O silêncio é uma criança a brincar.
O silêncio é gritar o amor sem dizer nada.
O silêncio é amar-te, assim, sem medida.
«As palavras pesam. Um texto nunca diz a dor das pequenas coisas» Graça Pires in Poemas escolhidos
O silêncio é uma criança a brincar.
O silêncio é gritar o amor sem dizer nada.
O silêncio é amar-te, assim, sem medida.
Os meus olhos vagueiam perdidos
na penumbra dos dias em que
a claridade se ausenta
de mentes que não enxergam horizontes
de justiça, lealdade e amor.
Nas águas do mar embrenho-me
para dissimular o sal
que me escorre do rosto,
numa mistura límpida,
purificando os ruídos que me perturbam
os sentidos e a razão.
Um silêncio inquietante
roça-me os passos
e a voz atrofia-se
num gesto desumano.
Quando irromperá a luz
no coração de quem ignora
os caminhos da paz?
Caminho sem destino…
Pelas faces escorre-me o sal
das tuas dores,
quando amanheces
na tua cama
de água e lama,
no vazio que te escava,
a tormenta no peito dorido,
pelo frio que te trespassa a alma
e o coração ferido,
pela solidão que te rodeia
como uma ilha
a flutuar no deserto.
Sinto o sol aproximar-se.
A força a reerguer-te.
Amanhã terás um mundo novo
que te abraçará com a força
da esperança e do amor.
Na sede que se fez alvorada
ainda ressoa o canto dos pássaros
que, em grande alvoroço,
sobrevoavam as cidades
clamando por justiça e amor.
Os ecos eram tão vigorosos,
que estradas se rasgaram de lés a lés
e todos avançavam no mesmo sentido,
a espalhar a notícia, que pairava no ar.
Foi um dia único na vida de um país
cinzento, triste, em que a primavera
se celebrava apenas nos campos.
Foi plena a festa que, nesse dia,
fez germinar nas cidades
campos de flores vermelhas.
As minhas palavras estremecem.
Escondo-as num coral em silêncio.
Não quero que ninguém as leia,
ouça ou profane.
O vento, por vezes, distorce
o sentir e a imaginação dos poetas,
que se arrastam nas penas,
que os pássaros vão deixando aqui e ali.
Na vertigem do tempo
rodopio segura de que
apenas as palavras amor e paz,
podem salvar os pactos.
Ainda será tempo de salvar a Terra
se o Homem não ambicionar tesouros
se o poder não for a sua sede
mas o amor a sua ambição.
Ainda será tempo de salvar a Terra
se os vilões que fomentam a guerra
e fazem alastrar a fome e a morte
semearem campos de trigo
e plantarem sementes de paz.
Ainda será tempo de salvar a Terra
se o egoísmo der lugar ao desapego
e o Homem aprender a viver
com modéstia e sentido de justiça.
Ainda será tempo de salvar a Terra
se o Homem beber das águas das fontes
e ficar saciado com o ar puro, a beleza e a luz
que emanam deste ainda tão fascinante Planeta.
Ainda será tempo de salvar a Terra?
Debruçada na tarde
do meu silêncio
escuto a minha voz interior
que me fala de amor
de paz
de justiça
de um mundo melhor.
Mas desperto
e à minha volta
ouço a voz do mundo
que me fala de guerra
de inequidade
de desatino
de ódio.
Dos meus olhos
deslizam
gotas de orvalho.
que me rasgam a pele.
Para minha mãe
Caminho sem sentido tentando abstrair-me dos trajetos, que tantas vezes trilhámos juntas!
O que mais apreciava eram os ribeiros de águas límpidas, onde mergulhavas as mãos e o coração.
Nas águas geladas brilhando ao sol, quente de inverno, a tua silhueta resplandecia de emoção e amor.
Ainda me recordo das laranjas que caíam junto à margem do ribeiro grande e que me deliciavam.
Sempre gostei de laranjas. Hoje o ribeiro está seco e não sei se ainda existem laranjeiras no velho pomar.
Mas sabes uma coisa? Do que tenho mesmo saudades é das filhoses que fazias à lareira no tacho grande, na noite de Natal!
Quando passo à tua porta, parece que ainda sinto o aroma da canela e do açúcar com que as polvilhavas.
Como eram boas as tuas filhoses! Nunca mais comi nenhuma igual. Hoje há tantos, tantos sabores, que me confundem.
Paro um pouco e apenas desertos se estendem à minha frente e uma neblina cai sobre o rio.
O rio, o rio das minhas lembranças, que tudo guarda e tudo revela.
Desejo a todos um Feliz Ano Novo com saúde e paz!
É dezembro, quase Natal!
O frio alastra nas cidades,
vilas e aldeias.....
Azáfama costumeira
onde impera o consumismo
num frenesim desmedido,
torna dezembro ainda mais frio
para os que dormem ao relento,
para os que caem por terra
nos cenários de guerra.
Tanta fome no mundo,
tanta sede de afetos,
tanto choro de crianças nuas
por um destino
que lhes assassinou os pais.
Tanta prepotência e ganância,
que violam todos os direitos humanos.
É urgente a paz, a fraternidade,
e o calor dos afetos.
É urgente o Amor!
É urgente o Natal!
Desejo a todos santo e feliz Natal!
Esperança é palavra fecunda
no coração de quem anseia
uma vida nova de amor.
para um campo, fértil, que germine.
Como estrelas luzentes
em noite estrelada,
guiam os seus passos
na vertigem
de algo maior encontrar.
Em silêncio ou a cantar
ei-los que chegam
a um outro mundo,
que pretendem abraçar.
Mas num pequeno galho
a ave constrói o seu ninho
e a poesia nasce.
A natureza está em festa.
Borboletas esvoaçam,
as flores brilham ao sol,
a terra parece sorrir,
tudo se enquadra
numa bela expressão de amor.
O poema não precisa de palavras,
apenas um pouco de silêncio
na contemplação
da natureza,
até confundir-se com ela.
Há ainda o cordão umbilical
que nos une no tempo
e nos ajuda a sorrir e a contar histórias.
Por vezes tudo me parece tão estranho.
O tempo andou depressa demais
e o rio já não tem o brilho
das primaveras longínquas.
As lezírias brilhavam ao sol
e os barcos carregados de peixe,
eram leves como o amor,
que alimentava o suor das gentes.
Hoje há o vazio dos que se foram
e as recordações que restam
no silêncio dos ecos
das palavras adormecidas.
que me fala de amor;
não de um amor obsessivo,
mas de um amor plácido
que me tranquiliza, quando
a minha voz clama por ti
e me respondes num sussurro
a tua presença em meus olhos
que, em silêncio,
ecoam nos teus uma imagem
perene de claridade,
como o voo livre dos pássaros.