quarta-feira, novembro 30, 2016

Dualismo

 

Há um dualismo nos teus olhos
e no esboçar do teu sorriso
que jamais alcançarei.
Como névoa fria retrais-te
num raio de sol libertas-te
numa sombra escondes-te
como se houvesse muros
a impedir-te os movimentos,
a razão, o olhar, o querer.
O silêncio é o teu cúmplice
no torpor instintivo
que te impede a claridade.



Texto
Ailime
Imagem Google
30.11.2016


domingo, novembro 20, 2016

Na ausência das folhas


Na ausência das folhas
os ventos sopram os dias
das primaveras serôdias
suspensas de densas escarpas

Os musgos escoam nas asas
alvoraçadas dos pássaros
sombras de nuvens azuis
na obscuridade dos muros

Nas veredas estreitas
de labirintos insondáveis
a luz detém no horizonte
a plenitude do olhar



Texto e foto
Ailime
(Reposição)

segunda-feira, outubro 31, 2016

O rio, sempre o rio...

Salvador dali

O rio, sempre o rio...
que deixa a descoberto
as margens longínquas do tempo
que te cerceiam os gestos
e onde o teu olhar repousa
como se não houvesse amanhã.

Os dias claros percorrem-te o olhar
desfazendo as névoas da incerteza,
que em silêncio resgatas à luz.

O rio, sempre o rio...

A sulcar na lonjura das marés
a clarividência do teu sorrir.


Ailime
31.10.2016



quinta-feira, outubro 20, 2016

Torna-se necessário rescrever a canção

Torna-se necessário rescrever a canção
Mesmo que as mãos, em chamas,
Recusem o gesto, vacilante, da melodia.

Como os pássaros, que de asas feridas
Cruzam os céus em voos arrojados,
É urgente que os barcos ergam as velas
Na melopeia cadente da maré cheia.



Ailime
29.03.2015
Imagem Google
(Reposição)

sábado, outubro 01, 2016

Retenho as palavras


Retenho as palavras com o olhar
e desfio-as como finos fios de seda
a resvalar dos casulos
protegidos pelas teias
do orvalho da noite.
Resguardo-as em silêncio
como se não me pertencessem.
Não quero que os rumores sombrios
as maculem na transparência da luz.

 2016-10-01
 Ailime
Imagem Google

terça-feira, setembro 13, 2016

Nos olhos da noite também há luz



Nos olhos da noite
sentia-te o silêncio mudo
que te escavava no rosto
a angústia, que te dilacerava
no peito a ausência da luz.

Dias tortuosos, sombras
que te trespassavam o olhar
pálido como paredes brancas
onde o luar se queda
em noite de quarto crescente.

Mas nem sempre o inverno
obscurece os mares que navegas.
Timidamente uma vigia abriu-se
e de rompante dissiparam-se as trevas.
A luz reacendeu-te no olhar, a vida
que na praia te aguardava a sorrir.

É que nos olhos da noite também há luz.



Texto e foto
Ailime
13.09.2016

terça-feira, agosto 30, 2016

Aprisiono a luz


Na singularidade da existência
movo-me por entre muros
que me tolhem os passos
em apertadas veredas,
num rumar vacilante.
Descubro sóis para além das ameias
dos muros que me cerceiam
e aprisiono a luz filtrada pelas sombras
e deixo que a claridade me cinja
num prenúncio de transformação. 



Texto (revisto) e foto
Ailime
18.04.2012
Reposição



quarta-feira, agosto 17, 2016

Rasgo o tempo


Rasgo o tempo com o olhar
e aprisiono as palavras
nos ponteiros do relógio,
que no silêncio da noite
marcam o compasso das horas.
Lentamente a insónia
apodera-se dos minutos, dos segundos,
e os meus pensamentos
em turbilhão
a perderem-se na imensidão da noite
a tolherem-me os movimentos
na cegueira que me envolve.
Acordo em sobressalto.
Um sonho, um pesadelo?
Apenas um novo dia,
um novo olhar,
uma nova esperança
na claridade da manhã
a resplandecer  no horizonte.

Texto: Ailime
Imagem Google
17.08.2016

domingo, agosto 14, 2016

Adentramento

Há uma leve neblina a envolver a manhã, convidativa a que me adentre. Reparo num trilho que a claridade do sol antes não me deixara perceber e que, como no deserto, atravessa as dunas que me conduzirá ao desconhecido. Meio receosa afoito-me e avanço. Apesar das pegadas não enxergo vivalma.
Apenas pequenos arbustos e narcisos da areia que vou fotografando num irresistível apelo, me fazem companhia durante o trajecto. Discretamente olho de soslaio tentando ter a certeza de que ninguém, naquele local ermo, me segue. Afinal o medo ainda não me abandonara. Decidida continuo a caminhar e a fotografar o que me vai despertando mais atenção.
Um pouco mais adiante começo a  sentir o cheiro da maresia  que atravessa a névoa que, leve como uma cortina, ainda me envolve. Continuo na minha passada que passou a ser mais firme e arrojada e ouço com nitidez o sussurro do mar que me transmite uma paz interior que não sei definir. Neste momento os fantasmas que antes pareciam paralisar-me, dissipam-se.
Fico defronte do oceano fixando a linha do horizonte no ponto em que o céu e o mar se unem numa simbiose perfeita. Aproximo-me de uma falésia e lá em baixo observo, surpreendida, uma praia quase deserta onde as águas ligeiramente ondulantes beijam os seixos que bordejam o contorno da grande enseada.
Subo mais um pouco e finalmente desço até à beira mar. Naquele pequeno paraíso, quase perdido, olho para o meu lado esquerdo como se alguém me chamasse,  mas apenas  uma ligeira brisa  ecoava o silêncio melódico do mar.

Texto e fotos
Ailime
Julho/2016

quinta-feira, agosto 04, 2016

O grito

Eduard Munch

Mastigo as palavras
que me corroem a alma
e se colam na garganta
como se um grito silente
me ocultasse na voz
as sílabas que, teimosas,
me  estrangulam no peito
a construção do poema.
É que há palavras,
que rasgam o ventre
ao germinar.


Ailime
04.08.2016
Imagem Google