terça-feira, abril 30, 2019

Veredas



Na singularidade da existência
movo-me por entre muros
que me asfixiam os passos
em apertadas veredas,
num rumar algo imperfeito.

Descubro sóis para além das ameias
dos muros que me cerceiam.
Aprisiono a luz filtrada pelas sombras
e deixo que a claridade me cinja
num prenúncio de transformação. 


Ailime
18.04.2012
Reedição revista
Imagem
 Google

segunda-feira, abril 22, 2019

Naquela madrugada


Naquela madrugada 
a cidade acordou antes do tempo. 
Pássaros em alvoroço 
sobrevoavam barcos 
marés cheias 
escarpas e silêncios. 

O rio, lá em baixo, a espreitar, 
azul de tanto céu. 
Estalavam foguetes 
Rostos mudos de espanto 
Clarões 
Olhares incrédulos. 

Onde estavam as sombras? 
Multidão em êxtase 
sorrisos e abraços. 
A longa noite expirara. 

Uma flor ergueu-se 
rubra como sol nascente  
no cano duma espingarda 
iluminou Abril. 


Texto
Ailime
22.04.2019
Imagem Google

segunda-feira, abril 08, 2019

Nos dias avessos à luz


Nos dias avessos à luz 
descubro veredas por entre florestas sombrias 
que me lembram o tempo 
em que caminhavas desamparado 
como se o mundo te renegasse 
o chão, que pesadamente pisavas 
como se não houvesse relâmpagos, 
nem pássaros, nem silêncios, nem palavras  
a rasgar as manhãs, que os teus olhos guardavam. 
Das tuas mãos, em gestos simples, 
as flores desprendiam-se como asas 
que ninguém via que ninguém ouvia. 
Apenas tu lhes conhecias a cor. 


Texto
Ailime 
08.04.2019 
Imagem Google

quinta-feira, março 28, 2019

Não quis rasgar o tempo


Não quis rasgar o tempo
nem contornar os rios
que me saíam do ventre.
Deixei apenas que dos meus lábios
as palavras se desatassem
como asas em pleno voo
no silêncio das manhãs.




Texto
Ailime
29.01.2017
Reedição

quinta-feira, março 14, 2019

Diante do mar o assombro


Diante do mar o assombro 
Aves errantes em sobressalto 
As marés que murmuram baixinho 
O teu nome 
No princípio da tua voz 
O silêncio a embargar os sentidos 

No cimo da arriba 
O farol antecipa a noite 
Quando a claridade do mar 
Se tinge de púrpura 
A Terra adormece tímida. 



Ailime 
14.03.2019 
Imagem
 Google

terça-feira, março 05, 2019

Do chão molhado da tarde


Do chão molhado da tarde 
Aves partem em debandada 
O firmamento acolhe-as  
Com os braços estendidos  
E enlaça-as 
Vagarosamente 
Como se fossem estrelas cadentes 
A cruzar a noite 
Nos umbrais do meu sentir.

Mas a tarde desdobra-se 
Em mil e uma cores. 
Agarro um arco-íris 
E poiso-o nas minhas mãos. 

Os pássaros regressam 
Em voo livre e cadente  
E espargem no chão 
Relâmpagos quase extintos. 


Texto
Ailime
05.03.2019
Imagem Google