A origem da vida
os frutos maduros
«As palavras pesam. Um texto nunca diz a dor das pequenas coisas» Graça Pires in Poemas escolhidos
A origem da vida
os frutos maduros
Nos descampados da vida
entre orvalhos sobre as pedras
e a terra sôfrega,
imagino o tamanho do mundo.
Saltito de pedra em pedra
e os meus olhos semiabertos
tentam enxergar o longe e o perto.
Tudo me parece distante e confuso.
Um pássaro no seu voo matinal
anuncia-me o conforto do ninho.
Ainda é cedo para que a luz
me revele, nas sombras, a tua grandeza.
Debruçada na tarde
do meu silêncio
escuto a minha voz interior
que me fala de amor
de paz
de justiça
de um mundo melhor.
Mas desperto
e à minha volta
ouço a voz do mundo
que me fala de guerra
de inequidade
de desatino
de ódio.
Dos meus olhos
deslizam
gotas de orvalho.
que me rasgam a pele.
Sentada na escarpa observa o mar
que, num doce vaivém, beija as areias da praia.
Forte neblina envolve todo o cenário
duma estranha tarde de verão.
Os barcos já há muito que partiram
deixando os rastos no horizonte.
Iam cheios de ilusões e esperanças,
mas o mar anda sufocado
por detritos incontroláveis,
que estonteiam a vida marinha.
Regressarão mais cedo,
vazios os sonhos dos pescadores
que desesperam.
Olha em seu redor.
A praia está deserta.
Chove, no mar das ilusões
e as gaivotas partem em debandada.
José Malhoa
Quando passo à tua rua
escuto sempre a voz do rio
que, nas suas margens azuis,
me fala de ti,
como se ainda permanecesses
sentado na soleira da porta
a desenhar arabescos
no teu livro sem páginas.
Um rio e um livro
que me falam de lembranças
como se o hoje fosse ontem
e o ontem fosse hoje.
Na ausência de palavras
ficam nas entrelinhas
os registos dos afetos
nos resquícios das memórias.