quinta-feira, agosto 04, 2016

O grito

Eduard Munch

Mastigo as palavras
que me corroem a alma
e se colam na garganta
como se um grito silente
me ocultasse na voz
as sílabas que, teimosas,
me  estrangulam no peito
a construção do poema.
É que há palavras,
que rasgam o ventre
ao germinar.


Ailime
04.08.2016
Imagem Google

quinta-feira, julho 14, 2016

Um silêncio, uma pausa


Um silêncio, uma pausa
e um rio que emana
mananciais de deserto
libertando orvalhos,
que se transmutam
em oásis de escuta.

O vento cálido
sopra nas dunas
os ecos insondáveis
dos enigmas
que a terra gera.

24.06.2013
Ailime (reposição)
Imagem Google
(Estarei ausente da Net durante algum tempo.
Até breve).

quarta-feira, junho 29, 2016

Contemplação


O espanto trespassa-me o olhar
quando o sol incendeia  o horizonte
e alastra sobre  o universo
o  silêncio  da tarde.

Como num espelho,
o  firmamento afaga as brumas
que povoam o meu sentir
e deixo que o paraíso
me envolva como águas,
         cristalinas,
a brotar da nascente.

Quedo-me num mutismo
contemplativo
que  me confunde e desconcerta.

Apenas uma brisa suave
me reconcilia na alma
o sentido das palavras.


Texto
Ailime
(29.06.2016)
Foto de Neca retirada do Blogue

quarta-feira, junho 15, 2016

O rio que nos corre nas veias

Tela de Daniel Ridgway

Procedemos do mesmo rio
que nos abraçou na nascente
e saltitámos de pedra em pedra
como rãs a coaxar
por entre juncos floridos
no pântano de sombras,
que silenciavam as tardes
daqueles dias em que o céu
vermelho como papoulas
abrasava o horizonte.
Como aves, de asas impelidas pelo vento,
voámos céleres no tempo
e atravessámos as mesmas pontes
a desbravar as margens
do rio que nos corria nas veias.
Um dia voaste e perdi-te o rasto.
Nessa manhã o rio transbordou
e um enorme lago separou-nos.
.....................................................
Inesperadamente voltaste
e o rio voltou a correr-te nas veias.
…………………………………..
Como as ondas do mar
(que sempre cingiram o rio)
ausentavas-te e volvias
como marés a vaguear na praia
as  manhãs do entardecer.
…………………………………….
Não sei se algum dia alcançarás
que somos filhas da mesma nascente,
que o sol que nos aquece é o mesmo,
que percorremos as mesmas ruas,
os mesmos sonhos e quereres.

Não sei se um dia,
algum dia,
saberás quem sou.

Saberás quem somos.

Texto
Ailime

Imagem Google

segunda-feira, maio 30, 2016

Em silêncio


Em silêncio os pássaros
rasgam o vento
sobrevoando
mares encapotados
por neblinas à deriva,
como barcos a sucumbir
nos areais gélidos
de praias imaginárias
dispersas pelos sonhos
inacabados
dos náufragos.

Em veloz apatia
cardumes flutuam
como foguetes
a cintilar nas águas
as faíscas dos relâmpagos.



Texto 
Ailime
Imagem Google
30.05.2016

domingo, maio 15, 2016

O lago


Hoje o tempo estagnou naquele lago onde nas manhãs primaveris ouvia o teu suspirar, como as águas profundas do regato que borbulhavam ao cair da nascente formando bolhas de espuma branca a contornar raízes de árvores ancestrais e silvas ainda sem amoras e algumas agulhas de pinheiro que tentavam impedir-lhe o percurso. Persistente ia deslizando com águas cada vez mais cristalinas e o pequeno areal que se ia formando prenunciava que o lago estaria próximo. O fio de água cada vez mais volumoso mergulhava no lago suavemente como num beijo profundo e as aves esvoaçavam alegremente em redor. O céu reflectido no lago completava o cenário paradisíaco e retardava o entardecer.

Texto e foto
Ailime
15.05.2016

quarta-feira, maio 04, 2016

O meu rio

Rio Tejo
Este é o rio que desde a infância me corre nas veias.
Rio azul debruado por nuvens de algodão
encrustadas nas planícies verdejantes,
onde o meu olhar se detém.
Este é o rio de onde emergi para a vida
quando o sol nascente reluzia nas suas águas
um despertar precoce.
Este é o rio que ecoa nas suas margens
os ecos dos meus afectos, que persistirão no tempo.
Este é um rio intemporal que, no silêncio da noite,
guarda prantos e segredos sob o olhar das estrelas.

Texto e foto
Ailime
04.05.2016

segunda-feira, abril 25, 2016

Sonhei-te


Sonhei-te como pólen no chão adormecido
E abriguei-te no meu peito aberto ao vento
Qual noite a emergir na madrugada
Do silêncio a luz se fez espanto.

Como um véu abriste-te em amor
E deste-te em abraços e harmonias
Num só voo ainda entoamos
Alvorada em flor até ser dia.


Texto (reposição)
Ailime
25.04.2015
Imagem Google

segunda-feira, abril 18, 2016

Nas escarpas do tempo


Nas escarpas do tempo
perdi-te o rasto.
As manhãs não brilham
como naquela madrugada
em que o céu te gravou no rosto
um sorriso de esperança.

O chão que agora pisas
parece já não ser teu
e resvalas como se no teu corpo
o sorriso te pesasse nos gestos.

Querias resgatar das sombras
o sopro emudecido do alvorecer
mas as aves partiram em bandos
e na praia, deserta, apenas os búzios
entoam o hino das flores.



Texto Ailime
Foto Google
18.04.2016

domingo, abril 03, 2016

No meu silêncio


No meu silêncio
acolho penumbras e barcos
a resvalar
nas marés
das tardes
quando o vento
me açoita 
o rosto gelado
debruçado na escarpa
e as flores 
penduradas nos galhos
baloiçam
como  ondas
a desenhar na areia
o rumo das aves. 

Texto e foto
Ailime
03.04.2016