segunda-feira, outubro 31, 2016

O rio, sempre o rio...

Salvador dali

O rio, sempre o rio...
que deixa a descoberto
as margens longínquas do tempo
que te cerceiam os gestos
e onde o teu olhar repousa
como se não houvesse amanhã.

Os dias claros percorrem-te o olhar
desfazendo as névoas da incerteza,
que em silêncio resgatas à luz.

O rio, sempre o rio...

A sulcar na lonjura das marés
a clarividência do teu sorrir.


Ailime
31.10.2016



quinta-feira, outubro 20, 2016

Torna-se necessário rescrever a canção

Torna-se necessário rescrever a canção
Mesmo que as mãos, em chamas,
Recusem o gesto, vacilante, da melodia.

Como os pássaros, que de asas feridas
Cruzam os céus em voos arrojados,
É urgente que os barcos ergam as velas
Na melopeia cadente da maré cheia.



Ailime
29.03.2015
Imagem Google
(Reposição)

sábado, outubro 01, 2016

Retenho as palavras


Retenho as palavras com o olhar
e desfio-as como finos fios de seda
a resvalar dos casulos
protegidos pelas teias
do orvalho da noite.
Resguardo-as em silêncio
como se não me pertencessem.
Não quero que os rumores sombrios
as maculem na transparência da luz.

 2016-10-01
 Ailime
Imagem Google

terça-feira, setembro 13, 2016

Nos olhos da noite também há luz



Nos olhos da noite
sentia-te o silêncio mudo
que te escavava no rosto
a angústia, que te dilacerava
no peito a ausência da luz.

Dias tortuosos, sombras
que te trespassavam o olhar
pálido como paredes brancas
onde o luar se queda
em noite de quarto crescente.

Mas nem sempre o inverno
obscurece os mares que navegas.
Timidamente uma vigia abriu-se
e de rompante dissiparam-se as trevas.
A luz reacendeu-te no olhar, a vida
que na praia te aguardava a sorrir.

É que nos olhos da noite também há luz.



Texto e foto
Ailime
13.09.2016

terça-feira, agosto 30, 2016

Aprisiono a luz


Na singularidade da existência
movo-me por entre muros
que me tolhem os passos
em apertadas veredas,
num rumar vacilante.
Descubro sóis para além das ameias
dos muros que me cerceiam
e aprisiono a luz filtrada pelas sombras
e deixo que a claridade me cinja
num prenúncio de transformação. 



Texto (revisto) e foto
Ailime
18.04.2012
Reposição



quarta-feira, agosto 17, 2016

Rasgo o tempo


Rasgo o tempo com o olhar
e aprisiono as palavras
nos ponteiros do relógio,
que no silêncio da noite
marcam o compasso das horas.
Lentamente a insónia
apodera-se dos minutos, dos segundos,
e os meus pensamentos
em turbilhão
a perderem-se na imensidão da noite
a tolherem-me os movimentos
na cegueira que me envolve.
Acordo em sobressalto.
Um sonho, um pesadelo?
Apenas um novo dia,
um novo olhar,
uma nova esperança
na claridade da manhã
a resplandecer  no horizonte.

Texto: Ailime
Imagem Google
17.08.2016

domingo, agosto 14, 2016

Adentramento

Há uma leve neblina a envolver a manhã, convidativa a que me adentre. Reparo num trilho que a claridade do sol antes não me deixara perceber e que, como no deserto, atravessa as dunas que me conduzirá ao desconhecido. Meio receosa afoito-me e avanço. Apesar das pegadas não enxergo vivalma.
Apenas pequenos arbustos e narcisos da areia que vou fotografando num irresistível apelo, me fazem companhia durante o trajecto. Discretamente olho de soslaio tentando ter a certeza de que ninguém, naquele local ermo, me segue. Afinal o medo ainda não me abandonara. Decidida continuo a caminhar e a fotografar o que me vai despertando mais atenção.
Um pouco mais adiante começo a  sentir o cheiro da maresia  que atravessa a névoa que, leve como uma cortina, ainda me envolve. Continuo na minha passada que passou a ser mais firme e arrojada e ouço com nitidez o sussurro do mar que me transmite uma paz interior que não sei definir. Neste momento os fantasmas que antes pareciam paralisar-me, dissipam-se.
Fico defronte do oceano fixando a linha do horizonte no ponto em que o céu e o mar se unem numa simbiose perfeita. Aproximo-me de uma falésia e lá em baixo observo, surpreendida, uma praia quase deserta onde as águas ligeiramente ondulantes beijam os seixos que bordejam o contorno da grande enseada.

Subo mais um pouco e finalmente desço até à beira mar. Naquele pequeno paraíso, quase perdido, olho para o meu lado esquerdo como se alguém me chamasse,  mas apenas  uma ligeira brisa  ecoava o silêncio melódico do mar.
Torno a olhar e, afinal, não estava só!
 Do alto de uma falésia duas silhuetas conhecidas acenavam-me!



Texto e fotos
Ailime
Julho/2016

quinta-feira, agosto 04, 2016

O grito

Eduard Munch

Mastigo as palavras
que me corroem a alma
e se colam na garganta
como se um grito silente
me ocultasse na voz
as sílabas que, teimosas,
me  estrangulam no peito
a construção do poema.
É que há palavras,
que rasgam o ventre
ao germinar.


Ailime
04.08.2016
Imagem Google

quinta-feira, julho 14, 2016

Um silêncio, uma pausa


Um silêncio, uma pausa
e um rio que emana
mananciais de deserto
libertando orvalhos,
que se transmutam
em oásis de escuta.

O vento cálido
sopra nas dunas
os ecos insondáveis
dos enigmas
que a terra gera.

24.06.2013
Ailime (reposição)
Imagem Google
(Estarei ausente da Net durante algum tempo.
Até breve).

quarta-feira, junho 29, 2016

Contemplação


O espanto trespassa-me o olhar
quando o sol incendeia  o horizonte
e alastra sobre  o universo
o  silêncio  da tarde.

Como num espelho,
o  firmamento afaga as brumas
que povoam o meu sentir
e deixo que o paraíso
me envolva como águas,
         cristalinas,
a brotar da nascente.

Quedo-me num mutismo
contemplativo
que  me confunde e desconcerta.

Apenas uma brisa suave
me reconcilia na alma
o sentido das palavras.


Texto
Ailime
(29.06.2016)
Foto de Neca retirada do Blogue