sexta-feira, outubro 02, 2020

Era outono

 
Tela de José Malhoa


O seu rosto erguia-se no parapeito da janela
para o vizinho que lhe contemplava no olhar
a ternura dos dias perdidos
quando o outono teimava em
rasgar-lhe nas faces a colheita das uvas
douradas como mel a escorrer-lhe
pelos cantos da boca ávida dos beijos
ocultados nas tardes serôdias.
Era o tempo das vindimas
O tempo dos frutos maduros
Dos aromas a mosto e a sede
Era outono.

Texto
 Ailime
02.10.2020


quinta-feira, setembro 24, 2020

Nem sempre o silêncio é lúcido




Nem sempre o silêncio é lúcido
quando na ausência das vozes
as palavras se calam

o silêncio é a retração da voz
enleada em grãos de poeira
suspensas em nuvens de folhas

por vezes é apenas mágoa, soterrada 
pelos pensamentos que se negam
a retratar-te na alma
os pudores que te recalcam.

o silêncio é o orgulho ferido
pelo preconceito do poema
quando renuncia às palavras.


Texto
Ailime
24.09.2020
Imagem Google



sexta-feira, setembro 11, 2020

O poema

quadro - pintura abstrata - quadro abstrato - cores vivas no Elo7 |  Patricia (1016413)

O poema pode conter palavras sem nexo
reecontros nas entrelinhas
movimentos ascendentes ou descendentes
ruas desertas com ou sem metáforas
terras de quase ninguém.
esboços de gestos abstratos
horas aprisionadas pelos ponteiros gastos
do tempo
amores e desamores
alegrias e tristezas
ausências de quem já passou
as agruras e crueldades da vida.

o poema pode conter apenas numa linha
o sentir do poeta
no lusco-fusco da vida
indiferente à ausência dos pássaros.

Texto
Ailime
11.09.2020
Imagem Google


quarta-feira, setembro 02, 2020

De mãos dadas

de mãos dadas também com o mar Foto de Jorge Pinto | Olhares - Fotografia  Online

Na aridez da vida
percorro horizontes antes nunca sonhados
e mitigo a sede com as palavras
que me sussurras quando de mãos dadas
perscrutamos o infinito
e nos entreolhamos cúmplices
de um amor que nos corta a pele
e nos alimenta os sentidos
como se rasgássemos o tempo
que nos vai tragando as horas
encurtando as distâncias
que nos separam do ocaso
onde os pássaros nidificam
uma nova manhã, uma nova vida.
Entre a aurora e o crepúsculo
não desistimos de agarrar o vento.





Texto
 Ailime
02.09.2020
Foto
 Jorge Pinto

segunda-feira, agosto 24, 2020

Palavras tantas vezes sufragadas


sun

Palavras tantas vezes sufragadas
Por gotas de mar nublado pelas brumas
Que te cerram no olhar o vento
Quando há escassez de marés
E nem sabes se são mesmo palavras
Ou apenas pedaços de memórias
Encalhadas no convés do navio
Quando te fazes ao largo

Não precisas penitenciar-te
Deixa apenas que o esplendor do sol
Te preencha o vazio da alma.


Texto
Ailime
24.08.2020
Imagem
Google

terça-feira, agosto 18, 2020

Levanto-me e desprendo-me da noite





Levanto-me e desprendo-me da noite 
mas não sei se já é madrugada 
Atrás de mim a inocência 
dos passos que dou devagar 
O meu olhar abre a janela 
A lua, quarto minguante, sorri 
Por vezes tropeço nas estrelas 
e estendo-lhes as mãos 
os braços ...
O vazio no meu colo. 
Uma estrela cadente 
sopra-me no olhar 
uma ténue claridade. 



Texto
Ailime
01.06.2019
Imagem Google
(Reedição)

segunda-feira, agosto 10, 2020

No vazio dos teus gestos



O estio adentrava-se-te no ventre
e o teu rosto sorria
Não que os teus olhos o dissessem
mas as tuas mãos tremiam e acariciavam
inconscientemente
o fruto que acabaria por brotar em breve
nesse desatino que sempre te acompanhava
As cigarras entoavam um crepúsculo
e os teus lábios permaneciam cerrados
num secretismo de dúvidas
líquidas do silêncio que albergavas
nos gestos inconscientes
que pairavam sobre as águas
e se entranhavam nas pedras.
Nunca entendi o movimento das águas
nem o balouçar do vento
a raiar a linha de fogo
no vazio dos teus gestos.


Texto
Ailime
10.08.2020
Imagem Google

sábado, agosto 01, 2020

Há uma idade


Abstract Artistic Digital Smooth Multicolored Galaxy Background ...


Há uma idade em que crescemos
agarrados às paredes de cal
e tudo é linear, tudo é branco.
o mundo é uma fronteira estranha.
apenas um pedaço de céu ali a brilhar
com as estrelas cintilantes
a sorrirem-nos como faróis 
a rodopiarem noutra galáxia
que nem sequer sabemos se existe.
apenas a sentimos como se fosse
uma estrela cadente 
que agarramos com as mãos
em gestos desajeitados
como se fora um tesouro
que queremos perpetuar
na intimidade do silêncio.


Texto
Ailime
01.08.2020
Imagem Google


sábado, julho 25, 2020

O medo

Medo: por que sentimos e como superá-lo – Blog Vittude

Quisera que o medo fosse uma névoa
uma simples palavra sem nexo, 
a vaguear por vales profundos e longínquos
onde os pássaros não a alcançassem
nem os relâmpagos a faiscassem
nem os ecos a cativassem
como se fora um buraco negro
a doer-me dentro do peito.
quisera não entender o medo.
refugiar-me num barco verde
numa praia de águas límpidas
onde o sol brilha em cada pedrinha azul
que te devolve as insondáveis horas 
em que te deténs sobre a escarpa alada
dum tempo fora de tempo.
em que as incertezas se tornam certezas
nas tuas mãos vazias de gestos
quando os teus olhos, côncavos,
se retraem no exílio.


Texto
Ailime
25.07.2020
Imagem  Google

sábado, julho 18, 2020

A palavra tarda

Olhando horizonte Fotografias de Banco de Imagens, Imagens Livres ...

A palavra tarda.

Ardem-te os lábios
gretados pela dureza do sal
as tuas mãos contorcem-se
em gestos invisíveis
o teu olhar perscruta o infinito
em súplica ardente.

A palavra tarda.

O amor percorre o fio
que te separa do voo 
dos pássaros.


Texto e foto
Ailime
17.07.2020