. Um texto nunca diz a dor das pequenas coisas» Graça Pires in Poemas escolhidos
O estio adentrava-se-te no ventre
e o teu rosto sorria.
Não que os teus olhos o revelassem;
mas as tuas mãos tremiam e acariciavam
inconscientemente
o fruto que acabaria por brotar em breve,
nesse desatino que sempre te acompanhava.
As cigarras entoavam um crepúsculo
e os teus lábios permaneciam cerrados
num secretismo de dúvidas,
líquidas do silêncio que albergavas
nos gestos inconscientes
que pairavam sobre as águas
e se entranhavam nas pedras.
Nunca entendi o movimento das águas
nem o balouçar do vento
a raiar a linha de fogo
que delineava os teus gestos.
O meu rio é azul como o céu,
mas nem sempre viajo nas suas águas.
Os barcos há muito que estão atracados
e nem o vento os embala
como nos tempos remotos
da transparência das águas
e da abundância de peixe.
Os pássaros voejam nos choupos
e cantam sobre as escarpas
a claridade da primavera;
os barcos não se movem
e os peixes ausentes.
No lodo do rio, repousa
a insensatez do homem.
William Turner
Se queres enfrentar o caminho
percorre-o pedra sobre pedra;
encontrarás muros e declives
e descansarás no chão molhado.
A tua sede será mitigada,
mas não declines o futuro
que aos teus olhos se antevê.
Uma espécie de pacto será
o espanto que te distinguirá
entre a luz e as sombras.
Falta-me o chão, esta não é a minha rua.
Subo e desço calçadas e escondo-me
num vão de escadas.
Corri mais veloz que o vento
Tenho os sentidos adormecidos
Repouso o meu corpo cansado
O barulho é ensurdecedor
Ouço gritos, vozes roucas desesperadas
Parece-me ouvir um estrondo
Decerto estou a sonhar
Será um pesadelo?
Espreito a porta, quero acordar
Multidões fogem estarrecidas
Crianças ao colo, outras pela mão a chorar
Tenho fogo nos pés e voo
Não quero fugir, quero ficar aqui
Defenderei o meu chão
com cinzas na boca.
Mesmo com a alma mutilada
deixarei o meu corpo gravado
nesta terra que é minha.
