sexta-feira, novembro 13, 2020

Os meus gestos



Sempre houve uma certa inquietude nos meus gestos
ora lentos, ora apressados, ou apenas soletrados por pensamentos
que se entrecruzam com as mãos, que ora se poisam em cima da mesa
ou simplesmente se esgueiram para o poema em embrião.

Por vezes tento acalmá-las, mas escapam-se-me com ligeireza
como se tivessem ânsia de chegar antes de mim.

As minhas mãos e os meus gestos sempre se desencontraram
como se uma certa tensão se aninhasse nas pontas dos dedos
e o poema ficasse enclausurado na teia das palavras.


Texto
Ailime
12.11.2020
Imagem Google
Autor desconhecido

terça-feira, novembro 10, 2020

Rescrever a canção

                                                    



Torna-se necessário rescrever a canção
mesmo que as mãos, em chamas,
recusem o gesto, vacilante, da melodia.

Como os pássaros, que de asas feridas
cruzam os céus em voos arrojados,
é urgente que os barcos ergam as velas
na melopeia cadente da maré cheia.



Ailime
29.03.2015
Imagem Google
(Reedição revista)

terça-feira, novembro 03, 2020

Folha ao vento



Uma folha ao vento
pode não ser apenas uma folha;
é raiz, é tronco,  é seiva;
é flor, é fruto; 
pedaço de céu, nuvem,
raio de sol,  luar.

O que importa é o tempo
que por ela passa e a transforma
qual instante em que os ramos
se fundem nas teias sombrias
que agora repousam
no abismo do silêncio.

Da profundeza da ravina
uma árvore brota em flor.


Texto
Ailime
Imagem Google


 

sábado, outubro 24, 2020

No voo das palavras


No voo das palavras ouço a voz do vento
quando os pássaros atravessam relâmpagos
e as sombras do crepúsculo se quedam
como asas a planar sobre escarpas.
 
É a hora em que as memórias
saltam os muros impenetráveis da solidão
e eu caminho descalça sobre as marés
qual barco a navegar na linha do horizonte,
até que as horas me devolvam a voz
a quebrantar-se na espuma alva da praia.
 


Texto
Ailime
24.10.2020
Imagem 
(desconheço o autor)

quarta-feira, outubro 14, 2020

Em silêncio

 

       Em silêncio
       podes escutar o vento
       que te fala das marés
       Dos esplendores
       das estrelas
       Do pôr do sol
       Da neve
       Dos jardins solitários
       Daquele dia
       em que apenas
       o único olhar
       foi o teu.


Texto e foto
Ailime
14.10.2020

sexta-feira, outubro 02, 2020

Era outono

 
Tela de José Malhoa


O seu rosto erguia-se no parapeito da janela
para o vizinho que lhe contemplava no olhar
a ternura dos dias perdidos
quando o outono teimava em
rasgar-lhe nas faces a colheita das uvas
douradas como mel a escorrer-lhe
pelos cantos da boca ávida dos beijos
ocultados nas tardes serôdias.
Era o tempo das vindimas
O tempo dos frutos maduros
Dos aromas a mosto e a sede
Era outono.

Texto
 Ailime
02.10.2020


quinta-feira, setembro 24, 2020

Nem sempre o silêncio é lúcido




Nem sempre o silêncio é lúcido
quando na ausência das vozes
as palavras se calam

o silêncio é a retração da voz
enleada em grãos de poeira
suspensas em nuvens de folhas

por vezes é apenas mágoa, soterrada 
pelos pensamentos que se negam
a retratar-te na alma
os pudores que te recalcam.

o silêncio é o orgulho ferido
pelo preconceito do poema
quando renuncia às palavras.


Texto
Ailime
24.09.2020
Imagem Google



sexta-feira, setembro 11, 2020

O poema

quadro - pintura abstrata - quadro abstrato - cores vivas no Elo7 |  Patricia (1016413)

O poema pode conter palavras sem nexo
reecontros nas entrelinhas
movimentos ascendentes ou descendentes
ruas desertas com ou sem metáforas
terras de quase ninguém.
esboços de gestos abstratos
horas aprisionadas pelos ponteiros gastos
do tempo
amores e desamores
alegrias e tristezas
ausências de quem já passou
as agruras e crueldades da vida.

o poema pode conter apenas numa linha
o sentir do poeta
no lusco-fusco da vida
indiferente à ausência dos pássaros.

Texto
Ailime
11.09.2020
Imagem Google


quarta-feira, setembro 02, 2020

De mãos dadas

de mãos dadas também com o mar Foto de Jorge Pinto | Olhares - Fotografia  Online

Na aridez da vida
percorro horizontes antes nunca sonhados
e mitigo a sede com as palavras
que me sussurras quando de mãos dadas
perscrutamos o infinito
e nos entreolhamos cúmplices
de um amor que nos corta a pele
e nos alimenta os sentidos
como se rasgássemos o tempo
que nos vai tragando as horas
encurtando as distâncias
que nos separam do ocaso
onde os pássaros nidificam
uma nova manhã, uma nova vida.
Entre a aurora e o crepúsculo
não desistimos de agarrar o vento.





Texto
 Ailime
02.09.2020
Foto
 Jorge Pinto

segunda-feira, agosto 24, 2020

Palavras tantas vezes sufragadas


sun

Palavras tantas vezes sufragadas
Por gotas de mar nublado pelas brumas
Que te cerram no olhar o vento
Quando há escassez de marés
E nem sabes se são mesmo palavras
Ou apenas pedaços de memórias
Encalhadas no convés do navio
Quando te fazes ao largo

Não precisas penitenciar-te
Deixa apenas que o esplendor do sol
Te preencha o vazio da alma.


Texto
Ailime
24.08.2020
Imagem
Google