terça-feira, março 27, 2018

É ainda inverno





É ainda inverno nas árvores desnudas
que os temporais têm açoitado
como se fossem barcos à deriva
em mares agitados por ventos enfurecidos.
E o meu corpo tremente de frio
como se a neve, a escorrer da montanha,
o envolvesse em brancura gélida
procura avidamente o calor do sol
(ainda tímido em manhãs precoces)
para o envolver em suave enlace
como amantes ávidos de desejos.


Texto e foto
Ailime
27.03.2018

sábado, março 17, 2018

Contemplação


O espanto trespassa-me o olhar
quando o sol incendeia  o horizonte
e alastra sobre  o universo
o  silêncio  da tarde.

Como num espelho,
o  firmamento afaga as brumas
que povoam o meu sentir
e deixo que o paraíso
me envolva como águas,
         cristalinas,
a brotar da nascente.

Quedo-me num mutismo
contemplativo
que  me confunde e desconcerta.

Apenas uma brisa suave
me reconcilia na alma
o sentido das palavras.


Texto (Reedição)
Ailime
(29.06.2016)
Foto de Neca retirada do Blogue
Céus e Palavras de Chica

quarta-feira, fevereiro 28, 2018

Não fora a chuva

Foto de  Alexandre  Mansur



Não fora a chuva
que livremente beija o solo
os meus olhos estariam secos
como as estepes ou as planícies
onde o orvalho não cabe.
Uma sede intensa
percorre-me os lábios
e adentra-se na alma
como se buscasse
um poço de águas profundas
livres e transparentes
como as gotas da chuva.


Texto 
Ailime
Imagem Google
28.02.2018


terça-feira, fevereiro 20, 2018

Não quis rasgar o tempo


Não quis rasgar o tempo
nem contornar os rios
que me saíam do ventre.
Deixei apenas que dos meus lábios
as palavras se desatassem
como aves em pleno voo
no silêncio das manhãs.


(Reedição)

Texto
Ailime
Imagem Google
29.01.2017

terça-feira, fevereiro 06, 2018

Hoje apenas o vento

Pintura de Zoltan Szabo

Hoje apenas o vento
vertiginoso
te sussurra ao ouvido
no silêncio cortante do frio
a canção do inverno.
O ar gélido açoita-te
e de rompante rasga-te a pele
como se fora uma bússola
perdida em alto mar
a navegar nas marés
os barcos tombados
pelos glaciares.
A noite aproxima-se
na praia invisível
o teu corpo gelado.


Texto
Ailime
06.02.2018
Imagem Google

quarta-feira, janeiro 24, 2018

Retenho as palavras


Retenho as palavras com o olhar
e desfio-as como finos fios de seda
a resvalar dos casulos
protegidos pelas teias
do orvalho da noite.
Resguardo-as em silêncio
como se não me pertencessem.
Não quero que os rumores sombrios
as maculem na transparência da luz.

 2016-10-01
 Ailime
Imagem Google

(reposição)

sábado, janeiro 13, 2018

O meu rio, quase inerte


Lá em baixo, o meu rio passa
numa agonia que lacera
conspurcado pela ignomínia
dos homens que sem piedade
o assassinam a olho nu.
Nas margens os barcos ancorados
vazios de sustento, carpem
a impiedade que avassala o rio
numa destruição pungente.
Tudo em redor são cinzas,
porque as guelras há muito
deixaram de respirar
na transparência das águas
a claridade da vida.

O meu rio, corre lá em baixo
quase inerte, quase irreconhecível
numa agonia que lacera.


Texto
Ailime
13.01.2017
Imagem Google

sábado, dezembro 30, 2017

Para meu Pai


O rio que tanto amavas
transformou-se num mar de orvalho
que me sufoca por dentro
e me queima no peito a tua ausência.
Já não te posso amparar
nos teus passos inseguros;
já não posso agarrar-te as mãos
ternas de carinho
como o brilho do teu olhar
que me sorria de tão azul.
No dia da Luz
partiste para a Luz,
que agora te acolhe
e abriga num abraço eterno.
Descansa em paz, Pai!
Com o amor infindo da tua filha
Emília



Texto
Ailime
30.12.2017
Imagem Google 

quinta-feira, dezembro 21, 2017

... quase Natal



Há silêncios que me confundem
e  palavras que como espadas
me trespassam os sentidos
como se o meu corpo
já não me pertencesse,
de tão gelado que está.
É inverno... e quase Natal.
Onde está o aconchego e o Menino Jesus?
Tantas luzes, tantos presentes,
tanta euforia, tanta mesa farta
e até a guerra, a terrível guerra injusta e cruel
não desiste de matar.
Cidades destruídas, crianças ao relento,
fome e desespero.
Tantos nus a rastejar pelas cidades
estendendo as mãos que ninguém  vê,
que ninguém ouve, que ninguém sente.
Que faço eu aqui, impotente, 
perante estes factos que perturbam o meu sentir?
É tempo de Natal...
Sim, em Belém de Judá,
nascerá de novo o pobre Deus Menino
numa manjedoura deitado
e envolto em frágeis panos,
aquecido pelo bafo dos animais do estábulo.
D’Ele emanará a luz
que se revelará a mais brilhante,
que aquecerá e libertará
e ouvir-se-ão cânticos de louvor
entoados por toda a Terra.
Eu clamo ao Deus Menino: salva o teu povo
e renasce no coração de cada Homem.
É tempo de celebrar o teu Natal.

Texto
Ailime
20.12.2016
(reposição)


Desejo-vos um santo e feliz Natal.
Próspero Ano Novo!
Abraços. Ailime



sábado, dezembro 09, 2017

O rio, sempre o rio...

Salvador dali

O rio, sempre o rio...
que deixa a descoberto
as margens longínquas do tempo
que te cerceiam os gestos
e onde o teu olhar repousa
como se não houvesse amanhã.

Os dias claros percorrem-te o olhar
desfazendo as névoas da incerteza,
que em silêncio resgatas à luz.

O rio, sempre o rio...

A sulcar na lonjura das marés
a clarividência do teu sorrir.




Ailime
31.10.2016
(Reposição)