anunciam o outono, que se apressa.
O vento assobia e as folhas, em desalinho,
dançam num vaivém frenético a melodia
do verão, que se despede.
O seu olhar segue o movimento das folhas
e o dourado da tarde ofusca-lhe os sentidos,
«As palavras pesam. Um texto nunca diz a dor das pequenas coisas» Graça Pires in Poemas escolhidos
As tarefas rotineiras são cansativas,
como são cansativos os dias sem luz.
Por vezes as palavras colam-se à língua
e não desatam os versos que
que habitam o silêncio
no mais recôndito de nós.
Torna-se necessário novas primaveras
que nos devolvam os pássaros
com seus cantos maviosos
que nos ensinem outras canções.
Há que redescobrir silêncios
que nos ajudem a atravessar
novos caminhos, novas pontes,
novos jardins, com flores sem nome.
Há que soltar as palavras
nos rodopios do vento;
há que reiventar as canções
nas escarpas do amor.
Há ainda o cordão umbilical
que nos une no tempo
e nos ajuda a sorrir e a contar histórias.
Por vezes tudo me parece tão estranho.
O tempo andou depressa demais
e o rio já não tem o brilho
das primaveras longínquas.
As lezírias brilhavam ao sol
e os barcos carregados de peixe,
eram leves como o amor,
que alimentava o suor das gentes.
Hoje há o vazio dos que se foram
e as recordações que restam
no silêncio dos ecos
das palavras adormecidas.
Pé ante pé percorro a seara por maturar;
procuro as papoilas vermelhas
qual pôr do sol a raiar o chão.
Mil e uma cores abraçam-me o peito
e, por momentos, agarro outra flor e outra
e deixo para trás o vento
que teima em rodopiar-me nas mãos
o fogo intenso das primaveras,
que o tempo percorre no meu olhar.
Aqui e ali ouço o canto dos pássaros
e um presságio de esperança
acalenta-me a alma.
Na encosta as margaridas amarelas ainda me sorriem;
como são belas no seu esvoaçar
como as tranças despenteadas da minha infância
que resplandeciam ao encanto dourado do sol .
Atravesso a distância no tempo
e as flores ainda permanecem intactas
como se esperassem por mim,
depois de tantas primaveras.
Observo-as com a mesma atenção
como se fossem joias raras
e a minha alegria fala com elas.
Elas não me respondem
mas eu entendo-as nos seus gestos
quando rodopiam ao vento,
num bailado leve e tão próximo.
Há atalhos que percorremos
e nem sempre reconhecemos quem passa ao nosso lado
indiferente, como se o mundo estivesse vazio
e não houvesse primaveras
a enfeitar os caminhos e aves a cantar
nos galhos das árvores que nos sorriem.
Um mundo moribundo que não destrinça
uma tarde de sol num dia de tempestade
e o arco-íris a rasgar uma estrada colorida no céu,
numa aliança de amor.