O silêncio é uma criança a brincar.
O silêncio é gritar o amor sem dizer nada.
O silêncio é amar-te, assim, sem medida.
«As palavras pesam. Um texto nunca diz a dor das pequenas coisas» Graça Pires in Poemas escolhidos
O silêncio é uma criança a brincar.
O silêncio é gritar o amor sem dizer nada.
O silêncio é amar-te, assim, sem medida.
Neste mar imenso mergulho o meu olhar,
a minha sede, os meus sonhos, o meu silêncio.
A brisa marinha envolve-me, cálida, mas serena.
Sentada numa escarpa,
atenta ao vaivém das ondas
que, em espirais, rodopiam agitadas,
como numa dança, numa linguagem,
que desconheço,
sinto como que um convite a meditar,
nas minhas escolhas, nas minhas imperfeições.
No horizonte, o sol já há muito adormeceu.
Fico mais uns instantes,
até que um pássaro voa rasgando o céu nublado,
deixando-me só, a cismar.
Neste momento renuncio ao silêncio.
Apenas a voz do mar continua
entranhada em mim.
Na imensidão do silêncio profundo,
que me paralisa o pensamento
e me impede de ver o dia claro,
ouço a tua voz
que me liberta desta penumbra
e auxilia na libertação das palavras,
presas dentro de mim.
Um pássaro levanta voo
e corta o horizonte com um sopro,
anunciando a chegada do amanhecer.
Nos descampados da vida
entre orvalhos sobre as pedras
e a terra sôfrega,
imagino o tamanho do mundo.
Saltito de pedra em pedra
e os meus olhos semiabertos
tentam enxergar o longe e o perto.
Tudo me parece distante e confuso.
Um pássaro no seu voo matinal
anuncia-me o conforto do ninho.
Ainda é cedo para que a luz
me revele, nas sombras, a tua grandeza.
Para minha mãe
Na solidão do vento encontro-me com o amanhã.
Os meus braços abrem-se como ramos de árvores
a baloiçarem-se num ritmo frenético
como se o outono surgisse no meio das folhas
que vão caindo amarelando o chão.
Nos muros já não brilham as glórias da manhã
que, ressequidas, apenas das hastes a lembrança
dos eflúvios que aromatizavam o meu ser
que agora preenchem um pacto de silêncio.
Não distingo nas sombras do vento
a claridade dos dias e os sons do alvorecer.
Apenas um pássaro veloz, indiferente à minha sede,
traça no céu as cores da primavera.