quinta-feira, outubro 23, 2014

Naufrágio

Tela de Ivan Constantinovici Aivazovski

Naufrago como um barco perdido sobre a cripta da onda
como se uma noite fria de luar me trespassasse no peito
o vento que sopra os agoiros das tempestades e me arrebata
as marés que transporto nos olhos vagos de tanto mar.



Ailime
23.10.2014
Imagem Google

domingo, outubro 19, 2014

Há dias

Tela de Lena Karpinsky

Há dias em que o sol me aprisiona por detrás das vidraças
e apenas nas sombras descortino a intensidade da luz!
Vale a pena, por momentos, parar, silenciar e ouvir a voz do vento
que em mim ecoa a veracidade do sonho.

Texto 
Ailime
19.10.2014

quarta-feira, outubro 08, 2014

Tira as traves dos olhos

Tela de Claude Monet
Tira as traves dos olhos e abre as janelas ao sol
E repara como lá fora a vida flui num ritmo célere
Como se hoje fosse o último dia de inverno

Corre à descoberta dos mares encobertos
Por sombras que um dia te vendaram a alma
E não deixes que as névoas de cerceiem os sonhos

Deixa-te cingir pelo rio que desce a montanha
E com suavidade te canta os segredos da água
No pulsar das margens que te salpicam o olhar

Não recuses a luz que te aclara o entardecer
E deixa que os pássaros partam em debandada
E que a terra  te respire o orvalho da manhã.


Texto 

Ailime
08.10.2014

quinta-feira, outubro 02, 2014

Por entre vígulas


Tela de Katia Alam

Por entre vírgulas, reticências e interrogações
Deixo cair as palavras e o poema
Fica suspenso num emaranhado de teias
Que me circundam e paralisam a voz

Percorro o infinito e pergunto às estrelas
Onde estão os ecos dos dias
Quando o sol despertava os meus dedos
Nas manhãs raiadas de primavera

Apenas o ocaso me responde
Numa folha amarelecida pelo tempo
Que os barcos ainda navegam
Em oceanos de marés cheias.



Ailime
02.10.2014

quarta-feira, setembro 24, 2014

Há um rio




Há um rio que me percorre as entranhas
Nas margens azuis dos sonhos
Esquecidos nas proas dos barcos
Atracados em cais abandonados.

Há um rio que me crava no peito
A dor da saudade,
Como labareda que arde e fere.

Há um rio que me afaga a alma,
Me abraça no tempo e desperta.

Há um rio impregnado de luz
Que sempre me orgulha e espanta!

Há um rio banhado de nuvens
Que invoco e abrigo no coração.


Texto e foto
Ailime
24.09.2014

terça-feira, setembro 16, 2014

Na evasão das palavras


Na evasão das palavras
Apenas o silêncio da chuva
Me sussurra a sua ausência.



Ailime
16.09.2014

Foto Google

domingo, setembro 14, 2014

Poemas de que gosto (I)

O Meu Olhar

O meu olhar é nítido como um girassol. 
Tenho o costume de andar pelas estradas 
Olhando para a direita e para a esquerda, 
E de, vez em quando olhando para trás... 
E o que vejo a cada momento 
É aquilo que nunca antes eu tinha visto, 
E eu sei dar por isso muito bem... 
Sei ter o pasmo essencial 
Que tem uma criança se, ao nascer, 
Reparasse que nascera deveras... 
Sinto-me nascido a cada momento 
Para a eterna novidade do Mundo... 

Creio no mundo como num malmequer, 
Porque o vejo. Mas não penso nele 
Porque pensar é não compreender ... 
O Mundo não se fez para pensarmos nele 
(Pensar é estar doente dos olhos) 
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo... 

Eu não tenho filosofia: tenho sentidos... 
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é, 
Mas porque a amo, e amo-a por isso, 
Porque quem ama nunca sabe o que ama 
Nem sabe por que ama, nem o que é amar ... 

Amar é a eterna inocência, 
E a única inocência não pensar...


Alberto Caeiro
(Heterónimo de Fernando Pessoa)

Foto:
Ailime

quarta-feira, setembro 03, 2014

Há nas primeiras folhas de outono



Há nas primeiras folhas de outono
O sabor e o aroma dos frutos maduros
Que penetram os sentidos
Como amoras a brilhar ao sol

E os cestos enchem-se de figos,
Uvas e maçãs enrubescidas
Como as frontes das gentes
Que as recolhem como um milagre

É a natureza a completar
O ciclo, que em cada estação
Se renova e nos espanta
A cada recomeço!



Ailime
03.09.2014
Imagem Google

segunda-feira, agosto 25, 2014

Nem sempre as palavras



Nem sempre as palavras esboçam um poema exemplar
Nem sempre os olhos se abrem à luz
E deixam que as mãos deslizem o pensamento
No papel amarelecido pela ausência do que te queima a alma

Nem sempre o mar te envolve em maresia
Nem sempre a chuva te afaga o rosto açoitado pelo vento
Nem sempre os relâmpagos te fulminam na noite
Que te arrasta pela calçada agreste desprovida de árvores

Não imagines sequer que o teu poema tem que conter alguma mensagem
Não, tu és imperfeita no que ainda não fizeste
E não tens que ser perfeita naquilo que desconheces!
O que é a perfeição?

Deixa que a vida te ofereça a luz e abre a janela

Deixa simplesmente que ela te atenue a penumbra.


Ailime

25.08.2014
Imagem Google

quarta-feira, agosto 20, 2014

Há no fulgor da manhã


Há no fulgor da manhã
A magia do amor
Na fragrância das flores
Que atapetam o chão

A janela escancarada
Deixa que a luz do sol
Rompa a penumbra
E incendeie as paredes de cal

O mar lá em baixo
Sobressalta-se,
Não vá a maresia
Embaciar-me o olhar.


Ailime
20.08.2014

Imagem Google