sexta-feira, fevereiro 27, 2015

Por vezes ouço um galo a cantar

Tela de Guillo Pérez
Por vezes ouço um galo a cantar.
Poderão achar estranho mas não é.
O campo entrou na cidade
pelas frinchas da varanda
da vizinha do sexto andar.
E ficarão a pensar:
mas que coisa sem sentido,
sem nada ter de poético.
No entanto para a vizinha
o galo no seu cantar
protege-a da solidão
num jardim onde há muito
as andorinhas rasgaram as asas 
e jazem feridas no chão.


Texto
Ailime
27.02.2015
Imagem Google

sábado, fevereiro 14, 2015

Na vertigem da nuvem

Sinto-te como se uma névoa
me desenhasse no corpo
a chama que crepita na alma
o tempo que demora
na vertigem da nuvem
que um dia originou
a fonte trazida do deserto
onde o oásis eras tu.
………………………………
As dunas ainda hoje
dançam ao som do vento
a música da chuva.

14.02.2014
Ailime
Imagem Google

quinta-feira, fevereiro 05, 2015

Desertos, silêncio


Desertos, silêncio e a ausência das sílabas
Nas palavras alcandoradas nas folhas
Secas pelo vento, na escassez das tardes
Abrigadas no sol-posto apressado das horas.

Por entre penumbras e escarpas agrestes
Apenas o chão exorta o alvorecer.


Texto e foto
Ailime
05.02.2015

quinta-feira, janeiro 22, 2015

O meu caminho


    O meu caminho é uma nuvem
    Que transporta um rio azul
    Que me fala da lonjura do tempo
    E do oásis onde um dia bebi da fonte
    O verdadeiro sentido das margens

    Não importa que as trevas envolvam
    As asas do meu viver
    E que transitoriamente
   A cegueira me estremeça na voz
   A precariedade dos voos

   Das sombras e da solidão dos mares
   Evado-me na vela de um barco
   (e o vento assola-me incessante)
   
   O meu caminho tem um farol
   Que sobrevoa as escarpas


  Texto e foto 
  Ailime
  22.01.2015


terça-feira, janeiro 13, 2015

Como podem as nascentes secar


Como podem as nascentes secar
A seiva do coração da terra
Se até as pedras parecem ter alma
Quando respiram os musgos
E sorriem à luz por entre os muros
Na germinação das flores?


Texto e foto
Ailime
13.01.2015


sábado, janeiro 03, 2015

Li-te na alma o poema


Li-te na alma o poema
E as palavras escorrem-me dos olhos
Como se o mar me sussurrasse
A brevidade do tempo.
Por vezes nem imagino
Como é cruel a viagem dos barcos
Com as velas rasgadas pelos bicos dos pássaros,
Que te afastam sem dó para longe da praia.
Nem sequer posso imaginar
Quando nos confins desérticos do mundo
Percorres sem destino as marés
Submersas nos silêncios da lua.
Olho em redor e tantas sombras,
E tanto mar, tanto mar a afagar-me o olhar.


Texto e foto
Ailime
03.01.2015

quarta-feira, dezembro 31, 2014

Recomeçar



Recomeça....
Se puderes
Sem angústia
E sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.

E, nunca saciado,
Vai colhendo ilusões sucessivas no pomar.
Sempre a sonhar e vendo
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheç
as...

Miguel Torga
Foto: Ailime

Desejo-vos um bom Ano Novo!
Obrigada pela vossa presença
e carinho ao longo de 2014.

sábado, dezembro 20, 2014

Mãe


Tela de Almada Negreiros

Mãe sim ventre rasgado luz
Mãe regaço vida acolhida
Mãe confiança amparo guia
Mãe silêncio escuta caminho
Mãe sorriso ternura abraço
Mãe zelo dor esperança
Mãe amor perdão alegria
Mãe remédio protecção embalo
Mãe solidão mulher coragem
Mãe ditosa brilho harmonia
Mãe que acolhe multiplica o amor
Mãe coração amor infinito.


Texto 
Ailime
20.12.2014

Desejo a todos um santo e feliz Natal.
Ailime

domingo, dezembro 07, 2014

Os meus olhos ainda se espantam


Os meus olhos ainda se espantam
Com o voo rasante das aves
Que transportam nas asas
A candura das nuvens
Como se o amanhecer
As volvesse às marés
Em vagas de espuma alva
A beijar os barcos da praia
Como novelos de lua cheia
A resvalar na praia deserta


Ailime
07.12.2014
Imagem Google

sexta-feira, dezembro 05, 2014

A porta

Tela de José Malhoa
A porta azul entreabriu-se a soluçar
E da janela já não irrompe a luz
Que anunciava o nascer da aurora.

O relógio continua embutido
Na parede de cal branca
Com os ponteiros estáticos
Gélidos como o orvalho da madrugada.

Lá em baixo os lírios murcharam
E os muros esboçam o tempo
Em gestos rasgados de musgos.

No celeiro apenas sombras
Ecoam gritos de silêncios
Esmorecidos no eco dos escombros.

Lá fora os pássaros
Continuam em bandos
A sobrevoar o rio.

21.11.2013
Ailime

reposição