sábado, maio 30, 2020

A terra seca

O Semeador de Vida: Você é uma terra Seca.


Ao pé da laranjeira
encontrei o caminho
onde outrora te encontrava
desbravando as silvas
a terra seca, árida
a fonte longínqua
onde quebrantei a sede
tantas vezes
na lonjura dos dias
subindo encostas,
de costas
amparando a queda
a saltar à corda
como se o mundo
tivesse ali o seu princípio.


Texto
Ailime
30.05.2020
Imagem Google

quinta-feira, maio 21, 2020

O verso

A vida é um sopro – Caminhante Aprendiz


Na ausência das palavras
o verso, envergonhado,
esconde-se no reverso
das sílabas.
Não o pronuncio.
Não quero profanar
a sua essência
na cadência do poema.


Texto Ailime
Foto Google
21.05.2020

quinta-feira, maio 14, 2020

Poema de Graça Pires



Foto Ailime

Secaram as roseiras bravas
cultivadas no atalho da paisagem.
Uma mulher canta roucamente
e o seu canto é um brado
em desavença com a mudez
enraizada na garganta.
Vagarosamente, enrodilha na anca
as vestes de pano cerzido
e afaga seu corpo com as mãos ásperas
como as roseiras bravas.
Tão precário, o perfume das rosas!

Do seu novo Livro

A solidão é como o vento (pág. 48)

_ Graça Pires_


quinta-feira, maio 07, 2020

Uma rua



No rio que corre em mim
há agora uma rua
com pedras nuas
desprovidas de margens
e pássaros
uma rua reinventada
por medos e sombras
onde os ecos me falam
não de flores e primaveras
mas de inverno e solidão
uma rua fria, sem pirilampos
sem estrelas, sem luar
uma rua sem abraços,
nem barcos a velejar
uma rua que me fala
simplesmente, de ti.

Texto e foto
Ailime
07.05.2020

sexta-feira, maio 01, 2020

Desprendo-me da noite

CANTO-MEU: Desprendo-me da noite

Levanto-me e desprendo-me da noite 
mas não sei se já é madrugada 
Atrás de mim a inocência 
dos passos que dou devagar 
O meu olhar abre a janela 
A lua, quarto minguante, sorri 
Por vezes tropeço nas estrelas 
e estendo-lhes as mãos 
os braços ...
O vazio no meu colo. 
Uma estrela cadente 
sopra-me no olhar 
uma ténue claridade. 




Texto (reedição)
Ailime
01.06.2019
Imagem Google

quarta-feira, abril 22, 2020

Nas calçadas ainda há vestígios



Nas calçadas ainda há vestígios
das flores rubras da manhã
que bebi como um néctar
quando a madrugada se soltou 

Pássaros esvoaçavam de galho em galho
e alertei-os da chegada da primavera.
Sorriram e voaram mais alto
a perpetrarem a canção
que as vozes ainda sustinham

Em bandos, todos os outros pássaros
entoavam já a melopeia
a incendiar a manhã
que eu percorria com pasmo



Texto
Ailime
20.04.2020
Imagem Pinterest




segunda-feira, abril 13, 2020

Na tibiez dos dias

Shadows of people walking street in morning light.


Na tibiez dos dias
somos como esfinges
vagueando na rua, deserta,
sem pisar o chão
olhando de través
a celeridade das sombras,
submersas em abismos
na incógnita das horas
e dos números.

Por breves instantes
os relógios silenciam-se
na luz do crepúsculo,
sem deixar rasto.


Texto 
Ailime
13.04.2020
Imagem
Google

sábado, abril 04, 2020

Nas escarpas dos dias

Canto meu

Nas escarpas dos dias
caminho descalça sobre o vento, 
como se desventrasse os silêncios
que me movem
no imprevisível deserto do ocaso
que se desnuda em oceanos
opacos e turbulentos
na incongruência
dos ponteiros do relógio
consumidos por águas movediças
que resistem à estranheza
das margens dos rios 
corrompidos pelas marés.

Enquanto isso, os pássaros,
imperturbáveis,
continuam os voos.


Texto 
Ailime
03.04.2020
Imagem Google

quarta-feira, março 25, 2020

No silêncio do deserto


No silêncio do deserto
por detrás dos vidros embaciados
por pólens de incerteza 
quero ir ao teu encontro
mas algo me impede de ver
a clareza do teu olhar
na beleza das tuas cores,
na alegria dos movimentos
com que o vento te beija 
no cantar dos pássaros.
Hoje, cerceada pela sede,
os meus desejos são meros delírios
que vou abrigando
na dubiez com que antecipo
o esplendor dos dias sim.


Texto e foto
Ailime
25.03.20



segunda-feira, março 16, 2020

Quisera


Quisera que meus olhos
não vissem a escuridão dos
dias
que meus lábios
não bebessem o fel das sombras
interditas
que minhas mãos não
tocassem o invisível
Quisera, enfim, que a luz
incendiasse os gestos do mundo.



Texto e foto
Ailime
16.03.20
Imagem Google