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sábado, agosto 22, 2026

Porque choravas, mãe?

 

DreamsTime

De degrau em degrau,
pedra sobre pedra
percorremos
os nossos caminhos.
Nem sempre lado a lado,
nem sempre na mesma direção.
Eu era irrequieta, dizias.
Porque seria?
Eu não entendia nada
do mundo, que apesar de tudo,
me deslumbrava a cada instante.
O mundo das pessoas crescidas
era uma incógnita para mim.
Muitas vezes choravas e
nunca me disseste porquê.
Na natureza cresci,
rebolando nas ervas macias,
a ouvir o canto dos pássaros
nas minhas brincadeiras de maria rapaz,
que me devolviam a alegria,
como dizias.
Eram formas de expressão que encontravas
para as minhas traquinices.
Dessas memórias
ainda guardo do teu belo rosto,
as lágrimas que deslizavam
pelas tuas faces, em silêncio
e que tanto me confundiam.

Ainda hoje não sei: 
porque choravas, mãe?

Texto
Emília Simões
22.08.2026


sábado, agosto 01, 2026

Uma sombra

 

 Adolphe Bouguereau


Uma sombra tolda-me o rosto.
O caminho torna-se escuro.

Não ouço o tom da tua voz,
que embalava o meu estado de alma.

Sinto-me pesada, trôpega,
a caminhar sobre pedras,
como as que rodeavam a tua casa.

O cheiro do outono persegue-me.
As folhas secas espalham-se pelo chão.

Saboreio uma romã já seca,
que seguras nas mãos,
no velho quadro da parede
da sala grande, onde eu brincava.

Olho-te
e acabo por sorrir.


Texto 
Emília Simões
01.08.2026


sábado, junho 20, 2026

Passo à tua porta


Passo à tua porta.

Subo, pedra a pedra, os anos

e já não vislumbro

o teu rosto,

que sorria para mim

assomando ao postigo

quando, aos saltos,

corria para o teu colo.

Tu, sempre, de braços estendidos.

A rua já não tem pedras.

Vestiu-se de negro.

À noite os pirilampos

já não a bordejam

como outrora, quando

me alumiavam o caminho.

O progresso passou por ali

e tu, já não estás!


Texto e foto
Emília Simões
20.06.2026
Imagem Google

sábado, maio 23, 2026

Caminho

Rio Tejo

Caminho por terrenos escabrosos,
piso pedra sobre pedra,
subo montes,
desço por vales e planícies,
repouso nas margens do rio,
onde escuto a tua voz ausente
falar-me de mansinho
no murmúrio suave das águas.

Chamo-te, e não respondes.
O eco da minha voz não regressa
e uma brisa suave acaricia-me o rosto.

Apesar do silêncio que fere,
o teu nome continua indelével,
a bailar nas águas do rio.


 
Texto e foto
Emília Simões
23.05.2026



sábado, março 14, 2026

Os meus olhos vagueiam perdidos


Edvard Munch

Os meus olhos vagueiam perdidos
na penumbra dos dias em que
a claridade se ausenta
de mentes que não enxergam horizontes
de justiça, lealdade e amor.


Nas águas do mar embrenho-me
para dissimular o sal
que me escorre do rosto,
numa mistura límpida,
purificando os ruídos que me perturbam
os sentidos e a razão.


Um silêncio inquietante 
roça-me os passos
e a voz atrofia-se 
num gesto desumano.
Quando irromperá a luz
no coração de quem ignora
os caminhos da paz?


Texto
Emília Simões
14.03.2026


sábado, janeiro 03, 2026

Nos teus olhos

Pixabay


Nos teus olhos quietos não se vislumbrava alegria.
Por vezes choravas e eu perguntava-te - porquê?
Não me respondias e, triste, não pensava em nada.
Fazia-se silêncio entre nós.
Era ainda muito criança,
para entender as dores dos adultos.

A tristeza morava em ti, silenciosa.
Olhavas o mundo sem tocá-lo;
calavas as feridas que te rasgavam por dentro,
presas naquele olhar profundo,
onde a angústia se escondia.

Dos teus olhos brotavam lágrimas,
como pérolas, a rolar pelo teu rosto belo.
Algumas caíam-me sobre as mãos,
que inocentemente te estendia.

Raramente sorrias.
O teu mundo fechava-se em ti,
apertava-te o peito,
e eu sentia, sem compreender,
que algo te consumia por dentro.

Ali, em silêncio, frente a frente,
ficávamos a olhar-nos
sem palavras, sem respostas.
Talvez o tempo, um dia,
me ensinasse aquilo que o teu olhar
guardava.

Texto
Emília Simões
03.01.2026



sábado, agosto 03, 2024

Memórias

Imagem daqui

Passo à tua porta fechada e evoco
o tempo dos frutos maduros;
das amoras silvestres,
das ameixas amarelas
ao fundo da horta,
das melancias e melões,
dos tomates e feijão verde
que eram o orgulho
do suor, que te sulcava o rosto.
As uvas douradas com sabor a mel;
as abelhas bebiam-lhe o néctar.
Na horta, ao lado do poço,
o jardim das zínias e das sécias
faziam da horta um local encantado.
À tarde pela fresquinha,
como eram saborosas as merendas
com os frutos refrescados 
com a água do poço.
Tudo era puro e belo.
O ar que respirávamos, a água que
nos mitigava a sede;
o gorjeio dos pássaros, os zumbidos dos insetos,
o coaxar das rãs,
numa sinfonia perfeita.
O nosso mundo era outro.
Lugar de sons, aromas e sabores,
que nos oferecias com amor.


Texto
Emília Simões
(In Memoriam: meu avô materno)
03.08.2024
Imagem
Mário Silva
(Sapo)

sábado, fevereiro 24, 2024

Palavras adormecidas


Palavras adormecidas

teimam em cingir-me a voz

que rouca, pelo frio do inverno,

se aninha no meu rosto gelado.

No firmamento aves esvoaçam

lado a lado com o vento

e, letras à solta, como folhas,

pousam no meu regaço

que as recolhe sofregamente.

No silêncio da tarde

talvez soletre um poema,

com as penas 

que os pássaros deixaram cair 

no ruído do seu voo.


Texto
Emília Simões
24.02.2024
Imagem Google

domingo, dezembro 18, 2022

O sol tarda, mas já se anuncia.



Percorro os caminhos de outrora

cobertos de geada.

Nos escombros dos muros o musgo,

onde escorre a fria madrugada

que acolhe os pássaros feridos 

de mais uma noite ao relento.

Sobre o rio, neblinas

vertem o orvalho da manhã,

que cava no teu rosto

as cicatrizes da noite,

que te embalam no silêncio

onde mergulhas a voz.

O sol tarda, mas já se anuncia

na cor purpúrea do amanhecer.


Texto 
Ailime
10.12.2022
Imagem Google



sábado, julho 09, 2022

Não sabia defender-se dos imprevistos


(Desconheço o autor)


Não sabia defender-se dos imprevistos.

Seus lábios calavam a dor do desconhecido.

O seu coração continha as emoções

que tentava segurar entre os dentes

e, as suas mãos, trémulas, prendiam a esperança

que teimava em arredar-se de si.

O sorriso tinha adormecido no seu rosto cansado.

Assim acordou a madrugada

com a notícia que tardava.

Os pássaros voltaram a voar

e a fazer ninho no seu peito.


Texto
Ailime
09.07.2022
Imagem Google

segunda-feira, maio 09, 2022

Escorria-lhe da boca o silêncio

 Di Farias

Escorria-lhe da boca o silêncio

que lhe ardia no peito.

Não soletrava as palavras

e os olhos côncavos

imersos num mar em chamas

ateavam nas suas mãos

barcos à deriva

baloiçando ao vento,

sulcando-lhe no rosto

a dor do pranto contido.

Nem o voo dos pássaros

em cantos alegres e claros

lhe soltaram dos lábios

o sabor amargo do silêncio.


Texto
Ailime
09.05.2022

quarta-feira, maio 12, 2021

Tinhas o brio de um diplomata


Tinhas o brio de um diplomata

e a passividade redentora

de quem abomina a injustiça.

Teus pés calcorreavam quilómetros.

O sol caía a pino;

sem queixumes descias  vales

e subias escarpas semeando o pão.

Esculpias com os dedos na terra

o ciclo das águas

que mitigavam a sede  

do que plantavas com amor;

desse amor  brotavam flores e frutos.

Os teus olhos brilhavam de espanto

como se o sol te nascesse no gesto 

quando finalmente descansavas as mãos sobre o rosto;

como se a tua verdade fosse apenas um simples gesto.


Texto
Ailime
12.05.2021

Imagem Net (autor desconhecido)




quarta-feira, maio 05, 2021

No limiar da porta ainda há vestígios

José Malhoa

No limiar da porta ainda há vestígios;

a luz detinha-se no teu colo

e abrias as mãos num gesto 

como a querer agarrar o dia

que te fugia por entre os dedos;

recordo a leveza indelével

com que aprisionavas o tempo

quando o pôr do sol

te refulgia no rosto

o desgaste que te prendia

ao silêncio das palavras encobertas.

Era o tempo em que os pássaros

se recolhiam antes do voo.


Texto
Ailime
05.05.2021

sábado, junho 02, 2018

Ainda há pouco a madrugada



Ainda há pouco a madrugada
me nascia nos olhos as cores do sol-nado.
O rio, límpido, como hoje não é
sorria nas margens o silêncio das águas
que, profundas, corriam ao sabor do vento
que as ondeava como searas a balouçar
na lezíria, ainda adormecida pelo orvalho da noite.
Ao entardecer, que surgia de mansinho,
o meu rosto, baço, como vidro cendrado
aquietava-se, como se a beleza do sol-posto
fosse apenas uma quimera.



Poema
Ailime
02.05.2018
Imagem Google

sábado, março 30, 2013

As paredes brancas



As paredes brancas reflectiam
O rosto profundo e circunspecto
Que se transmutava
Nos vidros baços da janela
Que te cingiam a cintura

Lá fora os pássaros
Cantavam madrugadas
De sonhos azuis
Nos céus jamais imaginados

A luz das sombras
Soltou um rastro e projectou
Numa primavera distante
O sol que te adormecera
No colo.

Ailime
30.03.2013
Imagem Google
(Desconheço o autor)

quarta-feira, setembro 12, 2012

Observo-te


Observo-te nas paredes nuas e frias
Do quarto
Onde nem sequer a luz
Te abraça a solidão.

A tua alma sangra a dor
Pela vida espinhosa
De suor e lágrimas
Que ninguém aliviou.

E no teu rosto sulcado pelo sal
(Por mil prantos que já esqueceste)
Enxergo um sorriso ténue
Envolvido em amor
Que te ilumina o semblante
E me aponta o caminho.

Ailime
12.09.2012
Imagem da Net