Mostrar mensagens com a etiqueta pensamento. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta pensamento. Mostrar todas as mensagens

sábado, julho 18, 2026

O beijo

O beijo
Gustav Klimt

O beijo é sagrado
quando sela o amor
que vai esculpindo a vida 
no desbravar de horizontes
fixando os olhares
na mesma direção,

tantas vezes atravessando
desertos áridos
sentindo a areia a escorrer
entre os pés 
e uma sede dorida,
sem oásis à vista.

O beijo é sagrado
quando lê no outro o próprio
pensamento
numa simples chávena de café
esquecida sobre a mesa.

O beijo é sagrado
quando tantas vezes 
é o silêncio que fala.

O beijo é sagrado
 quando desperta o desejo
da construção do poema —

 a aprendizagem da vida,
 o nosso maior poema.

Texto
Emília Simões
18.07.2026

sábado, maio 09, 2026

O tempo


Photohobo


O tempo é implacável!

Não se deixa dominar.

Esgueira-se

por entre os dedos das mãos

como grãos de areia na praia.

Quase sufoca

pela rapidez com que

nos ultrapassa.

Nada o detém.

Oprime o pensamento

e as névoas retiram

brilho ao olhar.

Os caminhos têm mais escolhos

e reaprende-se a caminhar.

Há que dar tempo ao tempo

e fingir alguma indiferença

perante a sua voracidade.

Deixar que a criança que nos habita,

se sobreponha ao tempo

e nos ensine a olhá-lo

com alguma complacência,

com alguma dignidade.

Texto
Emília Simões
09.05.2026


sábado, maio 02, 2026

O silêncio...

Pixabay





Há silêncio quando o sol se põe.
Há silêncio com o espanto
do brotar de uma flor.

Há silêncio na floresta quando as
árvores falam entre si.
Há silêncio quando as aves fazem o ninho.

Há silêncio na frescura das manhãs,
quando a aurora desponta.

Há silêncio quando a terra absorve
a chuva e faz brotar a primavera.

Há silêncio na água que escorre,
plácida, no regato.

Há silêncio nos jardins
quando as flores 
parecem dançar 
na brisa suave do vento.

Há silêncio quando o poeta
não tem inspiração
e percorre o pensamento
sem encontrar a palavra certa.

Há silêncio quando os rios
tocados pelo azul das nuvens
refletem afetos gravados
nas margens submersas.

Há silêncio
se estivermos atentos,
quando o sol brilha
e ilumina a vida.

Texto
Emília Simões
02.05.2026

sábado, março 21, 2026

Olho o céu

Freepik

Olho o céu e observo-te para lá das nuvens.

Uma luz suave infunde em mim a saudade.

Não ouço a tua voz, mas leio as palavras que deixaste,
plenas de amor e humanidade,
que me deixaram profundamente comovida.

Tento respirar e sentir-te na primavera
que não chegaste a completar.

Um travo amargo percorre o meu pensamento,
porque um amigo que se perde é um pedaço de vida
que se esvai, mas cuja memória fica guardada
para sempre, no mais recôndito do ser.

Há uma presença discreta que persiste,
como um eco que o tempo não apaga.

Por vezes detenho-me
em memórias,
breves,
não apenas no céu que observo,
mas naquilo que, sem ruído,
permanece.

Texto 
Emília Simões
21.03.2026

sábado, junho 21, 2025

Abraçar o verão


Na minha quietude
procuro refúgio entre sombras e flores,
sob o sol que arde fortemente
incendiando-me o olhar e o pensamento.
O meu corpo, lento, arrasta-se
como asa ferida, de ave em sobressalto.
A travessia é difícil; a sede seca-me os lábios.
As palavras emudecidas
não localizam o caminho até à fonte.
O suor  molha-me o rosto, todo o corpo.
O silêncio incita-me a resistir
e a abraçar o verão.


Texto e foto
@Emília Simões
21.06.2025




sábado, setembro 21, 2024

O outono que se apressa


As folhas secas espalhadas no chão,
anunciam o outono, que se apressa.
O vento assobia e as folhas, em desalinho,
dançam num vaivém frenético a melodia
do verão, que se despede.
O seu olhar segue o movimento das folhas
e o dourado da tarde ofusca-lhe os sentidos,
que se misturam com o entardecer.
Os dias serão mais curtos, as noites mais longas.
O tempo encurta as horas, os minutos...
Por momentos, o seu pensamento turva-se
numa nostalgia que compunge.
Não pode voltar atrás!
O relógio acelera, mas o seu tempo
será o tempo do porvir das primaveras,
porque em cada estação há sempre
uma flor mágica a ser colhida.

Texto
Emília Simões
19.09.2024
Imagem Google

domingo, dezembro 10, 2023

Sentada na escarpa



Sentada na escarpa

vagueio o olhar pelo horizonte 

que perscruta o entardecer, 

de uma tarde de outono.

Recordo-me da varanda

de onde ao acordar

vislumbrava o amanhecer.

Os dias tão longos,

hoje tão curtos.

A alma imperturbável

recolhe nos recônditos da memória

as cores, que hoje tão distantes,

estão aprisionadas

no pensamento.

Quando a noite murmurar

o frio e a geada do inverno,

a primavera florescerá

nas pontas dos meus dedos.


Texto
Ailime
10.12.2023
Imagem Google


sábado, maio 20, 2023

O grito

Edvard Munch


Chovia e a tarde era apenas o som da chuva;

de vez em quando um trovão ressoava-lhe nas mãos,

que rapidamente tentava esconder

para que não se vissem as chagas

que lhe distorciam os dedos.


Era sempre assim quando o ruído

se entranhava dentro de si, sem voz,

e apenas a chuva lhe enchia o peito

do grito que, abafado, soltava.


Recusara sempre ser apenas um sopro

desfeito pelas gotas da chuva,

a quem o tempo roubara o pensamento.


Texto
Ailime
19.05.2023

sábado, fevereiro 04, 2023

O pensamento imerge no silêncio

Mariusz Lewandowski


O pensamento imerge no silêncio,

e o silêncio alimenta-se do pensamento.

Juntos são inevitáveis na construção da vida,

na construção do poema,

quando as palavras se refugiam

no mais recôndito do ser

o silêncio mergulha no escuro;

mas logo o pensamento o desperta

e ambos entram num bailado

de ideias, sem terem a certeza de nada.

Como os pássaros esvoaçam à deriva

aguardando que a primavera

os deslinde nas suas raízes.


Texto
Ailime
04.02.2023



sábado, agosto 06, 2022

Com seu vestido bordado de cerejas

Imagem Net


Com o seu vestido bordado de cerejas
sob uma imaculada bata branca
viu-se ainda menina 
sentada no banco da escola
onde aprendeu as primeiras letras.

Num pequeno lapso de tempo
todas as memórias
lhe afloraram o pensamento
que vagueava como se 
fossem andorinhas 
a construir os ninhos
no alpendre do recreio.

Tudo lhe era tão próximo
como se ainda ontem entoasse a tabuada
e brincasse à linda falua, que "lá vem lá vem"...

O tempo, implacável, num raio de sol
desfez-lhe, por instantes, o encanto.
Mas não duvidava.
Dali, também podia abraçar o azul do seu rio.


Texto
Ailime
06.08.2022
Imagem Google


segunda-feira, maio 23, 2022

Na escassez das palavras


Maria Caldeira


Na escassez das palavras

a sede no deserto 

como um rasgão na pele

miragem e silêncio

nas poeiras das dunas

a toldar o pensamento

que clama pelo voo das aves

para dissipar as névoas

Há vazios e grãos de poeira

a marejar os olhos

nos silêncios da tarde

que, em vão, suplicam

que o oásis floresça.



Texto
Ailime
23.05.2022


quarta-feira, agosto 22, 2018

Palavras à solta


Na candura da tua voz
as melodias soltam-se
na liberdade dos pássaros.
*
O silêncio das estrelas
é um caminho que percorre
as sombras de Marte.
*
Nas linhas do horizonte
os meus olhos incendeiam-se
nas chispas do pôr-do-sol.
*
É à noite que vigio,
nas sombras que me envolvem,
o luar que sorri ao gesto.
*
A palavra é a poesia
com que o poeta transmuta
o pensamento da alma.



Textos
Ailime
22.08.2018
Imagem Google