quinta-feira, outubro 29, 2015

Os lírios

Van Gogh

Tão longe a casa onde nasci.
No quintal um pouco acima
a oliveira e o baloiço
que subia mais alto que os pássaros
que voavam em bandos
(eram tantos, aos milhares)
e o morangueiro sobre o poço
a florir como rosas em botão.
 “Não tardará a maturar”, dizias.
Mais abaixo os lírios roxos
(tão belos que eram os lírios)
e o musgo como veludo a debruar o muro.
Entardeceram as horas no pátio da casa
e a luz quedou-se na janela cerrada.

Tão longe a casa onde nasci...

Texto
Ailime
29.10.2015
Imagem Google


sábado, outubro 17, 2015

Que se faça silêncio


Que se faça silêncio em teus ecos
E os ventos não te arrastem
Pelos bancos alagados dos jardins
Onde jaz a solidão das folhas

Que as tuas mãos, macias
Como musgo a revestir os muros
Se elevem até onde a luz se detém
Suspensa em pequenos galhos trémulos

Que os rios e os mares de algas imperfeitas
Deixem que os búzios regressem à praia
Onde outrora deixaste esculpida
A claridade dos gestos


Texto
Ailime
Imagem Google
17.10.2015

terça-feira, setembro 29, 2015

Torna-se necessário rescrever a canção


Torna-se necessário rescrever a canção
Mesmo que as mãos, em chamas,
Recusem o gesto, vacilante, da melodia.

Como os pássaros, que de asas feridas
Cruzam os céus em voos arrojados,
É urgente que os barcos ergam as velas
Na melopeia cadente da maré cheia.


Ailime
29.03.2015
Imagem Google

sexta-feira, setembro 18, 2015

É no outono

É no outono que a tua memória
Reacende em mim a saudade.

O rio escorre-me nas faces
O sabor amargo do mar
Como se um barco
Transportasse nas velas
Os ecos insondáveis do tempo.

No infinito apenas a luz
E as folhas a esvoaçar
Num misterioso rodopio
Me falam do teu silêncio
Envolto num estranho vazio.

Texto
Ailime
18.09.2015
Imagem Google

terça-feira, setembro 08, 2015

O resgate


Hoje os mastros não me falaram de outono
e  o sol irrompeu no horizonte, altivo.
O mar rasgou as marés e devolveu-me o sal
num barco repleto de ardis.
Na areia da praia uma ave ferida
aguarda o resgate, do nada.

Texto e foto
Ailime
08.09.2015

quarta-feira, agosto 12, 2015

Eu era rio e tua eras paz



Eu era rio e tua eras paz.
Desenhava-te no horizonte
Em círculos azuis como asas
Que o vento apenas traz
Quando as linhas se tocam
Em forma de folhas novas.

Enleamo-nos nas horas
Que só o tempo pode entender
Quando a luz das manhãs
Se prende nas tardes do ocaso
Ali… diante de nós.

Texto e foto
Ailime
28.04.2014
(Reposição)
(Vou fazer uma pausa no blogue. Até breve. Ailime)

terça-feira, agosto 04, 2015

Guardo na voz o silêncio

Van Gogh


Guardo na voz o silêncio
Das madrugadas em que desfiavas
Trovas que mascaravam
O sal das lágrimas
Que te sulcavam o rosto
Nas planícies cobertas de corvos.

Mas trazias na alma o sossego
Das tardes purpúreas do sol-posto
Que te amenizavam a noite
Que precedia a jornada.

De novo a labuta, a sobrevivência
O suor e as lágrimas
Dum tempo outro, impuro
Igual no sangue e verdade.


09.08.2013
Ailime
(Reposição)

sexta-feira, julho 24, 2015

Hoje é o dia

Tela de Cris S. Koester
Hoje é o dia em que as flores
nos afagam como se o mundo fosse só nosso
num recanto de jardim, que inventámos, suspenso.
Hoje é o dia em que adormecemos juntos à beira-mar
a contar as estrelas das vias lácteas
de universos ainda em embrião.
Hoje é o dia em que o amanhecer
se sobrepõe ao sol-posto
e esboça no mar, marés vivas de espanto.
Hoje é o dia, (não apenas mais um dia)
que como aves a rasgar as nuvens
nos sentimos livres como barcos. 

Texto
Ailime
24.07.2015

quarta-feira, julho 08, 2015

Quando no meu regaço vazio


Quando no meu regaço vazio
Abrigo o silêncio dos búzios
É como se o mar recuasse
Em perseguição do sol-posto.

Estendo o olhar ao infinito
E perscruto nas asas dos pássaros
O regresso das águas
Envoltas em manhãs de coral.

A luz antecipa-se às marés
E esboça nas velas dos barcos
Tons rasgados de aurora
A raiar o céu verde de espanto.

Ailime
 08.07.2015
Imagem Google


domingo, junho 21, 2015

Há nos desertos

Há nos desertos
Fustigados pela sede
Uma ausência de claridade
Que adormece as pedras
Inanimadas
Que perecem à sombra dos cactos.

Torna-se necessário
Sacudir as dunas
Na claridade das manhãs
Para que as flores se transformem
Na aridez das miragens
Em oásis de águas lúcidas.

Ailime
21.06.2015
Imagem Google