segunda-feira, abril 25, 2022

25 de Abri, sempre!

  


Nas calçadas ainda há vestígios
das flores rubras da manhã
que bebi como um néctar
quando a madrugada se soltou 

Pássaros esvoaçavam de galho em galho
e alertei-os da chegada da primavera.
Sorriram e voaram mais alto
a perpetrarem a canção
que as vozes ainda sustinham

Em bandos, todos os outros pássaros
entoavam já a melopeia
a incendiar a manhã
que eu percorria com pasmo



Texto
Ailime
Reedição
20.04.2020
Imagem Pinterest

quarta-feira, abril 20, 2022

Roubo à noite a Lua Cheia



Roubo à noite a Lua Cheia
guardo-a num quarto pintado de azul
e dependuro-a no teto qual
candelabro a iluminar as sombras
suspensas do telhado da casa.

Outrora o luar, liberto,  acendia
todos os recantos por mais escuros
e sombrios
como faróis no mar alto
em noite de tempestade.

Talvez a escuridão seja passageira
e as sombras se dissipem
em sonhos inacabados
transformados em teias de luz
a escorrerem-me  pelos dedos das mãos.


Texto e foto
Ailime
19.04.2022

sexta-feira, abril 15, 2022

No meu silêncio


No meu silêncio ensimesmei-me.
Angústias me trespassaram
como relâmpagos a faiscarem
que me atravessaram o corpo
em tempestade convulsiva
e chorei.
A tua ausência,
a tua traição.
Subi ao cume do monte.
Como ladrão fui esconjurado,
maltratado
e açoitado.
Crucificado.
O templo rasgou-se ao meio,
o sol eclipsou-se
e expirei.
Tudo foi consumado.

Santa e abençoada Pascoa.

Texto
Ailime
Imagem Google
13.04.2022

segunda-feira, abril 11, 2022

Para colher um nenúfar

Claude Monet
 


Descia os degraus que
me levavam ao rio
onde cresciam nenúfares
num lago que improvisei.
Apenas o marulho das águas
me impedia de caminhar nas margens
ora pintadas de azul, 
ora pintadas de verde.
O sol debruçava-se sobre as águas
e a claridade iluminava-me como fogo,
como se ateasse uma fogueira.
O céu matizado de nuvens, tingidas de púrpura,
era o espaço dileto dos pássaros
que, em voos rasantes, anunciavam o entardecer.
O sol ia baixando no horizonte
até que o esplendor da noite
fulgisse na linha do infinito.
Descalça, sobre os seixos, contornava o lago
estendendo as mãos, incólumes, 
para colher um nenúfar.

Texto
Ailime
04.04.2022

 

segunda-feira, abril 04, 2022

Os teus gestos



O estio adentrava-se-te no ventre
e o teu rosto sorria.
Não que os teus olhos o revelassem;
mas as tuas mãos tremiam e acariciavam
inconscientemente
o fruto que acabaria por brotar em breve,
nesse desatino que sempre te acompanhava.
As cigarras entoavam um crepúsculo
e os teus lábios permaneciam cerrados
num secretismo de dúvidas,
líquidas do silêncio que albergavas
nos gestos inconscientes
que pairavam sobre as águas
e se entranhavam nas pedras.
Nunca entendi o movimento das águas
nem o balouçar do vento
a raiar a linha de fogo
que delineava os teus gestos.



Texto
Ailime
(Reedição revista)
10.08.2020
Imagem Google

terça-feira, março 29, 2022

O meu rio é azul



O meu rio é azul como o céu,

mas nem sempre viajo nas suas águas.

Os barcos há muito que estão atracados

e nem o vento os embala

como nos tempos remotos

da transparência das águas

e da abundância de peixe.

Os pássaros voejam nos choupos

e cantam sobre as escarpas

a claridade da primavera;

os barcos não se movem

e os peixes ausentes.

No lodo do rio, repousa

a insensatez do homem.


Texto e foto
Ailime
29.03.2022


quarta-feira, março 23, 2022

Entre a luz e as sombras.


William Turner


Se queres enfrentar o caminho

percorre-o pedra sobre pedra;

encontrarás muros e declives

e descansarás no chão molhado.

A tua sede será mitigada,

mas não declines o futuro

que aos teus olhos se antevê.

Uma espécie de pacto será

o espanto que te distinguirá

entre a luz e as sombras.


Texto
Ailime
23.03.2022

quinta-feira, março 17, 2022

Falta-me o chão

 


Falta-me o chão, esta não é a minha rua.

Subo e desço calçadas e escondo-me 

num vão de escadas.

Não sei como cheguei até aqui

Corri mais veloz que o vento

Tenho os sentidos adormecidos

Repouso o meu corpo cansado

O barulho é ensurdecedor

Ouço gritos, vozes roucas desesperadas

Parece-me ouvir um estrondo

Decerto estou a sonhar

Será um pesadelo?

Espreito a porta, quero acordar

Multidões fogem estarrecidas

Crianças ao colo, outras pela mão a chorar

Tenho fogo nos pés e voo

Não quero fugir, quero ficar aqui

Defenderei o meu chão

com cinzas na boca.

Mesmo com a alma mutilada

deixarei o meu corpo gravado

nesta terra que é minha.

 

Texto
Ailime
16.03.2022
Imagem
Google

sábado, março 12, 2022

Na busca incessante das manhãs

 Jetty, Sunset, Lake, Sky, Clouds, Reflection


À noite quando as sombras pairam sobre escombros
e dentro de ti o vazio te cala na voz o silêncio
ouve-se ao longe o som do mar em burburinho
como se fora um cântico que os deuses cogitam
para amainar as tempestades das asas dos anjos.

Relâmpagos de marés alumiam-te na escuridão
perpetrando um concerto de vozes maviosas
a bailar sobre nuvens em voos desordenados
na busca incessante das manhãs.


Texto
Ailime
09.01.2020
Imagem Google

sábado, março 05, 2022

O poema nunca está completo


Gustav Klimt


O poeta é um caçador insaciável de
emoções, que lhe brotam  da alma
como a nascente do rio
que desliza suavemente pelos socalcos
da montanha, a perder de vista.
O poema nunca está completo.
Há uma sede de palavras
que não se mitiga em qualquer fonte.
As palavras têm asas que buscam
silêncios, sorrisos, alegrias, amor,
mergulhados no mais profundo do âmago.
O poeta e a poesia estão em constante
conflito de ideias e ideais, 
porque o poema nunca está completo.
O poema necessita ser cinzelado,
afagado, como se fora uma escultura,
mas deixa sempre o caminho aberto
para uma nova fonte, uma nova sede,
uma nova emoção.  
O poema nunca está completo,
porque o poeta continua a existir
para além das palavras.


Texto
Ailime
05.03.2022