«As palavras pesam. Um texto nunca diz a dor das pequenas coisas» Graça Pires in Poemas escolhidos
sábado, novembro 30, 2024
Sentada na escarpa
sábado, novembro 23, 2024
Deixo que o silêncio
Deixo que o silêncio
abafe a minha voz.
Um pássaro esvoaça
sobre um barco
ancorado na praia.
O dia permanece claro.
O vento de outono assobia
sobre as folhas caídas.
No meio da calçada
uma flor renasce.
É a vida a renovar-se
em cada dia
no meu olhar,
na minha vida.
Emília Simões
23.11.24
sábado, novembro 16, 2024
Partiste minha Mãe
Partiste minha Mãe
e não dissemos adeus.
Uma folha ao vento
levou-te para lá das nuvens
e o céu abriu-se para te receber.
O rio, lá em baixo, guarda
os ecos do meu sentir.
Dos meus olhos escorre o orvalho
que vai engrossando o caudal,
desse rio, que corre placidamente.
Da última vez que te vi, inerte,
parecias sorrir e, essa imagem,
quero guardá-la em mim,
para sempre.
Já não te vou ver mais, Mãe.
Já não podemos trocar um beijo,
um abraço...
Mãe, partiste e deixaste
um vazio na minha vida.
Com as tuas memórias
reaprenderei a viver
na saudade da tua ausência.
Descansa em paz!
minha Mãe
1931-2024
sábado, novembro 02, 2024
Para encontrares o belo
Para encontrares o belo
terás que calcorrear vales
e montes,
atravessar silêncios
galgando rios
caminhos lamacentos
enfrentar feras
e talvez no fim do caminho
encontres o que procuras;
a luz refletida
em simples flores
no cimo duma montanha.
Emília Simões
02.11.2024
sábado, outubro 26, 2024
No silêncio do outono
ouço o vento nas folhas
que caem impiedosamente
e a chuva que as embebe
deixando-as brilhantes
no chão escorregadio.
No silêncio do outono
revejo folhas antigas
que me trazem memórias
embutidas no meu ser.
No silêncio do outono
entro na tua casa
e as paredes brancas e frias
falam-me de ti
a observar o rio lá em baixo,
que corre límpido como o teu olhar.
No silêncio do outono
recolho-me, não ouço a tua voz
e não tarda é inverno outra vez.
Texto
Emília Simões
26.10.2024
sábado, outubro 19, 2024
Ainda será tempo de salvar a Terra?
Ainda será tempo de salvar a Terra
se o Homem não ambicionar tesouros
se o poder não for a sua sede
mas o amor a sua ambição.
Ainda será tempo de salvar a Terra
se os vilões que fomentam a guerra
e fazem alastrar a fome e a morte
semearem campos de trigo
e plantarem sementes de paz.
Ainda será tempo de salvar a Terra
se o egoísmo der lugar ao desapego
e o Homem aprender a viver
com modéstia e sentido de justiça.
Ainda será tempo de salvar a Terra
se o Homem beber das águas das fontes
e ficar saciado com o ar puro, a beleza e a luz
que emanam deste ainda tão fascinante Planeta.
Ainda será tempo de salvar a Terra?
Emília Simões
Imagem Net
sábado, outubro 12, 2024
As palavras
Levanto voo para alcançá-las, mas
a gravidade deita-me ao chão.
Ergo-me e tento trepar.
O tronco, escorregadio,
faz-me resvalar e cada vez mais
as palavras se afastam.
Chove e os pássaros, taciturnos,
não abandonam as crias.
As palavras estão cada vez mais longe.
Tento voar numa folha ao vento
para as agarrar mas, teimosas,
ignoram-me.
Esqueço-me, por instantes,
que ainda não é o tempo
propício das colheitas.
Emília Simões
12.10.2024
sábado, outubro 05, 2024
Passo à tua porta
a pedra desfaz-se sob os meus passos.
O tempo pesa sobre o meu corpo
tão distante da leveza dos gestos,
quando te procurava e me enlaçavas
nos teus braços tão fortes
que me faziam sentir muito amada.
O tempo tudo traz e tudo leva,
mas como as folhas caídas
que atapetam o chão no outono,
na primavera brotam revigoradas
e volto a sonhar outra vez
com a leveza e ternura dos gestos,
gravados no meu viver,
Emília Simões
04.10.2024
sábado, setembro 28, 2024
No fundo dos meus olhos
Misturam-se num terno olhar que
os eleva num doce e húmido sentir.
Quando os olhos se encontram
tudo paira para além dos sentidos,
mergulhando-os ternamente,
como nenúfares, num lago azul,
onde o céu reflete a claridade das nuvens.
O sol brilha e entoa
numa suave e refrescante aragem,
uma breve e anunciada sonata de outono.
Emília Simões
11.09.2024
sábado, setembro 21, 2024
O outono que se apressa
anunciam o outono, que se apressa.
O vento assobia e as folhas, em desalinho,
dançam num vaivém frenético a melodia
do verão, que se despede.
O seu olhar segue o movimento das folhas
e o dourado da tarde ofusca-lhe os sentidos,