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sábado, abril 29, 2023

As casas



Nem sempre as casas têm claridade.

As heras e os musgos retiraram-lhes

o brilho da genuinidade

e fazem-nas mergulhar na escuridão

que o tempo há muito traçou.

Através das portas e janelas,

em escombros,

não ouço o crepitar do lume,

nem sinto o aroma das flores, 

agora murchas sobre a mesa

da sala de entrada.

Desço e subo degraus,

mas o  meu olhar nada vislumbra

e no meio das sombras,

de ontem,

apenas o vazio me fala de vida.

 

Texto 
Ailime
28.04.2023
Imagem Google

segunda-feira, abril 11, 2022

Para colher um nenúfar

Claude Monet
 


Descia os degraus que
me levavam ao rio
onde cresciam nenúfares
num lago que improvisei.
Apenas o marulho das águas
me impedia de caminhar nas margens
ora pintadas de azul, 
ora pintadas de verde.
O sol debruçava-se sobre as águas
e a claridade iluminava-me como fogo,
como se ateasse uma fogueira.
O céu matizado de nuvens, tingidas de púrpura,
era o espaço dileto dos pássaros
que, em voos rasantes, anunciavam o entardecer.
O sol ia baixando no horizonte
até que o esplendor da noite
fulgisse na linha do infinito.
Descalça, sobre os seixos, contornava o lago
estendendo as mãos, incólumes, 
para colher um nenúfar.

Texto
Ailime
04.04.2022

 

terça-feira, agosto 10, 2021

A velha varanda



A  velha varanda avança pela planície

que entra pelo rio adentro e evoca o tempo

dos dias claros e das nuvens azuis

que te circundavam o rosto e o olhar

onde agora repousa a solidão.


Os degraus  ladeados por glicínias

evocam os teu passos ausentes

onde outrora sorriam  as andorinhas.


Até os pássaros partiram

deixando os ninhos vazios

sob o alpendre da casa

de paredes brancas e nuas

que retêm todos os gestos

e as palavras que dissemos.


Texto e foto
Ailime
10.08.2021
Imagem Google




terça-feira, julho 06, 2021

Deambulo pelas ruas



Deambulo pelas ruas que me contornam

como se não houvesse saída

e nada sei sobre o tempo;

apenas as flores me falam de futuro,

de manhãs claras,

de jasmim, buganvílias

e amores perfeitos.


A terra molhada tem a fragância do outono

o esplendor  de um pôr do sol

a beleza do jaspe.


Um olhar  breve  e furtivo 

insinua-me levemente

que nos degraus das escarpas

ainda há ecos por desvendar.


Texto
Ailime
06.07.2021
Imagem Google



terça-feira, janeiro 05, 2021

Memória



Passamos à porta
por vezes nem vemos os degraus
A fechadura há muito
enferrujada
Traz à tona que a vida é
efémera
Por detrás da porta
O mundo sucumbiu ao tempo
O chão cedeu
As paredes ruíram
As janelas fecharam-se
Na velha lareira, apenas
cinzas
Ao fundo, no quintal, os lírios
roxos evocam a tua presença
Mais abaixo o rio segreda-nos
a tua memória.
Eterna...


Texto e foto
Ailime
05.01.2021

domingo, novembro 10, 2019

A porta





Pé ante pé aproximei-me e estendi o olhar
a procurar-te como se ainda ali estivesses.
Acho que me enganei na porta

A casa estava em escombros, as paredes nuas
faltou-me o chão quando transpus a soleira.
Olhei de través as paredes outrora brancas
e não te vi

Tudo está escuro, em silêncio;
apenas escuto o dlim dlão do velho relógio
que parece resistir ao tempo.
O tempo que era liso e claro
e hoje apenas crépido e solitário

Há degraus que apenas se sobem uma vez na vida
para se perderem, num ápice, no abismo das horas



Texto e foto
Ailime
10.11.2019

quarta-feira, maio 08, 2019

Nos degraus da casa


Nos degraus da casa 
em escombros 
ouço-te em cada passo 
como se o passado 
se detivesse nas paredes 
caiadas de cinza
onde as andorinhas 
ainda fazem os ninhos. 

À noite os pirilampos 
cintilavam como estrelas 
a bordejar os caminhos 
desfazendo as trevas 
os fantasmas 
as sombras  
que te sobrevoavam  
na escuridão  
que preenchia o silêncio 
ainda mais espesso que a noite. 

Na fugacidade do tempo 
ainda hoje não sei distinguir a luz 
da escuridão. 


Ailime
08.05.2019
Imagem Google