ainda disforme.
Nos dedos submersos
e distorcidos
navegaram ondas e marés,
na erosão perfeita da arte.
A sua voz, atravessou a noite
num grito heroico.
«As palavras pesam. Um texto nunca diz a dor das pequenas coisas» Graça Pires in Poemas escolhidos
Nas margens do meu rio
há uma enorme angústia,
uma sede intensa.
Tudo arde, até o leito do rio
emana labaredas
que queimam os peixes.
Do teu rosto
soltam-se gotas de suor
e o sal cava-te rugas profundas
nas entranhas,
que choram
o calor da terra, do mundo.
Um deserto aproxima-se.
Perdi a noção do meu espaço.
Tudo se transforma.
Fico imóvel como pedra.
Ao meu redor apenas silêncio
e o chão em brasa.
Neste mar imenso mergulho o meu olhar,
a minha sede, os meus sonhos, o meu silêncio.
A brisa marinha envolve-me, cálida, mas serena.
Sentada numa escarpa,
atenta ao vaivém das ondas
que, em espirais, rodopiam agitadas,
como numa dança, numa linguagem,
que desconheço,
sinto como que um convite a meditar,
nas minhas escolhas, nas minhas imperfeições.
No horizonte, o sol já há muito adormeceu.
Fico mais uns instantes,
até que um pássaro voa rasgando o céu nublado,
deixando-me só, a cismar.
Neste momento renuncio ao silêncio.
Apenas a voz do mar continua
entranhada em mim.
Foto: Hosny Salah - Pixabay
Na imensidão do silêncio profundo,
que me paralisa o pensamento
e me impede de ver o dia claro,
ouço a tua voz
que me liberta desta penumbra
e auxilia na libertação das palavras,
presas dentro de mim.
Um pássaro levanta voo
e corta o horizonte com um sopro,
anunciando a chegada do amanhecer.
Hoje não escrevo.
Não me apetece.
Passeio ao ar livre e fresco
e deixo que as palavras
se escoem no tempo
e se enleiem nas folhas
e no canto dos pássaros.
À margem de mim,
à margem dos meus sentidos,
dos meus sonhos.
Nas margens do meu rio.
Madrugada, noite escura,
um trilho, um desvio,
uma detonação.
Dois pássaros tombam
na noite em chamas,
ao raiar do dia
sem luz, na penumbra
de um porvir extinto.
Entre as cinzas
o vazio,
a incredibilidade,
a dor, o pranto.
O mundo desabou.
No ventre materno
o coração geme de dor.