sábado, fevereiro 28, 2026

Não sei medir o tempo por gestos

  

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Não sei medir o tempo por gestos.

As andorinhas voltam na primavera,
fazem os ninhos sempre no mesmo lugar
e espanto-me com a sua precisão.

Alçam voo
e regressam,
fiéis à rota invisível.

Não sei medir o tempo por palavras
que guardo nos silêncios,
quando as manhãs despertam
para o ciclo da vida.

Não sei medir o tempo por sóis
que dançam nas sombras dos abismos
e ressoam nos ecos das escarpas.

Sei medir o tempo apenas quando o relento
da madrugada
me toca o rosto
e respiro.

Texto 
Emília Simões
2021
Revisto

sábado, fevereiro 21, 2026

Tão longe, as manhãs

 

Juan Francisco Gonzalez


Tão longe,
as manhãs
na casa
onde às vezes
regresso.

Tudo repousa
como sempre,
mas tinha outra grandeza...
Uma vastidão
que o tempo levou.

O rio corre sereno
lá em baixo,
levando consigo
os seixos que brilhavam ao sol,
e o meu saltitar, leve,
em torno do moinho
e o riso
que não cabem mais em mim.

A lezíria era
uma sinfonia de cores;
as águas mais verdes,
as nuvens mais azuis,
os pássaros cantavam
como se o mundo inteiro os ouvisse,
e o ar tremia
com a promessa do instante.

Pisavas o chão
com leveza,
sem saber que cada passo
se tornaria vento,
cada gesto, sombra suave
no tempo.

Agora,
no resplendor da manhã
cada vez mais distante,
debruço o olhar
sobre a vastidão da ausência,
onde o que fui
se mistura
com o que não posso tocar,
e a saudade respira,
leve e infinita,
como luz filtrada
pelas nuvens.

Texto (revisto)
Emília Simões
Out/2021 


sexta-feira, fevereiro 13, 2026

O pensamento imerge no silêncio

Mariusz Lewandowski



O pensamento imerge no silêncio,

e o silêncio alimenta-se do pensamento.

Juntos são inevitáveis na construção da vida,

na criação do poema.

Quando as palavras se refugiam

no mais recôndito do ser,

o silêncio mergulha no escuro;

mas logo o pensamento o desperta

e ambos entram num bailado

de ideias, sem terem a certeza de nada;

como pássaros que esvoaçam à deriva,

aguardando que a primavera

deslinde as suas raízes.


Texto (revisto)
Emília Simões
04.02.2023

sexta-feira, fevereiro 06, 2026

Caminho sem destino...


 

Caminho sem destino…

Pelas faces escorre-me o sal
das tuas dores,

quando amanheces
na tua cama
de água e lama,

no vazio que te escava,
a tormenta no peito dorido,
pelo frio que te trespassa a alma
e o coração ferido,

pela solidão que te rodeia
como uma ilha
a flutuar no deserto.

Sinto o sol aproximar-se.
A força a reerguer-te.

Amanhã terás um mundo novo
que te abraçará com a força
da esperança e do amor.


Texto e foto
Emília Simões
06.02.2026