sábado, fevereiro 25, 2023

Na solidão do deserto


Na solidão do deserto

a sede, a fome, a tentação.

Nada te demove  do silêncio

que se abeirou das pedras

onde te sentas exausto.

A primavera aproxima-se 

e as flores abrir-se-ão

para te renovar a esperança

dos dias em que a noite te envolve.



Texto e foto
Ailime
25.02.2023



sábado, fevereiro 18, 2023

Vislumbro o meu rio


Vislumbro o meu rio que, plácido,
percorre no seu leito junto às margens
as memórias que guardo
como se  fossem joias raras
refletidas nos seixos, que brilham ao sol.
Tudo tão longínquo e tão próximo,
como se a lezíria verdejante
me devolvesse o teu olhar refletido
como se fora ontem primavera
e os pássaros me oferecessem
o teu sorriso num broto florido.
O rio imperturbável não olha para trás
e apenas o silêncio me fala.


Texto e foto
Ailime
18.02.2023

sábado, fevereiro 11, 2023

Pela berma da estrada


Rachel Walker


Pela berma da estrada

parecias perdida

meio alucinada

qual ave ferida.  

Na noite, que chegou breve,

estendeste-me a mão

e recusei o gesto

por cobardia.

Hoje seria diferente?

Fiquei confusa

numa amálgama de sentimentos

que hoje ainda me ferem.

No silêncio da noite

é quando a luz 

se torna premente.


Texto
Ailime
11.02.2023

sábado, fevereiro 04, 2023

O pensamento imerge no silêncio

Mariusz Lewandowski


O pensamento imerge no silêncio,

e o silêncio alimenta-se do pensamento.

Juntos são inevitáveis na construção da vida,

na construção do poema,

quando as palavras se refugiam

no mais recôndito do ser

o silêncio mergulha no escuro;

mas logo o pensamento o desperta

e ambos entram num bailado

de ideias, sem terem a certeza de nada.

Como os pássaros esvoaçam à deriva

aguardando que a primavera

os deslinde nas suas raízes.


Texto
Ailime
04.02.2023



sábado, janeiro 28, 2023

Na nudez das árvores


Na nudez das árvores

sobre os galhos secos

os pássaros sustêm o canto.


Asas cerradas

na espera do voo

que o frio retrai

e o silêncio guarda.


É inverno.

O frio açoita os mais frágeis

que, como os pássaros,

não têm ninho.

Apenas a noite...



Texto e foto
Ailime
28.01.2023



sábado, janeiro 21, 2023

O mar

                                                
            


Observo o mar sempre com espanto;

quando escuto o seu rugido

nas noites de tempestade 

ou quando suavemente beija

as areias douradas duma praia qualquer,

logo ao nascer do sol.


O mar é irrequieto e  imprevisível

e tanto arrasta ondas brancas como neve

como cascos de navios afundados.


O mar é alegria e brisa

é força e leveza

que me envolve como um véu

quando fito todo o seu esplendor

nos inaudíveis silêncios.


Texto e foto
Ailime
21.01.2023



sábado, janeiro 14, 2023

Às vezes regresso à casa onde nasci


Às vezes regresso à casa onde nasci
e não me reconheço.
Tal o abismo que o tempo marcou
nas minhas mãos, nos meus dedos,
na minha boca, no meu olhar.
Até os meus passos parecem perdidos
nas escadas de pedra preta, agora com
musgos escorregadios.
Não fora o tempo das chuvas
e o vento agreste que as cobrem de folhas
molhadas, pela ausência de tudo.
Na neblina que cobre o rio vislumbro
uma pequena luz.
Talvez um raio de sol
a indicar-me um novo caminho,
uma nova estação
no adejar dos pássaros.

Texto 
Ailime
13.01.2023
Imagem Google

sábado, janeiro 07, 2023

A luz do farol


Sublimo as palavras que proferes

sob o esplendor do luar quando anoitece

quando dizes não ao silêncio

e a tua voz não se cala,

quando ao relento tanta gente

se ajoelha dianta dos barcos, vazios,

no ressurgimento das marés.


Os pássaros em alegre revoada

poisam-te suavemente nas mãos

que, erguidas, como numa prece

apelam aos deuses um retorno breve.


Na linha do horizonte, a luz do farol

indicia uma nova faina, um longo dia,

que te incendiará com um novo fôlego,

na submissão da tua voz dolente. 



Texto 
Ailime
28.12.2022
Imagem Google

quinta-feira, dezembro 22, 2022

É Natal!

 



Lá fora olhares e  faces encovadas
deixam escorrer gotas de orvalho
geladas pela indiferença de quem passa.

As luzes, o alarido, a festa das compras
(de última hora num corre-corre desenfreado).
A noite  calada, fria, impiedosa
dos corações solitários, aproxima-se.

Uma mão estendida num olhar côncavo
(onde cabe toda uma vida apática de rastos)
perde-se sob a arcada recôndita e sórdida do cais.

Na fogueira que me arde no peito
um aperto sangra-me a razão.
É hora de acordar e abraçar o meu irmão.


Ao longe, uma luz brilha.
Na gruta fria, envolto em trapos
eclode o Amor,
que abarca (abraça)  todos.

Feliz Natal e um bom Ano Novo.

Grata por todas as vossas visitas ao longo do ano.

Abraços,
Ailime



Texto
Ailime
20.12.2015
Imagens Google

domingo, dezembro 18, 2022

O sol tarda, mas já se anuncia.



Percorro os caminhos de outrora

cobertos de geada.

Nos escombros dos muros o musgo,

onde escorre a fria madrugada

que acolhe os pássaros feridos 

de mais uma noite ao relento.

Sobre o rio, neblinas

vertem o orvalho da manhã,

que cava no teu rosto

as cicatrizes da noite,

que te embalam no silêncio

onde mergulhas a voz.

O sol tarda, mas já se anuncia

na cor purpúrea do amanhecer.


Texto 
Ailime
10.12.2022
Imagem Google