quinta-feira, fevereiro 27, 2014

Já não me iludo com as sombras


Já não me iludo com as sombras
Dos dias em que o sol raiava,
Porque a luz rasgava-me o ventre
Em searas por desbravar.

No vento encontrei o norte
E na chuva pétalas de maio
Num universo que me nega
A espera de um outro porvir.

Quero soltar as correntes
Que me tolhem o pensamento
E me impedem de inventar
Um novo mar de palavras.

Ailime
Imagem Google
27.02.2014


quarta-feira, fevereiro 19, 2014

Procuro nas palavras


Procuro nas palavras
A vertigem dos dias
E apenas a nudez das árvores
Me fala da luz.

O inverno abarca-me
Na chuva que goteja
O murmúrio do vento
No esvoaçar dos pássaros.

No infinito uma nuvem
Arrasta para longe
A sombra das asas
Num voo raso de espanto.

Texto e foto
Ailime
18.02.2014



terça-feira, fevereiro 11, 2014

Bailam as marés revoltas

Tela de JMW Turner
Bailam as marés revoltas
O sal derramado na praia
E do céu tombam nenúfares
Que se estilhaçam como cristais
No reboliço das dunas.

O vento redopia com fúria
Nas tormentas do naufrágio
As esperas que se delongam
Nas asas quebrantadas do tempo
Em caótico alvoroço.


Ailime
11.02.2014
Imagem Google


sábado, fevereiro 01, 2014

O que o poeta deveras entoa?

Jim Warren
Será que o poeta entoa apenas a dor
Da angústia que lhe envolve a alma
Ou auroras de luar prateado
Num céu banhado de mar?

Será que o poeta entoa apenas o amor
Ou descreve a nostalgia
Dum amanhecer tardio
Sentado na escarpa da noite?

Será que o poeta entoa apenas o sonho
Ou o despertar da metáfora
Na manhã esculpida de nuvens
Num arco-íris de saudade?

O que o poeta deveras entoa?
Distâncias, momentos
Ausências, silêncios
Ou esperanças em amanhãs
Camuflados por intempéries?

O poeta entoa apenas palavras
Envoltas em pássaros azuis
Que nas asas do vento
Gotejam como orvalhos
Vagas de solidão.

01.02.2014
Ailime
Imagem Google

quinta-feira, janeiro 23, 2014

Relâmpagos trespassam os céus


Relâmpagos trespassam os céus
E ofuscam as estrelas
Que tombam sem brilho
Nas escarpas do universo
Nada detém o vendaval
Que se abateu sobre o mar
E à revelia das marés
Abate os barcos sem velas
A noite cai de rompante
Sem luar, sem estrelas, sem rumo
Apenas a solidão das manhãs
Refulge num convés abandonado


Ailime
Imagem Google
23.01.2014




segunda-feira, janeiro 20, 2014

Gotas de mar

  

Silencio o meu olhar e mergulho-o
Nas águas profundas do mar
Que me devolve em véus de espuma
A certeza infinita de te amar.


Texto e foto
Ailime
20.01.2014

sábado, janeiro 11, 2014

Apenas a luz


Apenas a luz e as flores
Me falam das nuvens
Que escurecem as tardes
Na praia que alberga
A manhã do sol-posto

O vento em rodopio
Arrebata às marés
O navio naufragado
E esculpe na areia
O mastro quebrado

Uma âncora persiste
Cravada no sal.


Texto e foto
Ailime
11.01.2014




domingo, janeiro 05, 2014

Percorro a utopia



Percorro a utopia suspensa na luz
Que paira no horizonte da
Imaginação que em ti arquitectei.

Vagueio pelas sombras das noites
Em que o Inverno se completa
Nas madrugadas gélidas de relentos,
Embutidos nos olhares confusos
De silhuetas desencontradas
Em solidões precoces.

Solto os grilhões que nos escravizam
E em liberdade aprisiono a Primavera,
No alvorecer suave e acolhedor
De uma aurora anunciada.

Ailime
(2010)




domingo, dezembro 29, 2013

No tempo que passa


No tempo que passa, veloz
Por entre as espigas maduras
Do trigo a dançar ao sol
Da vida, quantas vezes noite

Mas também sorrisos
Nas manhãs de Maio,
Em auroras translúcidas
Na plácida corrente do rio
De azul intenso repleto;

Que separa as margens
Que avisto da janela
Daqui, e além Tejo,

Onde a lezíria vestida de verde
Continua a afagar
A suave fragrância das manhãs,
Que se desprende das margens

A subir no éter, a evocar
O tempo que passa, veloz
Nas primícias de mim, aqui.

Desejo a todos um Ano Novo Feliz!
Muito obrigada pelo carinho
e amizade ao longo de 2013.
Abraços. Ailime

Texto (2011)
e foto
Ailime

domingo, dezembro 22, 2013

Natal à Beira-Rio

É o braço do abeto a bater na vidraça?
E o ponteiro pequeno a caminho da meta!
Cala-te, vento velho! É o Natal que passa,
a trazer-me a água da infância ressurrecta.

Da casa onde nasci via-se perto o rio.
Tão novos os meus Pais, tão novos no passado!
E o Menino nascia a bordo de um navio
que ficava, no cais, à noite iluminado...

Ó noite de Natal, que travo a maresia!
Depois fui não sei quem que se perdeu na terra.
E quanto mais na terra me envolvia
mais da terra fazia o norte de quem erra.

Vem tu, Poesia, vem, agora conduzir-me
à beira desse cais onde Jesus nascia...
Serei dos que afinal, errando em terra firme,
precisam de Jesus, do Mar, ou de Poesia?

David Mourão Ferreira





Bom Natal para todos. Muito obrigada pelas vossas
visitas e ou/ comentários ao longo de 2013.
Ailime