sábado, dezembro 21, 2019

É Natal



Lá fora olhares e  faces encovadas
deixam escorrer gotas de orvalho
geladas pela indiferença de quem passa.

As luzes, o alarido, a festa das compras
(de última hora num corre-corre desenfreado).
A noite  calada, fria, impiedosa
dos corações solitários aproxima-se.

Uma mão estendida num olhar côncavo
(onde cabe toda uma vida apática de rastos)
perde-se sob a arcada recôndita e sórdida do cais.

Na fogueira que me arde no peito
um aperto sangra-me a razão.
É hora de acordar e abraçar o meu irmão.


Ao longe, uma luz brilha.
Na gruta fria, envolto em trapos
eclode o Amor,
que abarca (abraça)  todos.
Imagem relacionada
Feliz Natal e um bom Ano Novo.
Abraços,
Ailime


Texto
Ailime
20.12.2015
Imagens Google



sexta-feira, novembro 29, 2019

No tempo dos frutos maduros

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Cecilia K Yoshida

No tempo dos frutos maduros
colocavas sobre a mesa o teu suor.
O teu rosto sorria e as uvas
de tão maduras e doces,
como o mel de flores silvestres,
resplandeciam-te no olhar o espanto
de quem sabe as cores do plantio.

Da tua boca vermelha,
como romãs,
escorria a beleza das rosas
que te caíam no regaço
atravessando a noite
que te estendia as mãos
num silêncio imperceptível.   

Texto
Ailime
28.11.2019                                                 

quinta-feira, novembro 21, 2019

Poema de Graça Pires

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José Malhoa

Um tumulto de uvas prematuras ecoa pelas vinhas
profanadas por sebes de adubo na fenda dos ventos.
No início do outono o cheiro das vindimas
perturbará o sono das crianças.
E o vinho quebrará todos os copos
para que o não bebam os homens
que habitam os espelhos da culpa.

Graça Pires

Do livro Uma Vara de Medir O Sol
Pag. 36

domingo, novembro 10, 2019

A porta





Pé ante pé aproximei-me e estendi o olhar
a procurar-te como se ainda ali estivesses.
Acho que me enganei na porta

A casa estava em escombros, as paredes nuas
faltou-me o chão quando transpus a soleira.
Olhei de través as paredes outrora brancas
e não te vi

Tudo está escuro, em silêncio;
apenas escuto o dlim dlão do velho relógio
que parece resistir ao tempo.
O tempo que era liso e claro
e hoje apenas crépido e solitário

Há degraus que apenas se sobem uma vez na vida
para se perderem, num ápice, no abismo das horas



Texto e foto
Ailime
10.11.2019

quarta-feira, novembro 06, 2019

As rosas (Poema de Sophia)

Hoje Sophia de Mello Breyner Adresen completaria 100 anos. 

A minha humilde homenagem


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As Rosas


Quando à noite desfolho e trinco as rosas
É como se prendesse entre os meus dentes
Todo o luar das noites transparentes,
Todo o fulgor das tardes luminosas,
O vento bailador das Primaveras,
A doçura amarga dos poentes,
E a exaltação de todas as esperas.

Sophia de Mello Breyner Andresen

terça-feira, outubro 29, 2019

A claridade dos dias


Nas horas baças em que o vácuo me cinge os sentidos
procuro-te como se ainda não tivesses aqui estado,
como se uma névoa nos interditasse os olhares
que povoam os nossos sentires corroídos pela ilusão
de quem ainda procura no horizonte um sinal de porvir.

Se nas sombras do outono, as folhas tombam frágeis 
e amarelecidas, para ressurgirem plenas de viço na primavera
também na escureza do inverno irromperá a claridade dos dias.




Texto
Ailime
29.10.2019
Imagem
Google

quarta-feira, outubro 16, 2019

No silêncio do outono


No silêncio do outono emergem sentidos
como se a minha voz se calasse
por imposição das sombras
O vento arrasta as folhas
que gravitam como sóis
em rotações desgovernadas
no asfalto dos dias,
que esculpe nas horas
vestígios do entardecer.

Texto e foto
Ailime
16.10.2019

terça-feira, outubro 01, 2019

Na sombra da folha




Na sombra da folha que esmaece no chão
o outono esconde-se envergonhado
Não fora a luz que resiste ao sol-pôr
adormeceria no silêncio da noite
como que a retardar o momento
da colisão com as estrelas.


Texto e foto
 Ailime
01.10.2019

quarta-feira, setembro 18, 2019

Nos olhos da noite também há luz.



Nos olhos da noite
sentia o silêncio mudo
que te escavava no rosto
a angústia, que te dilacerava
no peito a ausência da luz.

Dias tortuosos, sombras
que te trespassavam o olhar
pálido como paredes brancas
onde o luar se queda
em noite de quarto crescente.

Mas nem sempre o inverno
obscurece os mares que navegas.
Timidamente uma vigia abriu-se
e de rompante dissiparam-se as trevas.
A luz reacendeu-te no olhar, a vida
que na praia te aguardava a sorrir.

É que nos olhos da noite também há luz.



Texto e foto
Ailime
13.09.2016
(Reedição revista)

quinta-feira, setembro 05, 2019

Nas asas do silêncio



Nas asas do silêncio,
na meditação,
com que sulcas os teus passos
tão leves como asas de borboletas
pé ante pé
elevas-te
com simplicidade e humildade
aos olhos de Deus.


Texto
Ailime
A Tolentino de Mendonça
05.09.2019
Imagem Google