quinta-feira, outubro 02, 2014

Por entre vígulas


Tela de Katia Alam

Por entre vírgulas, reticências e interrogações
Deixo cair as palavras e o poema
Fica suspenso num emaranhado de teias
Que me circundam e paralisam a voz

Percorro o infinito e pergunto às estrelas
Onde estão os ecos dos dias
Quando o sol despertava os meus dedos
Nas manhãs raiadas de primavera

Apenas o ocaso me responde
Numa folha amarelecida pelo tempo
Que os barcos ainda navegam
Em oceanos de marés cheias.



Ailime
02.10.2014

quarta-feira, setembro 24, 2014

Há um rio




Há um rio que me percorre as entranhas
Nas margens azuis dos sonhos
Esquecidos nas proas dos barcos
Atracados em cais abandonados.

Há um rio que me crava no peito
A dor da saudade,
Como labareda que arde e fere.

Há um rio que me afaga a alma,
Me abraça no tempo e desperta.

Há um rio impregnado de luz
Que sempre me orgulha e espanta!

Há um rio banhado de nuvens
Que invoco e abrigo no coração.


Texto e foto
Ailime
24.09.2014

terça-feira, setembro 16, 2014

Na evasão das palavras


Na evasão das palavras
Apenas o silêncio da chuva
Me sussurra a sua ausência.



Ailime
16.09.2014

Foto Google

domingo, setembro 14, 2014

Poemas de que gosto (I)

O Meu Olhar

O meu olhar é nítido como um girassol. 
Tenho o costume de andar pelas estradas 
Olhando para a direita e para a esquerda, 
E de, vez em quando olhando para trás... 
E o que vejo a cada momento 
É aquilo que nunca antes eu tinha visto, 
E eu sei dar por isso muito bem... 
Sei ter o pasmo essencial 
Que tem uma criança se, ao nascer, 
Reparasse que nascera deveras... 
Sinto-me nascido a cada momento 
Para a eterna novidade do Mundo... 

Creio no mundo como num malmequer, 
Porque o vejo. Mas não penso nele 
Porque pensar é não compreender ... 
O Mundo não se fez para pensarmos nele 
(Pensar é estar doente dos olhos) 
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo... 

Eu não tenho filosofia: tenho sentidos... 
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é, 
Mas porque a amo, e amo-a por isso, 
Porque quem ama nunca sabe o que ama 
Nem sabe por que ama, nem o que é amar ... 

Amar é a eterna inocência, 
E a única inocência não pensar...


Alberto Caeiro
(Heterónimo de Fernando Pessoa)

Foto:
Ailime

quarta-feira, setembro 03, 2014

Há nas primeiras folhas de outono



Há nas primeiras folhas de outono
O sabor e o aroma dos frutos maduros
Que penetram os sentidos
Como amoras a brilhar ao sol

E os cestos enchem-se de figos,
Uvas e maçãs enrubescidas
Como as frontes das gentes
Que as recolhem como um milagre

É a natureza a completar
O ciclo, que em cada estação
Se renova e nos espanta
A cada recomeço!



Ailime
03.09.2014
Imagem Google

segunda-feira, agosto 25, 2014

Nem sempre as palavras



Nem sempre as palavras esboçam um poema exemplar
Nem sempre os olhos se abrem à luz
E deixam que as mãos deslizem o pensamento
No papel amarelecido pela ausência do que te queima a alma

Nem sempre o mar te envolve em maresia
Nem sempre a chuva te afaga o rosto açoitado pelo vento
Nem sempre os relâmpagos te fulminam na noite
Que te arrasta pela calçada agreste desprovida de árvores

Não imagines sequer que o teu poema tem que conter alguma mensagem
Não, tu és imperfeita no que ainda não fizeste
E não tens que ser perfeita naquilo que desconheces!
O que é a perfeição?

Deixa que a vida te ofereça a luz e abre a janela

Deixa simplesmente que ela te atenue a penumbra.


Ailime

25.08.2014
Imagem Google

quarta-feira, agosto 20, 2014

Há no fulgor da manhã


Há no fulgor da manhã
A magia do amor
Na fragrância das flores
Que atapetam o chão

A janela escancarada
Deixa que a luz do sol
Rompa a penumbra
E incendeie as paredes de cal

O mar lá em baixo
Sobressalta-se,
Não vá a maresia
Embaciar-me o olhar.


Ailime
20.08.2014

Imagem Google

quarta-feira, julho 23, 2014

Que te resta nestes dias


Que te resta nestes dias
Quando o sol percorre o teu corpo
E te desenha na alma
A chama que te acalenta

Que te resta nestes dias
Em que as horas esvoaçam
Como pássaros em debandada
Num corrupio quase trôpego

Que te resta nestes dias
Quando alvorece o sol-pôr
E o teu olhar se ensombrece
Oculto por uma nuvem furtiva

Que te resta nestes dias
Em que as palavras se ausentam
E deixas que um véu as desnude
Num mar de espuma agitado

Que te resta nestes dias…


Foto e texto
Ailime

23.07.14

sábado, julho 12, 2014

O murmúrio do mar


Nem o areal pressente
O murmúrio do mar
Quando as vagas repousam a espuma
Na transparência das tardes.

Apenas a luz capta o silêncio
Na profundeza das águas
E alastra no horizonte
O segredo das marés!




Texto e foto
Ailime
12.07.2014 

terça-feira, julho 01, 2014

Crepúsculo


Na celeridade dos dias
Em segundos apenas
Se estreitam as horas

O alvorecer desperta
Submerso no abismo
E o mar inunda a cidade

Por instantes os relógios
Silenciam o tempo
Na luz do crepúsculo
Que abraça o infinito


Texto e foto
Ailime
01.07.2014