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sábado, junho 20, 2026

Passo à tua porta


Passo à tua porta.

Subo, pedra a pedra, os anos

e já não vislumbro

o teu rosto,

que sorria para mim

assomando ao postigo

quando, aos saltos,

corria para o teu colo.

Tu, sempre, de braços estendidos.

A rua já não tem pedras.

Vestiu-se de negro.

À noite os pirilampos

já não a bordejam

como outrora, quando

me alumiavam o caminho.

O progresso passou por ali

e tu, já não estás!


Texto e foto
Emília Simões
20.06.2026
Imagem Google

sábado, agosto 23, 2025

Nos momentos em que o silêncio

Pixabay

Nos momentos em que o silêncio
arde no meu peito,
ouço a voz do vento
que arrasta no tempo
as primeiras folhas de outono
que, sob o meu corpo,
estremecem de tanta secura.

Ainda é cedo, mas o outono
insinua-se e as horas encurtam
os dias, que os ponteiros
dos relógios, já gastos,
vão empurrando com espanto.

O meu desejo é que
as flores continuem a brotar,
nos campos áridos,
junto à minha porta.

Texto
Emília Simões
23.08.2025

sábado, janeiro 04, 2025

Dou passos a medo

 

Dou passos a medo, não sei se me abrem
a porta.
Tinham-me dito que estava fechada,
porque as gripes e o Covid
andam por aí.

Cheguei e bati.
Dizem-me, a senhora está doente, de cama,
e não quer contágios.
(Lá terá as suas razões)!
Quem quer?

Imaginei a solidão e o silêncio
de quem vive dependente,
olhos baços que se fixam uns nos outros,
sem direito a um sorriso, a um aperto de mão, 
a uma palavra encorajadora.

O medo continua a limitar as ações
e o inverno continua frio no coração de
quem nunca viveu entre quatro paredes.

Há que acender fogueiras
para inflamar os corações.

Texto
Emília Simões
04.01.2025
Imagem Net

sábado, outubro 05, 2024

Passo à tua porta

 
José Malhoa


Passo à tua porta, subo o degrau;

a pedra desfaz-se sob os meus passos.

O tempo pesa sobre o meu corpo

tão distante da leveza dos gestos,

quando te procurava e me enlaçavas

nos teus braços tão fortes

que me faziam sentir muito amada.

O tempo tudo traz e tudo leva,

mas como as folhas  caídas

que atapetam o chão no outono,

na primavera brotam revigoradas

 e volto a sonhar outra vez

com a leveza e ternura dos gestos,

 gravados no meu viver,

Texto
Emília Simões
04.10.2024


sábado, junho 15, 2024

Quando passo à tua rua


José Malhoa


Quando passo à tua rua

escuto sempre a voz do rio

que, nas suas margens azuis,

me fala de ti,

como se ainda permanecesses

sentado na soleira da porta

a desenhar arabescos

no teu livro sem páginas.

Um rio e um livro

que me falam de lembranças

como se o hoje fosse ontem

e o ontem fosse hoje.

Na ausência de palavras

ficam nas entrelinhas

os registos dos afetos

nos resquícios das memórias.

Texto
Emília Simões
15.06.2024

terça-feira, fevereiro 01, 2022

As raízes permanecem

Francesco Mangialardi


Passo à tua casa e não te enxergo.

Por dentro as paredes ainda têm alma,

mas a porta fechada,

esconde o sobrado abatido, 

esmagado pelo tempo.

As janelas irradiam luz,

onde o teu olhar perdura,

como se ainda estivesses ali.

O vento assoma

e liberta todas as sombras.

As raízes permanecem

nas memórias que evoco.



Texto
Ailime
01.02.2022


quarta-feira, maio 05, 2021

No limiar da porta ainda há vestígios

José Malhoa

No limiar da porta ainda há vestígios;

a luz detinha-se no teu colo

e abrias as mãos num gesto 

como a querer agarrar o dia

que te fugia por entre os dedos;

recordo a leveza indelével

com que aprisionavas o tempo

quando o pôr do sol

te refulgia no rosto

o desgaste que te prendia

ao silêncio das palavras encobertas.

Era o tempo em que os pássaros

se recolhiam antes do voo.


Texto
Ailime
05.05.2021

terça-feira, janeiro 05, 2021

Memória



Passamos à porta
por vezes nem vemos os degraus
A fechadura há muito
enferrujada
Traz à tona que a vida é
efémera
Por detrás da porta
O mundo sucumbiu ao tempo
O chão cedeu
As paredes ruíram
As janelas fecharam-se
Na velha lareira, apenas
cinzas
Ao fundo, no quintal, os lírios
roxos evocam a tua presença
Mais abaixo o rio segreda-nos
a tua memória.
Eterna...


Texto e foto
Ailime
05.01.2021

domingo, novembro 10, 2019

A porta





Pé ante pé aproximei-me e estendi o olhar
a procurar-te como se ainda ali estivesses.
Acho que me enganei na porta

A casa estava em escombros, as paredes nuas
faltou-me o chão quando transpus a soleira.
Olhei de través as paredes outrora brancas
e não te vi

Tudo está escuro, em silêncio;
apenas escuto o dlim dlão do velho relógio
que parece resistir ao tempo.
O tempo que era liso e claro
e hoje apenas crépido e solitário

Há degraus que apenas se sobem uma vez na vida
para se perderem, num ápice, no abismo das horas



Texto e foto
Ailime
10.11.2019